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Cinema e Series

The CW: quatro anos após o expurgo que deixou órfã a TV de gênero

· · 6 min de leitura
Halteres, suco detox e um tablet com notícias de cancelamentos sobre um tapete de yoga em uma composição clean
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O que aconteceu

Em 12 de maio de 2022, a indústria televisiva norte-americana testemunhou o que os fãs rapidamente apelidaram de "Casamento Vermelho". Em um único dia, a rede The CW — canal conhecido por ser o lar de produções voltadas ao público jovem e nerd — cancelou sete séries de uma vez só: 4400 (reboot da ficção científica clássica), Naomi (série de super-heroína da DC), Dynasty, Charmed, In the Dark, Roswell, New Mexico e Legacies (spin-off de The Vampire Diaries). O golpe veio logo após os cancelamentos prévios de Batwoman e DC’s Legends of Tomorrow, sinalizando que a era de ouro das séries de gênero na TV aberta havia chegado ao fim de forma abrupta.

Essa limpeza de catálogo foi o resultado direto da aquisição da emissora pela Nexstar — um conglomerado de mídia focado em emissoras locais e jornalismo. O objetivo era claro: transformar um canal que perdia dinheiro, mas gerava engajamento cultural massivo, em uma operação lucrativa baseada em esportes, reality shows e produções baratas adquiridas do exterior. Com o fim iminente de All American — drama sobre futebol americano que é a última série sobrevivente da era pré-venda — a The CW que conhecemos deixará de existir oficialmente em julho de 2024. No entanto, o impacto desse expurgo vai muito além de uma mudança de grade; ele criou um buraco negro na cultura geek que o streaming ainda não conseguiu tapar.

Como chegamos aqui

Para entender o tamanho da perda, é preciso voltar a 2006, quando a The CW nasceu da fusão entre a UPN e a The WB. Desde o início, o canal se posicionou como o "terceiro espaço" da televisão. Enquanto as grandes redes como ABC e CBS focavam em procedurais policiais para idosos, e a HBO investia em dramas de prestígio inacessíveis para o grande público, a The CW abraçou o nicho. Ela herdou sucessos como Smallville — série que narra a juventude de Clark Kent — e Supernatural — a saga dos irmãos Winchester que durou 15 temporadas — e refinou a fórmula de misturar drama adolescente com elementos fantásticos.

A grande virada veio com o Arrowverse — o universo compartilhado de séries da DC Comics iniciado por Arrow em 2012. Antes mesmo de a Marvel consolidar seu universo no cinema, a The CW já estava fazendo crossovers anuais ambiciosos. Séries como The Flash, Supergirl e Legends of Tomorrow provaram que era possível criar uma narrativa interconectada na TV com orçamentos de televisão. O ápice veio com Crise nas Infinitas Terras, um evento que reuniu décadas de história da DC, incluindo participações de filmes antigos e séries clássicas, algo que nem o cinema havia tentado com tamanha reverência ao cânone.

Além dos heróis, o canal se permitia arriscar em formatos que ninguém mais queria:

  • Crazy Ex-Girlfriend: Uma comédia musical dramática que abordava saúde mental com uma profundidade rara, apesar da baixa audiência inicial.
  • The 100: Um drama de ficção científica pós-apocalíptico que começou como um romance adolescente bobo e evoluiu para uma exploração sombria sobre sobrevivência e moralidade.
  • Jane the Virgin: Uma sátira brilhante das telenovelas latinas que conquistou aclamação crítica e prêmios.

O modelo de negócio era sustentado por um acordo bilionário com a Netflix — plataforma de streaming que recebia as temporadas completas logo após o fim da exibição na TV. Isso criava um ciclo onde as séries podiam ter audiência baixa no canal linear, mas se tornavam fenômenos globais no digital. Quando esse acordo acabou para favorecer o HBO Max (agora apenas Max), o castelo de cartas começou a ruir.

O que vem depois

O cenário atual da televisão de gênero é fragmentado e, para muitos fãs, decepcionante. Sem a The CW para servir de incubadora de séries "médias" (aquelas que não precisam de 200 milhões de dólares por temporada para existir), o público ficou dividido entre dois extremos. De um lado, temos as superproduções de streaming como The Boys (Prime Video) ou The Penguin (Max), que são excelentes, mas extremamente violentas, sombrias e voltadas exclusivamente para adultos. Do outro, temos o vazio absoluto na TV aberta, que desistiu de tentar atrair o público jovem.

A perda da The CW significa o fim da série de gênero "confortável". Aquela produção que você podia assistir com a família, que tinha 22 episódios por ano e que permitia que os personagens crescessem gradualmente. O streaming hoje favorece temporadas curtas de 8 episódios que demoram dois anos para sair, matando o senso de comunidade e o engajamento semanal que franquias como The Vampire Diaries — drama sobre triângulos amorosos entre vampiros e humanos — mantinham vivo.

As tentativas de replicar esse sucesso em outros lugares têm falhado. A AMC tentou criar seu próprio universo sobrenatural com Interview With the Vampire (Entrevista com o Vampiro), mas o tom é muito mais denso e menos acessível que o melodrama pop das séries de Julie Plec — produtora executiva de The Originals. O mercado perdeu o "meio-termo". Não há mais espaço para o herói que salva a cidade toda semana enquanto lida com problemas de relacionamento; agora, ou o herói é uma desconstrução niilista do mito, ou ele simplesmente não existe na TV.

O lado que ninguém está vendo

A tese central aqui é que a morte da The CW representa a morte da "TV de laboratório". Sem um canal disposto a aceitar perucas baratas e efeitos visuais questionáveis em troca de roteiros criativos e riscos narrativos, a televisão se tornou covarde. O expurgo de 2022 não foi apenas uma decisão financeira da Nexstar; foi o sinal verde para que todas as outras redes abandonassem o público geek juvenil em favor de algoritmos seguros.

Onde isso pode dar? Provavelmente em um ciclo de nostalgia eterna. Como não há novas séries de heróis ou sci-fi de baixo custo sendo produzidas para criar a próxima geração de fãs, as plataformas continuarão tentando reviver o que já funcionou. Veremos mais reboots e menos ideias originais como The 100. O vazio deixado pelo Arrowverse é geográfico: não há mais um lugar no controle remoto onde o nerd sabe que será bem-vindo todas as noites da semana. A TV de gênero agora é um evento caro e esporádico, e não mais uma companhia constante.

Série Clássica Gênero Impacto Cultural
Arrow Super-herói Fundou o maior universo compartilhado da TV.
Supernatural Terror/Fantasia Criou uma das fanbases mais leais da história.
The Vampire Diaries Sobrenatural Redefiniu o romance de fantasia para a década de 2010.

Perguntas frequentes

Por que a The CW cancelou tantas séries em 2022?
O cancelamento em massa, conhecido como 'Casamento Vermelho', ocorreu devido à venda da emissora para a Nexstar. O novo comando decidiu mudar o foco da programação para esportes e conteúdos mais baratos, visando o lucro imediato em vez de produções de ficção caras.
O que era o Arrowverse?
O Arrowverse foi um universo compartilhado de séries da DC Comics na The CW, iniciado por 'Arrow' em 2012. Ele incluiu sucessos como 'The Flash', 'Supergirl' e 'Legends of Tomorrow', sendo famoso por seus crossovers anuais épicos.
Ainda existem séries originais na The CW?
Atualmente, quase todas as séries da era clássica foram canceladas ou encerradas. 'All American' é a última sobrevivente importante, com a emissora agora focando em aquisições internacionais e programas sem roteiro (reality shows).
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