TL;DR: A Yuriten cancelou o evento de comemoração dos 10 anos após mangakás de yuri denunciarem o uso de imagens criadas por IA nas peças de divulgação.
O que aconteceu
Na última sexta‑feira, a equipe responsável pela Yuriten – a feira dedicada ao gênero yuri – anunciou a suspensão do evento planejado para o fim de semana de 17 e 18 de outubro, que seria realizado em frente ao complexo Hareza, em Ikebukuro, Tóquio. A decisão veio depois que a divulgação oficial, que incluía cartazes e decorações, revelou a utilização de arte produzida por inteligência artificial. O anúncio gerou forte reação nas redes sociais, especialmente entre criadores de mangá que se sentiram traídos por uma iniciativa que deveria celebrar a produção humana.
Entre as vozes mais incisivas estavam Nio Nakatani, autora de Bloom Into You, que descreveu a situação como "confusa e decepcionante", e Yukiko, criadora de Futaribeya: A Room for Two, que sugeriu que não colaboraria mais com a organização. Yayoi Osawa, responsável por Hello, Melancholic!, apontou a contradição de uma feira que, ao longo de uma década, sempre contou com a presença de artistas humanos, mas que agora recorria a algoritmos para gerar seu material visual.
A empresa Lilium, proprietária da Yuriten e responsável por um café temático de yuri, publicou um pedido de desculpas oficial, reconhecendo falhas no processo de contratação de terceiros e prometendo rever suas políticas internas de uso de IA. O comunicado também informou que a empresa já havia removido o post original da rede X/Twitter e que o evento seria definitivamente cancelado após discussões internas.
Como chegamos aqui
Fundada em 2016, a Yuriten começou como uma exposição temporária no antigo departamento Marui, em Ikebukuro. Desde então, o evento se tornou um ponto de encontro anual para fãs e criadores de yuri, oferecendo espaços para lançamentos de mangás, painéis de discussão e vendas de produtos exclusivos. Em 2018, a feira enfrentou seu primeiro revés quando teve que mudar de local poucos dias antes da abertura, citando dificuldades logísticas para os artistas participantes.
Nos últimos anos, a organização passou a terceirizar parte da comunicação visual para agências externas, buscando modernizar a identidade da marca. Foi nesse contexto que, em 2026, um contratado utilizou um gerador de imagens baseado em IA para criar os principais cartazes da campanha de 10º aniversário. O material, embora visualmente atraente, continha traços e estilos que lembravam obras de mangakás contemporâneos, gerando a percepção de que o trabalho deles havia sido copiado ou substituído por algoritmos.
A reação nas redes sociais foi rápida. Diversos usuários no X/Twitter, Reddit e fóruns de yuri compartilharam capturas das imagens e questionaram a ética da prática. O debate girou em torno de três pontos centrais:
- Originalidade: a IA pode reproduzir estilos existentes sem consentimento dos autores.
- Impacto econômico: o uso de IA pode reduzir a demanda por ilustradores humanos.
- Coerência de marca: uma feira que se posiciona como promotora da arte feita à mão contradiz sua própria mensagem ao empregar tecnologia que substitui o artista.
Essas críticas pressionaram a Lilium a agir rapidamente, resultando no cancelamento do evento e na promessa de revisar seus contratos futuros. A empresa ainda não revelou se haverá uma nova data para a celebração ou se o formato será alterado para evitar novas controvérsias.
O que vem depois
O futuro da Yuriten ainda está em aberto. Enquanto a Lilium trabalha na reformulação de suas diretrizes internas, a comunidade de criadores de yuri parece dividida: alguns defendem que a feira deve retornar com um comprometimento firme de não usar IA, enquanto outros sugerem que a organização poderia explorar a tecnologia de forma colaborativa, por exemplo, envolvendo artistas humanos na curadoria dos prompts.
Para os fãs brasileiros, a situação traz duas reflexões importantes. Primeiro, a necessidade de acompanhar de perto como eventos internacionais lidam com a crescente presença da IA na produção cultural, já que isso pode influenciar práticas locais. Segundo, o caso serve como alerta para organizadores de convenções, feiras e lançamentos: transparência e respeito ao trabalho criativo são requisitos cada vez mais valorizados pelo público.
Enquanto isso, a Lilium ainda não divulgou planos concretos de compensação para os artistas que se sentiram prejudicados. A expectativa é que a empresa publique um relatório detalhado sobre o processo de seleção de fornecedores e as medidas corretivas adotadas. Caso a Yuriten retome suas atividades, será crucial observar se a nova política será efetivamente aplicada ou se a pressão da comunidade será suficiente para manter a feira livre de práticas que utilizem IA de forma não autorizada.
Para ficar no radar
Os próximos passos a observar incluem:
- Comunicação oficial da Lilium sobre a data ou formato de uma nova edição da Yuriten.
- Possíveis declarações de sindicatos ou associações de mangakás sobre o uso de IA em eventos culturais.
- Reação de outras feiras de anime e mangá no Japão e no exterior, que podem rever suas próprias políticas de imagem.
- Desenvolvimento de diretrizes de uso de IA por plataformas de redes sociais que hospedam material promocional.
Para quem acompanha a cena yuri, a situação serve como um lembrete de que a tecnologia, embora poderosa, ainda precisa ser mediada por princípios éticos que preservem a autoria e a integridade artística.


