A estreia de Winter Kills em 1979 encerrou uma produção que durou dois anos, paralisada por falta de verba e marcada pelo assassinato de um produtor e pela prisão de outro. O filme reúne Jeff Bridges — então conhecido pelo "garoto americano" de The Last Picture Show (1971) — e o lendário diretor John Huston atuando como pai do protagonista, em uma alegoria velada sobre o assassinato de John F. Kennedy baseada no romance de Richard Condon, autor também de The Manchurian Candidate.
O que aconteceu
Winter Kills chegou aos cinemas em 1979 dirigido por William Richert, que também assina o roteiro. A trama segue Nick Kegan (Bridges), herdeiro de uma dinastia familiar que descobre indícios de que o irmão mais velho, presidente eleito, foi vítima de conspiração. O tom oscila entre o thriller de conspiração clássico dos anos 70 e a comédia negra à la Dr. Strangelove, de Stanley Kubrick, com situações cada vez mais surreais conforme Nick investiga.
O elenco de apoio é extenso: Belinda Bauer, Ralph Meeker, Toshiro Mifune, Eli Wallach, Sterling Hayden, Tomas Milian, Elizabeth Taylor, Anthony Perkins e Joe Spinell. A presença de Huston como Pa Kegan — patriarca hedonista e ameaçador — funciona como ponte entre seu passado no film noir (estreou na direção com The Maltese Falcon, 1941) e suas participações em filmes de exploração italianos da década.
Como chegamos aqui
A década de 1970 viveu o auge do thriller de conspiração política nos EUA. O choque do escândalo Watergate e a renúncia de Richard Nixon em 1974 alimentaram narrativas sobre poder oculto nas altas esferas. O New Hollywood e a flexibilização do código Hays permitiram roteiros mais ousados, misturando noir, espionagem e horror.
Condon publicou o romance em 1974. As filmagens começaram em 1977, mas o dinheiro acabou. Richert precisou dirigir outro longa — The American Success Company (1980) — para arrecadar fundos e terminar Winter Kills. Nesse intervalo, o produtor Leonard Goldberg foi assassinado e o co-produtor Robert Sterling acabou preso. O filme só estreou em 1979, com distribuição limitada pela AVCO Embassy Pictures.
Huston já era uma lenda viva: dirigiu The Treasure of the Sierra Madre, The African Queen, The Man Who Would Be King e, anos depois, Annie (1982). Como ator, brilhou em Chinatown (1974) e topava papéis excêntricos em produções italianas como Tentacles e The Visitor. Em Winter Kills, ele une a gravidade noir ao deboche. Anos depois, adaptaria outro livro de Condon, Prizzi's Honor (1985), com Jack Nicholson.
Para Bridges, o papel de Nick Kegan antecipa a fase madura de Cutter's Way (1981), Against All Odds (1984) e Jagged Edge (1985), afastando-o do estereótipo de mocinho ingênuo.
O que vem depois
Apesar do fracasso comercial inicial, Winter Kills ganhou status de cult nas décadas seguintes. A versão do diretor, restaurada em 1983, adiciona cenas que ampliam a sátira. Hoje, o filme circula em plataformas de streaming e edições físicas de colecionador, sendo citado como precursor de obras como JFK (1991) de Oliver Stone.
- Romance original: Winter Kills, Richard Condon, 1974.
- Filme anterior de Condon adaptado: The Manchurian Candidate (1962 e 2004).
- Próximo trabalho de Richert: The American Success Company (1980).
- Próxima adaptação de Condon por Huston: Prizzi's Honor (1985).
Por onde começar com Winter Kills
Quem nunca viu o filme deve procurar a versão do diretor de 1983, que restaura o ritmo e a ironia pretendidos por Richert. A obra funciona como cápsula do tempo do cinema político dos anos 70: paranoia real, elenco estelar e um humor negro que alivia a tensão sem diminuir a gravidade do tema. Para fãs de Bridges, é o elo entre o astro juvenil e o ator de personagem que viria a vencer o Oscar por Crazy Heart (2009). Para estudiosos de Huston, é a prova de que seu talento diante das câmeras rivalizava com o de trás delas.
O longa continua relevante não pelo "quem matou JFK", mas pela forma como expõe a máquina de mitos e encobrimentos que move a política americana — um roteiro que, infelizmente, nunca sai de moda.


