O que é a temida "Maldição de Marte" em Hollywood?
Para quem acompanha a indústria cinematográfica, o termo "Maldição de Marte" não é apenas uma superstição de bastidores, mas um dado estatístico doloroso para os bolsos dos grandes estúdios. Andy Weir, o autor por trás do fenômeno literário perdido em marte (The Martian), confessou recentemente que essa reputação negativa quase impediu que sua história chegasse às telonas sob o comando de Ridley Scott (renomado diretor de clássicos como Alien, o Oitavo Passageiro).
A preocupação de Weir era fundamentada em fatos. Durante décadas, qualquer produção que colocasse "Marte" no título ou como cenário principal parecia destinada ao esquecimento ou, pior, ao desastre financeiro. Em uma entrevista recente à Lightspeed Magazine, o escritor detalhou como o histórico de fracassos de ficção científica quase serviu de barreira para o longa estrelado por Matt Damon (ator conhecido pela franquia Bourne).
Quais foram os grandes fracassos que assombraram a produção?
O retrospecto de Hollywood com o Planeta Vermelho é, no mínimo, desencorajador. Weir citou diversos exemplos que fizeram os executivos de cinema tremerem antes de dar o sinal verde para novos projetos espaciais. Entre os principais culpados pela má fama do planeta, destacam-se:
- Marte Ataca! (1996): A comédia satírica dirigida por Tim Burton (batman) foi recebida com frieza pela crítica e mal conseguiu recuperar seu orçamento de US$ 100 milhões, arrecadando pouco mais do que isso mundialmente.
- Planeta Vermelho (2000): Estrelando Val Kilmer (top gun), o filme foi um dos maiores fiascos do ano, arrecadando apenas US$ 33 milhões para um custo de produção de US$ 80 milhões.
- Missão Marte (2000): Dirigido por Brian De Palma (Scarface), o filme até teve um desempenho mediano, mas foi massacrado pela crítica e considerado entediante por grande parte do público.
- John Carter: Entre Dois Mundos (2012): Talvez o golpe final na paciência dos estúdios. A Disney (gigante do entretenimento) chegou a remover a palavra "Marte" do título original (John Carter of Mars) na esperança de evitar o estigma, mas o filme se tornou um dos maiores prejuízos da história do cinema.
- Marte Precisa de Mães (2011): Outra animação da Disney que afundou nas bilheterias, reforçando a ideia de que o público simplesmente não queria saber do vizinho da Terra.
O sucesso de Perdido em Marte foi uma exceção à regra
De acordo com Andy Weir, o último grande sucesso comercial ambientado no planeta antes de sua obra foi O Vingador do Futuro (Total Recall), lançado em 1990 e estrelado por Arnold Schwarzenegger. Houve um hiato de 25 anos em que Marte foi sinônimo de prejuízo. Weir admite que ficou surpreso e aliviado quando Perdido em Marte não apenas foi produzido, mas se tornou um sucesso estrondoso, arrecadando US$ 630 milhões e recebendo sete indicações ao Oscar.
"Quando você fala sobre filmes de Marte, existe o que chamam de 'A Maldição de Marte' na indústria; isso era algo que poderia, potencialmente, ser um problema para conseguir o sinal verde", explicou o autor.
Apesar do medo, Weir sempre defendeu que o problema não era o planeta em si, mas a forma como as histórias eram contadas. Para ele, comparar filmes apenas pelo cenário é um erro de lógica. Ele utiliza uma analogia interessante: comparar Cloverfield: Monstro com a série friends só porque ambos se passam em Nova York não faz sentido. Da mesma forma, um filme de terror em Marte é diferente de uma sobrevivência científica realista.
Por que o realismo salvou o filme de Ridley Scott?
Um dos pontos cruciais levantados por Weir para o sucesso de Perdido em Marte foi o abandono dos clichês de filmes de ação espaciais. Em produções como Planeta Vermelho, os astronautas agiam de forma pouco profissional, entrando em conflitos físicos e discussões acaloradas que, segundo Weir, não condizem com a realidade da NASA (Agência Espacial Americana).
Astronautas reais passam por rigorosos testes psicológicos e são treinados para trabalhar em equipe sob pressão extrema. Em Perdido em Marte, o personagem Mark Watney utiliza a ciência e a lógica para sobreviver, em vez de enfrentar robôs assassinos ou alienígenas benevolentes. Essa abordagem mais "pé no chão" (mesmo em outro planeta) ressoou com o público moderno, que buscava uma ficção científica mais inteligente e menos fantasiosa.
O autor observa que, se você quer que um filme em Marte funcione, deve focar em "coisas de astronautas" e não em "coisas de filmes de ação". A autenticidade técnica e o otimismo da trama foram fundamentais para quebrar o ciclo de fracassos e provar que o Planeta Vermelho ainda tem muito a oferecer para a cultura pop.
O que esperar de futuras produções em Marte
O sucesso de Weir abriu portas, mas a lição deixada por Hollywood é clara:
- Qualidade sobre cenário: O público não rejeita o planeta, mas sim roteiros genéricos que usam o espaço apenas como pano de fundo para clichês.
- Ciência como entretenimento: Existe um mercado massivo para a "hard sci-fi" (ficção científica realista), como provado por interestelar e Perdido em Marte.
- Fim do estigma: A "Maldição de Marte" foi tecnicamente quebrada, mas os estúdios ainda mantêm cautela com orçamentos astronômicos para o tema.
- Novas adaptações: O sucesso de Weir pavimentou o caminho para que outras obras suas, como Project Hail Mary, ganhem adaptações de alto nível.


