A era dos YouTubers chegou ao cinema de prestígio
O tempo em que diretores precisavam de décadas de carreira ou indicações em festivais obscuros para ganhar um orçamento da A24 — o estúdio de cinema independente responsável por sucessos como Hereditário e A Bruxa — acabou. A estreia de Backrooms, longa-metragem dirigido por Kane Parsons, o criador da websérie viral de mesmo nome, é o prego final no caixão da velha guarda. Estamos vendo uma mudança de paradigma: o talento bruto que nasceu no algoritmo do YouTube agora ocupa as salas de cinema, trazendo uma estética que o público jovem já consome há anos.
O filme, que coloca Chiwetel Ejiofor (ator de Doutor Estranho) como Clark, um homem perdido em um labirinto de escritórios liminares, e Renate Reinsve (atriz de A Pior Pessoa do Mundo) como sua terapeuta, estreou com sólidos 80% de aprovação no Rotten Tomatoes. Mas, sendo bem sincero: a nota importa tanto assim quando estamos falando de um fenômeno da internet?
O embate: Atmosfera vs. Narrativa
A grande questão que divide críticos e fãs é se o conceito de Backrooms — originalmente uma creepypasta (lenda urbana da internet) sobre espaços vazios e desconfortáveis — consegue sustentar um roteiro de longa duração. Aqui, o comparativo entre a origem do material e o resultado final é brutal:
| Aspecto | Websérie (YouTube) | Filme (A24) |
|---|---|---|
| Foco | Imersão pura e mistério | Desenvolvimento de drama e personagens |
| Ritmo | Direto e frenético | Lento e contemplativo |
| Ponto forte | Medo do desconhecido | Atuações e direção de arte |
Enquanto a websérie brilha por não explicar nada, o filme tenta dar uma estrutura de "drama psicológico". E é aí que a opinião da redação se divide. Por um lado, a atmosfera claustrofóbica é um triunfo técnico indiscutível. Por outro, o excesso de diálogos entre os protagonistas parece uma tentativa forçada de dar um peso dramático que o material original nunca precisou. Quando o filme tenta ser um drama de consultório, ele perde o ritmo; quando abraça o horror surrealista dos corredores infinitos, ele é um dos melhores filmes do gênero nos últimos anos.
O que os críticos estão ignorando
Muitas das críticas positivas focam em como Parsons é um "visionário", mas o lado que ninguém está vendo é o risco da institucionalização do conteúdo viral. Ao trazer Backrooms para dentro da estrutura da A24, o projeto ganha polimento, mas perde parte daquela crueza que fez a internet se apaixonar pelo conceito em primeiro lugar.
- O visual: A direção de arte consegue replicar perfeitamente o pesadelo dos escritórios dos anos 90.
- A atuação: Chiwetel Ejiofor entrega muito, mas talvez esteja "atuando demais" para um filme que depende de um clima de desorientação.
- O roteiro: O maior inimigo de Backrooms é a necessidade de explicar o inexplicável.
Não me leve a mal: é um filme obrigatório para qualquer fã de horror contemporâneo. No entanto, é preciso separar o hype da qualidade real. A transição de Parsons prova que ele sabe filmar, mas ainda precisa aprender a editar o excesso de exposição narrativa que Hollywood tanto ama.
Onde isso pode dar
A aposta da redação é que Backrooms não será um sucesso isolado, mas o início de uma tendência. Espere ver grandes estúdios caçando criadores de conteúdo com seguidores na casa dos milhões para adaptar seus universos de terror de nicho. O risco? Transformar o horror experimental em um produto genérico de prateleira.
O filme chega aos cinemas no final de maio de 2026. Se você busca uma experiência sensorial que te deixa desconfortável e com vontade de checar as paredes da sua casa, vá. Mas não espere que as respostas que a internet tanto busca estejam todas lá. Às vezes, o melhor do horror é justamente o que não é dito.


