O que aconteceu
O terceiro episódio de Spider-Noir — a série ambientada na Grande Depressão que explora o lado mais sombrio do universo do Teioso — entregou um momento aguardado pelos fãs: a estreia em live-action de Lonnie Lincoln, o infame Tombstone. A introdução ocorre de forma inesperada, enquanto o repórter Robbie Robertson investiga as condições precárias de uma Hooverville (nome dado às favelas da era da Grande Depressão americana). O que deveria ser apenas um registro jornalístico transforma-se em um campo de batalha quando a polícia decide atacar os moradores locais.
É nesse confronto que o personagem revela sua verdadeira natureza. Longe de ser apenas um capanga comum, Lonnie demonstra uma resistência sobre-humana, com sua pele endurecendo e repelindo os golpes dos cassetetes policiais. Ao lado de Flint Marko, o Homem-Areia, ele assume um papel de protetor dos oprimidos, subvertendo completamente a imagem de vilão clássico que conhecemos nos quadrinhos. A mídia, porém, distorce a narrativa, pintando ambos como monstros para justificar a violência estatal.
Como chegamos aqui
A trajetória de Tombstone nos quadrinhos é marcada por uma estética muito específica. Criado em 1988 por Gerry Conway e Alex Saviuk, o vilão foi concebido como um gângster albino, com pele branca como mármore e uma força descomunal. Sua rivalidade com Robbie Robertson é um pilar de sua história, baseada em um rancor que vem desde os tempos de escola. Ao longo das décadas, o personagem passou por diversas releituras:
- Animação de 1994: Manteve-se fiel à estética dos quadrinhos, servindo como um dos antagonistas recorrentes.
- The Spectacular Spider-Man: Talvez a versão mais icônica, onde ele foi elevado ao posto de principal chefão do crime de Nova York, suprindo a ausência do Rei do Crime.
- Your Friendly Neighborhood Spider-Man: Uma abordagem mais juvenil, onde Lonnie é um colega de classe de Peter Parker que entra para o mundo do crime para proteger o irmão.
A decisão de Spider-Noir de ignorar o albinismo e o formato de cabeça "quadrada" (que lembra o monstro de Frankenstein) de Tombstone em favor de uma aparência mais natural — com marcas faciais que lembram próteses alienígenas — é uma escolha arriscada. Enquanto alguns puristas torcem o nariz, a série parece interessada em desconstruir o conceito de "vilão" e "herói" dentro de um contexto histórico denso.
O que vem depois
O cenário para o futuro de Tombstone no live-action é curioso. Vale lembrar que o rapper e ator Marvin Jones III (também conhecido como Krondon) já está escalado para interpretar o vilão no próximo filme Spider-Man: Brand New Day. Isso cria uma situação inusitada: temos duas versões do mesmo vilão circulando em produções diferentes da Sony quase simultaneamente. A pergunta que fica é se o público conseguirá dissociar a versão "justiceira" de Spider-Noir da versão gângster que deve aparecer no cinema.
A aposta da série é clara: transformar a propaganda em um elemento narrativo. Se a série continuar a tratar a percepção pública como uma arma, é provável que vejamos Tombstone sendo pintado como um vilão cada vez mais perigoso pela imprensa, enquanto, na prática, ele se torna um aliado improvável na luta contra a corrupção sistêmica daquela Nova York decadente.
O lado que ninguém está vendo
A grande questão aqui não é a fidelidade visual, mas a funcionalidade do personagem. O Tombstone de Spider-Noir funciona porque ele é um espelho da desesperança daquela época. Ao remover o albinismo e focar na pele endurecida como uma mutação quase orgânica, a série torna o personagem menos caricato e mais humano — ou, pelo menos, mais trágico.
Muitos fãs reclamam da falta da aparência clássica, mas ignoram que, em 2026, adaptar um gângster albino com cabeça quadrada de forma literal poderia facilmente cair no ridículo em uma série de tom sério e noir. A produção acertou ao priorizar a essência da ameaça física e a dinâmica com Robbie Robertson em vez de tentar replicar um design dos anos 80 que, convenhamos, envelheceu de forma questionável. A aposta da série é transformar o vilão em um símbolo de resistência, e, até agora, essa mudança de tom tem se mostrado uma das decisões mais inteligentes do roteiro.


