TL;DR: O portal SlashFilm publicou um ranking com os 10 melhores westerns revisionistas de todos os tempos, colocando Unforgiven (1992), de Clint Eastwood, na primeira posição. A lista inclui obras que vão de 1943 a 2010 e atravessa nomes como John Ford, Sam Peckinpah, Robert Altman e Andrew Dominik — todos responsáveis por desmontar a mitologia heroica do Velho Oeste.
O que é um western revisionista e por que ele existe?
O western revisionista é um subgênero do faroeste cinematográfico que pega os cânones clássicos — pistoleiros solitários, mocinhos claros, vilões evidentes — e mostra o avesso: a violência gratuita, a cumplicidade coletiva, o racismo estrutural e a corrupção que sustentaram a expansão da fronteira americana. Em vez de romance, entrega realidade nua, frequentemente crua e desconfortável. Filmes como Stagecoach, Shane e High Noon, citados pela publicação como referências clássicas do faroeste, funcionam como ponto de partida moralmente limpo que o revisionismo vem desconstruir desde a década de 1940.
Quais são os 10 westerns revisionistas do ranking?
A lista do SlashFilm, organizada do 10º ao 1º lugar, é a seguinte:
- Johnny Guitar (1954), de Nicholas Ray
- Meek's Cutoff (2010), de Kelly Reichardt
- High Plains Drifter (1973), de Clint Eastwood
- The Ox-Bow Incident (1943), de William A. Wellman
- The Wild Bunch (1969), de Sam Peckinpah
- McCabe & Mrs. Miller (1971), de Robert Altman
- The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford (2007), de Andrew Dominik
- The Searchers (1956), de John Ford
- The Man Who Shot Liberty Valance (1962), de John Ford
- Unforgiven (1992), de Clint Eastwood
Por que Unforgiven ficou em primeiro lugar?
Unforgiven — western definitivo de Clint Eastwood, vencedor do Oscar de Melhor Filme em 1993 — é tratado pela publicação como a expressão máxima do revisionismo. Eastwood vive William Munny, ex-caçador de recompensas que largou a violência após se casar e virar fazendeiro; viúvo, ele aceita uma última caçada proposta pelo Schofield Kid (Jaimz Woolvett), recrutando o antigo parceiro Ned Logan (Morgan Freeman). O roteiro de David Webb Peoples usa a imagem clássica do astro para subverter as expectativas e transformar o filme em uma meditação sobre morte, culpa e passagem do tempo — não em um espetáculo de tiroteio.
Quem é o diretor que aparece mais vezes na lista?
John Ford, com dois títulos: The Searchers (3º lugar) e The Man Who Shot Liberty Valance (2º). Ford foi um dos pilares do faroeste clássico, e a publicação argumenta que esses dois filmes formam, juntos, uma espécie de tese pessoal sobre as mentiras embutidas nos mitos que ele mesmo ajudou a construir. Clint Eastwood também aparece duas vezes — em High Plains Drifter e no topo, Unforgiven —, mas como ator e diretor de uma fase mais tardia do gênero.
Qual é o western revisionista mais antigo e o mais recente da lista?
O mais antigo é The Ox-Bow Incident, de 1943, dirigido por William A. Wellman e estrelado por Henry Fonda. Com apenas 76 minutos, o filme adapta o romance de Walter Van Tilburg Clark e acompanha um grupo que persegue e enforca três homens suspeitos de roubar gado e matar um fazendeiro — só que, no momento da execução, eles começam a protestar inocência de forma convincente. É considerado um dos primeiros longas a tratar o Oeste com seriedade crítica.
O mais recente é Meek's Cutoff, de 2010, dirigido por Kelly Reichardt. O filme reconta um desastre real de 1845 na Oregon Trail usando uma proporção de quadro 1.33:1 — formato quadrado que evoca daguerreótipos — para colocar as personagens femininas, vividas por Michelle Williams, à margem da tomada de decisões, assim como ficavam à margem na vida real da caravana.
Quais filmes da lista John Wayne repudiou?
Dois: High Plains Drifter (1973) e The Wild Bunch (1969). Segundo o SlashFilm, Wayne chegou a escrever uma carta a Eastwood reclamando do retrato sombrio feito aos moradores da cidade de Lago no primeiro. Já The Wild Bunch desagradou por sua violência explícita — também rejeitada por Clint Eastwood, em outro contexto, embora ambos tenham atuado em obras revisionistas próprias.
