Quatro filmes — Brazil (1985), Metropolis (1927), Matrix (1999) e Blade Runner (1982) — criaram o DNA visual e narrativo que toda ficção científica distópica moderna ainda replica, da burocracia opressiva às megacidades neon controladas por corporações.
O que aconteceu
O site ComicBook.com publicou uma lista identificando os quatro longas que, segundo a publicação, funcionam como "o Monte Rushmore" do gênero distópico. A seleção não foca em qual é "melhor", mas sim em quais obras estabeleceram os tropos que viraram fórmula: a burocracia kafkiana que não precisa funcionar para oprimir (Brazil), a metrópole verticalizada com elite no topo e trabalhadores na base (Metropolis), a realidade simulada que o herói descobre ser mentira (Matrix) e a estética cyberpunk de chuva, neon e replicantes (Blade Runner).
Cada filme aparece com exemplos concretos de produções posteriores que beberam na fonte: Jupiter Ascending, Star Wars: O Último Jedi e 12 Macacos ecoam Brazil; Elysium, O Quinto Elemento, akira e até o c-3po de Star Wars devem dívida a Metropolis; Equilibrium, Ultravioleta, A Ilha e A Origem copiaram coreografia, paleta de cores e premissa de Matrix; Dark City, Dias Estranhos, Johnny Mnemonic, Gattaca e Ghost in the Shell nasceram sob a sombra visual de Blade Runner.
Como chegamos aqui
Tudo começa em 1927, quando Fritz Lang lança Metropolis — mudo, expressionista, alemão. A cidade do futuro tem jardins suspensos para os ricos e máquinas infernais no subsolo onde operários movem alavancas sem parar. O robô maria, com seu corpo metálico articulado, vira o avô de todo androide cinematográfico. Quase sessenta anos depois, Ridley Scott pega essa desigualdade vertical, adiciona chuva ácida, letreiros de kanji gigantes e a pergunta "o que nos torna humanos?" em Blade Runner (1982). O visual do filme — ruas apertadas, fumaça, luzes coloridas refletindo no asfalto molhado — vira o default do cyberpunk.
No meio do caminho, Terry Gilliam entrega Brazil (1985). Sam Lowry (Jonathan Pryce) é um funcionário público num Estado onde preencher o formulário errado vira sentença de morte. A genialidade está na ineficiência: o sistema não precisa funcionar, só precisa te processar. A estética retro-futurista de dutos expostos, telas crt e papelada infinita vira referência para qualquer distopia burocrática — de 12 Macacos (do próprio Gilliam) a cenas de cassino em O Último Jedi.
Por fim, 1999: as irmãs Wachowski lançam Matrix. Neo (Keanu Reeves) descobre que o mundo é código, aprende kung-fu via download e faz coreografia de tiro em câmera lenta com "bullet time". O pacote completo — casacos longos, óculos espelhados, paleta verde-dentro-da-matriz/azul-no-mundo-real, questionamento ontológico — vira atalho visual para "realidade falsa" nas duas décadas seguintes.
O que vem depois
O legado desses quatro filmes não está parado. Novas camadas vêm sendo adicionadas:
- Séries como Black Mirror e Severance levam a burocracia de Brazil para o ambiente corporativo contemporâneo.
- Jogos como cyberpunk 2077 e o futuro Blade Runner 2033 lab expandem a estética neon-chuva de Scott para mídia interativa.
- O debate sobre IA generativa e deepfakes reacende a pergunta de Matrix e Blade Runner: se a simulação é indistinguível, a diferença ainda importa?
- Produções recentes (Parasita, O Poço, Snowpiercer) mantêm a estrutura vertical de Metropolis mas trocam a ficção científica por alegoria social direta.
O que fica claro: qualquer roteirista que escreva "cidade do futuro" hoje está, consciente ou não, dialogando com Lang, Scott, Gilliam e as Wachowskis. A originalidade possível não está em ignorar esses pilares, mas em torcê-los para falar do agora.
Para ficar no radar
Se você nunca viu os quatro, a ordem cronológica de lançamento ajuda a enxergar a evolução da linguagem: Metropolis → Blade Runner → Brazil → Matrix. Todos estão disponíveis em plataformas de streaming principais no Brasil (verifique catálogo atual). Vale notar que Blade Runner tem múltiplos cortes; o final cut (2007) é a versão supervisionada por Ridley Scott. Brazil também tem versões diferentes — a do diretor (142 min) é a mais completa.
Para quem quer ir além: O Homem do Futuro (1960, La Jetée), base de 12 Macacos, e Dark City (1998), que antecipa o "mundo falso" de Matrix com estética noir, são complementos obrigatórios na maratona.


