O potencial desperdiçado de Kunon the Sorcerer
Quantas vezes precisamos assistir à mesma história de um protagonista de light novel (romance ilustrado japonês) que, subitamente, ganha um poder especial e vira o centro de um harém genérico? Kunon the Sorcerer Can See — anime produzido pelo estúdio Platinum Vision — tinha nas mãos uma premissa que, se bem executada, poderia ter sido um marco recente no gênero de fantasia. A história acompanha Kunon Gurion, um jovem nascido com uma maldição que o priva da visão, mas que decide usar a magia para contornar sua limitação e enxergar o mundo novamente.
O problema é que, entre a ideia original de La-na e a transposição para as telas, algo se perdeu no caminho. O que deveria ser uma jornada de superação e descoberta acaba se tornando um exercício de paciência para o espectador, preso em uma produção que grita "orçamento limitado" em cada frame. Abaixo, elenco os pontos que definem por que este título acabou caindo no esquecimento antes mesmo de terminar sua primeira temporada.
- A animação que tira a magia da cena: A direção de arte é, infelizmente, o calcanhar de Aquiles da obra. Com movimentos travados e atalhos visuais óbvios, o estúdio Platinum Vision falhou em entregar o mínimo de fluidez necessária para uma série focada em magia, transformando momentos que deveriam ser épicos em cenas estáticas e sem vida.
- O roteiro que se perde no básico: A premissa da deficiência de Kunon é tratada com sensibilidade no início, evitando o melodrama barato. Contudo, conforme os episódios avançam, o roteiro de Yuki Enatsu abandona o desenvolvimento do protagonista para focar em clichês de escola de magia que já vimos em centenas de outras produções.
- O elenco de apoio como único respiro: Se há algo que salva a experiência, é a química entre Kunon e personagens como Mirika, sua noiva. A dinâmica de relacionamento é, por vezes, genuinamente fofa e foge das piadas sexistas cansativas que costumam assombrar esse tipo de narrativa.
- A queda de ritmo na segunda metade: A série começa com uma proposta de "vida cotidiana" (slice-of-life) aceitável, mas perde o fôlego quando tenta introduzir conflitos mais amplos. O espectador percebe rapidamente que o autor não tinha um plano sólido para sustentar a narrativa após a premissa inicial ser estabelecida.
- A saturação do gênero: Kunon acaba virando apenas mais um rosto na multidão de protagonistas de light novel. O que o diferenciava — sua busca por enxergar — é deixado de lado em favor de aventuras genéricas e encontros casuais, perdendo a chance de ser uma obra com identidade própria.
A ironia mais triste de Kunon the Sorcerer Can See é que a série, sobre um personagem que deseja ver o mundo, é visualmente tão desinteressante que você não sente vontade de olhar para ela.
É frustrante notar que existe um "núcleo" de uma boa história ali. Se o estúdio tivesse investido em um design de mundo mais criativo ou se o roteiro tivesse mantido o foco na jornada pessoal de Kunon em vez de ceder às pressões comerciais de seguir o manual do "protagonista de harém", teríamos um resultado muito mais robusto. Em vez disso, ficamos com uma obra que parece ter sido montada em uma linha de montagem industrial de animes de temporada.
Onde isso pode dar
Para o espectador casual que busca apenas passar o tempo, Kunon the Sorcerer Can See pode ser um passatempo inofensivo, contanto que você não espere uma obra-prima de animação ou um roteiro que desafie o intelecto. Ele se encaixa perfeitamente na categoria de "anime de fundo", aquele que você assiste enquanto faz outra coisa, sem se preocupar em perder detalhes cruciais da trama.
Entretanto, para quem busca inovação ou uma representação mais profunda sobre superação, a série é um erro de percurso. A aposta da redação é que este título será rapidamente esquecido pelos serviços de streaming, servindo apenas como um lembrete de que uma boa premissa não sobrevive a uma execução medíocre. Se você tem pouco tempo livre, existem dezenas de outras obras de fantasia nesta temporada que entregam muito mais substância técnica e narrativa do que as aventuras de Kunon.


