Rod Serling — o criador de the twilight zone — estreou em 1965 uma serie de faroeste chamada the loner que durou apenas uma temporada na CBS. A producao contava com Lloyd Bridges como William Colton, um ex-capitao do Exercito da Uniao que percorre o Velho Oeste apos a Guerra Civil Americana, e tinha uma premissa simples e incomoda para a epoca: mostrar o faroeste como drama humano, sem moralina facil nem violencia estilizada. Foi justamente essa recusa em seguir o formato tradicional que custou a sobrevivencia do programa.
De onde veio The Loner
Para entender The Loner (tambem conhecido como The Loner — ou "O Solitario", em traducao livre), vale voltar ao contexto. The Twilight Zone foi tirada do ar em 1962 para dar lugar a sitcom Fair Exchange, voltou depois por mais duas temporadas e acabou em 1964. Serling ja tinha experiencia com o genero: escreveu o filme Saddle the Wind (1958) e episodios de faroeste em The Twilight Zone, incluindo a sátira Showdown with Rance McGrew. Foi nesse intervalo entre o fim da Zone e o inicio de Night Gallery que ele resolveu encarar o faroeste de TV — e escolheu um caminho diferente do que estava no ar.
Em 1965, os faroeses dominavam a grade americana com gigantes como bonanza e gunsmoke, enquanto Clint Eastwood virava astro em rawhide e James Drury segurava as pontas em The Virginian. Todas compartilias, porem, a mesma premissa: herois limpos, licoes de moral e finais arrumados. The Loner propos o oposto.
The Loner vs. o faroeste classico da TV
| Aspecto | Faroeste classico (anos 1960) | The Loner |
|---|---|---|
| Tom geral | Aventura limpa, heroi exemplar | Drama humano, ambiguo |
| Violencia | Estilizada, catartica | Contida, recusa do excesso |
| Resolucao dos episodios | Moral final, conclusao satisfatoria | Em aberto, sem licao pronta |
| Publico-alvo | Familiar, inclusive criancas | Adulto, reflexivo |
| Protagonista | Vaqueiro exemplar | Ex-capitao traumatizado pela Guerra Civil |
| Por que ficou no ar | Formulas testadas e aprovadas | Cancelada apos 1 temporada |
Por que Serling recusou violencia — e o que isso custou
Alem de The Loner, vale comparar com o unico precedente direto: The Westerner, de Sam Peckinpah, estreada em 1960 pela NBC. Assim como Serling depois, Peckinpah queria um faroeste adulto sobre um vaqueiro itinerante — e tambem durou uma unica temporada. Os dois casos mostram que a industria televisiva do inicio dos anos 1960 nao tinha espaco real para o genero fora do formato estabelecido.
O ponto de virada aconteceu em setembro de 1963, quando a producao de The Loner foi interrompida apos 15 episodios. Segundo reportagem do Corpus Christi Caller-Times, Serling teria se recusado a inserir mais violencia na serie. Michael H. Dann, vice-presidente de programacao da CBS, negou publicamente que violencia tivesse sido o motivo da pausa e afirmou que Serling fora convocado para discutir o tom do programa. Serling, por outro lado, foi direto: disse que se a emissora quisesse um faroeste convencional, deveria ter contratado um roteirista convencional. Para ele, a serie era um "drama significativo e provocador com sabor de faroeste".
Por que The Loner nao emplacou — e por que isso nao foi culpa so dela
Quando finalmente foi ao ar, The Loner chegou a completar 26 episodios entre 1965 e 1969, com Serling creditado como roteirista em 15 deles. Bridges interpretou um protagonista que cruzava com veteranos da guerra, desertores do Exercito, fora-da-lei tradicionais e ate uma seita pacifista menonita — tudo sem abandonar o trauma da Guerra Civil. A serie alternava momentos de humor leve com dramas mais densos, mostrando que Serling nao queria um show soturno: queria um show honesto.
O publico, porem, nao acompanhou. The Loner caiu na zona classica do produto deslocado: era adulta demais para criancas e estranha demais para adultos acostumados com Bonanza. Analisando a frio, a serie antecipou o faroeste revisionista que so virou moda nos anos 1970, com a revolucao de Peckinpah no cinema e o tom melancolico que dominaria o genero na decada seguinte. Em outras palavras: The Loner nao era ruim — era cedo demais.
Vereditos: o melhor pra cada perfil
Faroestes revisionistas mais faceis de achar hoje
- deadwood (HBO, 2004-2006) — o faroeste mais cru e verborragico do streaming; se The Loner te interessa, esse e o destino natural.
- hell on wheels (AMC, 2011-2016) — um anti-heroi ex-soldado confederado atravessando o Oeste; guarda a mesma energia de protagonista traumatizado.
- The Assassination of jesse james by the Coward Robert Ford (filme, 2007) — slow-burn, mitologia do faroeste desmontada peca por peca.
- The Loner (CBS, 1965) — exatamente a ponte entre o faroeste classico e o revisionista; raro de encontrar, mas existe em acervos de TV classica americana.
Onde comecar, dependendo do que voce procura
- Se quer ver o melhor Serling de ficcao cientifica: va direto para The Twilight Zone, em qualquer ranking.
- Se quer ver o Serling mais pessoal e politicamente engajado: Night Gallery (1969-1973) e o caminho mais natural.
- Se quer ver a raiz do faroeste revisionista na TV: The Loner e The Westerner sao as pedras angulares que Hollywood prefere esquecer.
O lado que ninguem ta vendo
Hoje, olhar para The Loner e entender por que ela durou so uma temporada e quase um exercicio de arqueologia televisiva. Serling apostou em um faroeste que tratava o Oeste como espelho das feridas da Guerra Civil, nao como parque de diversoes de bangue-bangue — e a emissora simplesmente nao deixou ele terminar o experimento. Quando o faroeste revisionista virou moda dez anos depois, a serie pioneira de Serling ja era apenas uma curiosidade de acervos.
Para quem descobre hoje The Loner atraves de artigos e clipes, a pergunta que fica nao e se a serie era boa — pelos roteiros de Serling e pela presenca carismatica de Bridges, era. A pergunta real e quanto do faroeste sombrio que a gente consome em Deadwood e afins nasceu de ideias que a TV dos anos 1960 descartou por serem "estranhas demais". As vezes, o cancelamento de uma serie diz mais sobre a epoca do que sobre o show.


