TL;DR: Tim Willits, chief creative officer da saber interactive, afirma que a concentração de grandes estúdios na América do Norte aumenta custos e risco. Ele propõe diversificar produção para regiões mais econômicas e adotar o modelo de "slate funding" para diluir perdas.
Quem é Tim Willits e qual seu papel na Saber Interactive?
Tim Willits é o chief creative officer (CCO) da Saber Interactive, empresa com cerca de 3.500 funcionários distribuídos em 15 estúdios ao redor do globo. Na função de CCO, Will Willits supervisiona a direção criativa dos projetos, define estratégias de portfólio e representa a companhia em eventos como a gamescom 2026.
Por que a indústria de games está concentrada na América do Norte?
Historicamente, os maiores editores – Microsoft, Sony (PlayStation), Ubisoft e outros – mantêm suas sedes e principais estúdios nos Estados Unidos e Canadá. Essa concentração cria um efeito de "câmbio de talento" que atrai desenvolvedores, mas também eleva salários, custos de infraestrutura e expectativas de produção de títulos de alto orçamento.
Como os custos de produção diferem entre regiões?
Willits destaca que países como Espanha, Alemanha, Portugal e Reino Unido oferecem salários médios mais baixos e incentivos fiscais que reduzem o custo total de um projeto. Por exemplo, o estúdio europeu da Saber pode concluir um protótipo em três meses com metade da folha de pagamento de um estúdio norte‑americano equivalente.
O que é "slate funding" e como funciona no setor de jogos?
O termo vem da indústria cinematográfica e refere‑se a um pool de investidores que financiam vários projetos simultaneamente. No contexto de games, um grupo de fundos privados ou B2B investe em um portfólio de cinco a dez títulos. Se um título falha, os lucros de outros compensam a perda, reduzindo o risco individual.
Quais exemplos de sucesso da Saber demonstram a estratégia de custos baixos?
Dois casos citados por Willits ilustram a eficácia da abordagem:
- snowrunner – jogo de simulação off‑road desenvolvido com um orçamento aproximado de US$ 6 milhões, gerando centenas de milhões em receita.
- world war z – título que contou com cerca de 50 profissionais e alcançou mais de 32 milhões de jogadores, demonstrando que equipes enxutas podem produzir hits globais.
Ambos contrastam com projetos norte‑americanos que podem gastar meses de desenvolvimento apenas para descartar o produto e recomeçar.
Que medidas os estúdios podem adotar para diluir risco financeiro?
Willits recomenda um conjunto de práticas que podem ser implementadas independentemente do tamanho da empresa:
- Geografia diversificada: abrir ou terceirizar partes do desenvolvimento em regiões com custos operacionais menores.
- Financiamento em lote (slate funding): buscar investidores que estejam dispostos a apoiar múltiplos projetos, garantindo que ao menos 50% dos custos sejam cobertos por capital externo.
- Co‑desenvolvimento: parcerias onde equipes de diferentes países colaboram em módulos específicos, como arte, áudio ou programação de IA.
- Portfólio de produtos estáveis: incluir remasterizações, ports e títulos de suporte (ex.: séries hitman) que geram fluxo de caixa constante para sustentar projetos de risco maior.
- Escopo controlado: evitar a "espalha‑coração" de recursos em funcionalidades excessivas que não agregam valor ao jogador final.
Quais são os desafios de expandir para mercados fora da América do Norte?
Apesar das vantagens, a expansão global traz obstáculos:
- Diferenças culturais: entender preferências de gameplay e narrativas locais pode exigir pesquisa de mercado adicional.
- Logística e comunicação: fusos horários e barreiras linguísticas podem atrasar decisões críticas.
- Regulamentação: cada país possui leis de propriedade intelectual, tributação e incentivos que precisam ser analisados.
Willits enfatiza que a solução não é simplesmente abrir escritórios, mas criar uma cultura corporativa que permita a mobilidade de talentos entre projetos, mantendo a consistência de qualidade.
O que isso significa para o futuro da indústria de games?
Se mais estúdios adotarem a estratégia de diversificação geográfica e financiamento em lote, o mercado poderá observar:
- Redução de ciclos de desenvolvimento excessivamente longos.
- Maior resiliência a crises de financiamento, como a atual escassez de capital de risco.
- Um ecossistema mais equilibrado, onde desenvolvedores de países emergentes ganham visibilidade e participação nos lucros.
Willits conclui que a mudança não será instantânea, mas que a pressão dos grandes publishers norte‑americanos já está impulsionando uma reavaliação global.
O que falta saber
Embora a visão de Willits seja clara, ainda há questões em aberto:
- Qual será a participação percentual ideal de financiamento externo para garantir sustentabilidade sem perder controle criativo?
- Como as políticas de incentivo fiscal na Europa e Ásia evoluirão frente à competição crescente?
- Quais métricas específicas os investidores usarão para avaliar o risco de um "slate" de jogos?
Responder a essas perguntas exigirá colaboração entre estúdios, financiadores e órgãos reguladores nos próximos anos.