Qual filme é o cult favorito da crítica francesa?
Johnny Guitar (1954), de Nicholas Ray. O SlashFilm lembra que críticos americanos da época acharam a produção camp demais, mas nomes como François Truffaut defenderam o longa como uma obra de sentimento genuíno e ousadia formal. O filme troca o duelo de pistoleiros por uma disputa entre duas mulheres — Vienna (Joan Crawford), dona de saloon, e Emma Small (Mercedes McCambridge), uma rival movida por ciúmes — e foi lido como uma crítica velada ao macarthismo, com roteiro creditado a Philip Yordan durante a blacklist de Hollywood.
Por que The Assassination of Jesse James é chamado de obra-prima moderna?
O longa de 2007, dirigido por Andrew Dominik e estrelado por Brad Pitt e Casey Affleck, foi um fracasso de bilheteria, mas ganhou status cult nas décadas seguintes. A publicação lembra que é o filme favorito do próprio Pitt entre os que ele fez, e destaca a fotografia de Roger Deakins — pensada para usar apenas luz natural — como peça-chave da atmosfera melancólica. A narrativa acompanha Robert Ford, fã obcecado pelos folhetins sobre Jesse James, e mostra o encontro entre o mito e o homem real por trás dele.
O que faz McCabe & Mrs. Miller ser considerado único entre os westerns?
Robert Altman (1915-2006) substitui o tiroteio por comércio e melancolia. McCabe & Mrs. Miller (1971) acompanha um jogador de Warren Beatty que abre um bordel em uma vila mineradora do noroeste do Pacífico e se associa a uma cafetina experiente vivida por Julie Christie. Quando uma corporação oferece a compra do negócio e ele recusa, é caçado na neve. O SlashFilm aponta a edição com diálogos sobrepostos, a fotografia em flash de Vilmos Zsigmond e a trilha de Leonard Cohen como ingredientes que transformaram o longa em elegia do Oeste como lugar de trambique, capital e azar.
Qual western da lista mudou a forma como Hollywood lidou com violência?
The Wild Bunch, de Sam Peckinpah, lançado em 1969. A publicação afirma que a violência visceral do longa — com câmera lenta e edição multiângulo em sequências de tiroteio — forçou o MPAA a repensar o recém-criado sistema de classificação etária e influenciou décadas de cinema de ação, de John Woo a Quentin Tarantino. Na trama, o bando de Pike Bishop (William Holden) tenta um último roubo na fronteira entre Texas e México em 1913, numa época em que automóveis e metralhadoras já começam a aparecer em cena.
Por onde começar a maratonar os 10 westerns revisionistas?
Para quem quer entender o arco do gênero sem se perder, três pontos de partida fazem sentido:
- Do mito à dúvida: comece por The Searchers (1956) e The Man Who Shot Liberty Valance (1962), os dois John Ford, para ver o revisionismo nascendo de dentro do próprio faroeste clássico.
- Da violência à crítica social: em seguida, vá para The Wild Bunch (1969) e Unforgiven (1992) — a transição do Oeste que cospe sangue para o Oeste que questiona a própria existência do herói.
- Do revisionismo ao experimental: feche com McCabe & Mrs. Miller (1971), High Plains Drifter (1973) e Meek's Cutoff (2010), onde o subgênero ganha cara autoral e câmera lenta política.
Maratonar nessa ordem revela o fio condutor que a publicação aponta: quanto mais o Velho Oeste é filmado, mais honesto ele fica — e mais desconfortável fica de assistir.
O ranking pode mudar?
Provavelmente sim. The Assassination of Jesse James já subiu de fracasso de bilheteria a clássico cult em menos de duas décadas; Meek's Cutoff virou referência em listas de melhor da década de 2010 mesmo tendo sido ignorado na época. O SlashFilm trabalha com o termo evergreen para classificar a lista, mas reconhece que o revisionismo continua produzindo obras — basta lembrar do impacto de Hell or High Water (2016) e Wind River (2017), ainda fora do recorte. Fica a pergunta: qual western revisionista dos anos 2020 vai entrar no top 10 na próxima atualização?


