TL;DR: Donald Trump quer chamar a inteligência artificial de "super" e transformar "artificial" em um insulto, mas a manobra pode acabar se revelando contraproducente.
O que aconteceu
Nos últimos dias, o ex‑presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, lançou uma campanha de retórica que tenta redefinir a forma como falamos sobre inteligência artificial (IA). Em postagens nas suas redes sociais, Trump passou a chamar a tecnologia de "super" enquanto rotula "artificial" como um termo depreciativo, associando quem questiona seu uso a "THE ENEMY" (O INIMIGO). A estratégia não é inédita: Trump já utilizou apelidos como "Little Marco" para Marco Rubio e "Crooked Hillary" para Hillary Clinton, além de transformar "fake news" em um insulto genérico à imprensa.
Alguns dos nomes mais influentes no campo da IA, embora ainda não detalhados publicamente, parecem estar alinhados com a narrativa, possivelmente por interesse político ou por medo de retaliações. A tentativa de rebatizar a IA, porém, confronta um vocabulário já consolidado na comunidade científica e tecnológica.
Como chegamos aqui
A prática de Trump de usar palavras como armas retóricas tem origem em sua campanha de 2016, quando ele manipulou termos para criar inimigos fáceis e simplificar narrativas complexas. "Fake news", por exemplo, começou como uma crítica a sites de desinformação, mas rapidamente se transformou em um rótulo genérico para qualquer cobertura que ele considerasse desfavorável.
Ao aplicar a mesma lógica à IA, Trump pretende criar uma dicotomia: quem abraça a tecnologia avançada (agora chamada de "super") e quem a critica (rotulada como "artificial" e, portanto, vil). Essa tentativa de controle semântico tem dois lados:
- Pró: Pode simplificar a mensagem para eleitores que não têm familiaridade com termos técnicos, gerando apoio popular a políticas que favoreçam o desenvolvimento acelerado de IA.
- Contra: A comunidade científica tem resistência a mudanças de terminologia que não refletem a realidade dos conceitos, e a imposição política pode gerar backlash e confusão.
Além disso, a estratégia de chamar os críticos de "THE ENEMY" ecoa a retórica de medo que tem sido usada por regimes autoritários para silenciar oposição. No caso da IA, isso pode desencorajar debates éticos essenciais, como privacidade, viés algorítmico e responsabilidade.
É importante notar que a pressão para acelerar a IA nos EUA vem de diversos setores: militares, empresas de tecnologia e até alguns legisladores que veem a IA como vantagem competitiva frente à China. A tentativa de Trump de moldar a narrativa pode ser vista como um esforço para alinhar esses interesses sob um mesmo discurso.
O que vem depois
Se a campanha de Trump conseguir ganhar tração, podemos observar alguns desdobramentos:
- Políticas públicas que priorizem investimentos em IA sem a devida consideração de regulamentações éticas.
- Um aumento na polarização do debate, com grupos pró‑IA adotando o rótulo "super" e opositores sendo marginalizados.
- Possível reação internacional, já que outros países podem usar a mesma estratégia retórica ou, ao contrário, reforçar a importância de termos técnicos neutros.
Entretanto, a comunidade científica tem histórico de resistência a imposições políticas sobre terminologia. Caso a pressão de Trump não seja acompanhada por mudanças concretas em políticas ou investimentos, a tentativa de renomear a IA pode acabar como mais um episódio da sua campanha de manipulação de linguagem, sem impacto real.
Em última análise, a eficácia dessa estratégia dependerá da capacidade de Trump de mobilizar apoio popular e de como os principais atores da IA – empresas, universidades e governos – responderão. Se eles adotarem a terminologia "super" apenas para ganhar favores políticos, corremos o risco de diluir a seriedade do debate sobre os impactos da IA na sociedade.
Onde isso pode dar
O lado que poucos enxergam é que, ao transformar "artificial" em um insulto, Trump pode inadvertidamente reforçar a desconfiança pública em tecnologias emergentes. Essa desconfiança já é um obstáculo para a adoção de IA em áreas como saúde e educação. Se a narrativa de "inimigo" se espalhar, pode surgir um movimento de resistência que dificulte a implementação de projetos inovadores.
Por outro lado, se a estratégia de "super" conseguir capturar a imaginação do público, pode acelerar investimentos em IA nos EUA, colocando o país ainda mais à frente na corrida tecnológica global. Mas esse ganho seria acompanhado de um risco: a falta de debates críticos pode levar a regulamentações frouxas, aumentando a probabilidade de abusos e falhas de segurança.
Portanto, a aposta de Trump não é apenas sobre palavras, mas sobre o futuro da regulação e da percepção pública da IA. O que parece ser um simples jogo de retórica pode ter consequências profundas para a forma como desenvolvemos e governamos tecnologias que já estão transformando o mundo.


