O potencial não realizado de Yoshi
Yoshi and the Mysterious Book é, à primeira vista, um deleite visual. Desenvolvido pela Good-Feel, o título carrega aquele charme inconfundível que esperamos das aventuras do dinossauro da Nintendo. No entanto, por trás da estética fofa e da jogabilidade acessível, esconde-se uma frustração profunda: o jogo apresenta uma mecânica que poderia transformá-lo em um clássico absoluto, mas decide enterrá-la quase tão rápido quanto a introduz.
A premissa é simples: o jogador deve encontrar o lendário Bewilder Bird antes que o vilão Bowser Jr. e seu capanga Kamek o façam. Durante a maior parte da jornada, o gameplay segue o padrão tradicional da franquia: você encontra criaturas específicas, cada uma com uma habilidade única — como o Snurfboard para navegar sobre ondas ou o Stickiwick para escalar — e usa esses poderes para superar obstáculos pré-determinados. É funcional, é seguro, mas é também extremamente limitado.
O divisor de águas: O Bewilder Bird
A virada de chave acontece no Mundo 6. Ao desbloquear o Bewilder Bird, o jogador ganha a capacidade de se transformar instantaneamente em qualquer criatura já descoberta anteriormente. Pela primeira vez, o jogo deixa de ser um tutorial glorificado e se torna um verdadeiro playground. A sensação de liberdade é imediata: você não precisa mais seguir o caminho óbvio; você pode escolher como resolver cada desafio.
Imagine estar diante de uma cachoeira. Em vez de uma solução única, você pode usar o Glubbit para flutuar ou o Goonie para voar em rajadas curtas. A escolha é sua. Esse nível de agência elevou o título a um patamar de design que lembra, guardadas as devidas proporções, a liberdade criativa vista em The Legend of Zelda: Echoes of Wisdom.
Comparativo: Estrutura vs. Liberdade
| Aspecto | Estrutura Padrão (Mundos 1-5) | Com o Bewilder Bird (Mundo 6) |
|---|---|---|
| Abordagem | Linear e guiada | Experimental e aberta |
| Resolução | Uma única solução por puzzle | Múltiplas soluções criativas |
| Ritmo | Tedioso e repetitivo | Dinâmico e engajante |
O grande pecado de Yoshi and the Mysterious Book é que essa liberdade dura apenas um nível. Após o Mundo 6, o jogo retorna ao status quo, ignorando completamente o potencial que acabou de demonstrar. É uma decisão de design incompreensível. Por que oferecer uma ferramenta tão poderosa para logo em seguida retirá-la do jogador?
Onde isso pode dar?
A pergunta que fica é: o que impediu a Good-Feel de abraçar essa mecânica? Talvez o medo de alienar o público mais jovem ou uma restrição severa de tempo de desenvolvimento. Independentemente do motivo, o resultado é um jogo que deixa um gosto amargo de "quase".
- A aposta da redação: Esperamos que a Nintendo lance uma expansão ou DLC focada em níveis estilo "sandbox".
- O lado que ninguém está vendo: A simplicidade excessiva pode ter sido uma tentativa de manter o jogo dentro de uma zona de conforto comercial, sacrificando a inovação.
- O veredito: O jogo é divertido, mas a falta de ambição em utilizar o Bewilder Bird em toda a sua plenitude impede que ele seja memorável.
Não estamos pedindo um jogo de dificuldade extrema, mas sim um que confie na inteligência do jogador para explorar suas próprias ferramentas. Yoshi and the Mysterious Book tinha tudo para ser um título de elite, mas, ao desperdiçar sua melhor mecânica, acabou se tornando apenas mais uma aventura esquecível no vasto catálogo do nintendo switch.


