TL;DR: O livro Undersea War revela que cabos submarinos, essenciais para a internet global, estão cada vez mais vulneráveis a sabotagens e incidentes deliberados, como o caso do navio Eagle S em 2024.
O que aconteceu
Apesar da expansão de constelações de satélites como a Starlink, a maior parte do tráfego de internet ainda depende de cabos de fibra óptica que cruzam os fundos oceânicos. Esses cabos coexistem com oleodutos, gasodutos e linhas de transmissão submarinas, formando uma rede invisível mas vital. Nos últimos anos, incidentes suspeitos têm aumentado: embarcações que arrastam âncoras por períodos prolongados têm cortado ou danificado esses cabos, tanto de forma acidental quanto intencional.
O livro Undersea War, escrito por Elisabeth Braw — senior fellow do Atlantic Council e líder da Threats to the Global Maritime Order Initiative — documenta essa escalada. Entre os episódios mais marcantes está o chamado "massacre de Natal" de 2024, quando o petroleiro Eagle S, ligado à Rússia, arrastou a âncora por cerca de 56 milhas (90 km) no fundo do mar, danificando quatro cabos de dados e o cabo de energia Estlink 2, que conecta as redes elétricas da região do Báltico e dos países nórdicos.
Um mês antes, o cargueiro chinês Yi Peng 3 havia rompido dois cabos de dados no mesmo setor do Mar Báltico. Enquanto o caso do Yi Peng 3 não resultou em processos na Europa, as autoridades finlandesas abriram processo contra três oficiais seniores do Eagle S, indicando uma mudança de postura diante de possíveis atos de sabotagem.
Como chegamos aqui
Historicamente, cerca de 60% dos danos a cabos submarinos eram atribuídos a erros humanos — redes de pesca e âncoras que se arrastam pelo leito marinho. Eventos naturais, como tempestades e deslizamentos submarinos, respondiam por uma parcela menor. Em média, entre 150 e 200 cabos são danificados anualmente, mas a maioria dos reparos ocorre rapidamente, graças a equipes especializadas que operam a partir de navios de manutenção.
Entretanto, o panorama mudou com o aumento de tensões geopolíticas. Conflitos abertos na Europa e no Oriente Médio, bem como a prática de guerra cinzenta — ações que ficam entre a paz e a guerra declarada — intensificaram a vigilância sobre incidentes de corte de cabos. Governos passaram a investigar mais rigorosamente cada caso, e alguns processos judiciais começaram a ser movidos contra tripulações suspeitas.
- Fatores humanos: redes de pesca e âncoras arrastando.
- Fatores naturais: tempestades e deslizamentos submarinos.
- Fatores geopolíticos: sabotagem deliberada em contexto de guerra cinzenta.
O livro de Braw destaca que, embora a maioria dos incidentes ainda seja acidental, a frequência de eventos com motivação política está crescendo. O caso do Eagle S exemplifica como um navio pode ser usado como ferramenta de espionagem ou de interrupção estratégica, carregando equipamentos de vigilância enquanto corta infraestruturas críticas.
O que vem depois
Com a vulnerabilidade dos cabos submarinos cada vez mais evidente, especialistas apontam para três caminhos possíveis:
- Reforço físico: desenvolvimento de cabos mais resistentes a arraste de âncoras, uso de blindagem adicional e rotas que evitem áreas de intenso tráfego marítimo.
- Monitoramento avançado: implantação de sensores submarinos que detectem vibrações ou tentativas de corte em tempo real, permitindo respostas mais rápidas.
- Regulamentação internacional: acordos que criminalizem explicitamente o corte deliberado de cabos e imponham sanções mais severas a responsáveis.
Enquanto isso, a comunidade de segurança cibernética tem reforçado protocolos de redundância, garantindo que a perda de um cabo não cause interrupções massivas. Operadoras de telecomunicações estão investindo em rotas alternativas, tanto por cabos quanto por satélites, para mitigar riscos.
Para ficar no radar
O lançamento de Undersea War traz à tona uma discussão que, até pouco tempo, permanecia nos bastidores das políticas de segurança internacional. O livro não apenas relata incidentes reais, mas também alerta para a necessidade de uma abordagem coordenada entre governos, indústrias e organizações de pesquisa. Para quem acompanha o desenvolvimento da internet global, entender esses riscos é tão importante quanto conhecer as últimas novidades em hardware ou software.
Fique atento às próximas edições de relatórios de segurança marítima e às decisões judiciais envolvendo navios suspeitos. A proteção dos cabos submarinos pode se tornar um ponto central nas negociações de paz e nas estratégias de defesa nacional nos próximos anos.


