O que realmente define um episódio filler em The Boys?
Vivemos em uma era de consumo imediato, onde o ritmo das redes sociais parece ter moldado a forma como assistimos televisão. Com a chegada da quinta e última temporada de The Boys (série de drama satírico da Prime Video), uma reclamação específica começou a ecoar pelos fóruns e redes sociais: a existência de supostos episódios "filler". O alvo mais recente dessa crítica foi o quinto episódio, intitulado "One-Shots". No entanto, rotular esse capítulo como desnecessário é ignorar a própria essência da narrativa construída pelo showrunner Eric Kripke.
Para o espectador médio, "filler" é qualquer conteúdo que não envolva uma luta coreografada com super-poderes ou uma morte chocante de um personagem principal. Mas, em uma série que se propõe a desconstruir o mito do super-herói e analisar a podridão do poder corporativo, o desenvolvimento psicológico é o verdadeiro motor da história. Em "One-Shots", vimos peças fundamentais serem movidas no tabuleiro que levará ao confronto final.
Os eventos cruciais que você pode ter ignorado em One-Shots
Se você piscou ou estava mexendo no celular enquanto assistia, pode ter perdido o fato de que este episódio resolveu arcos de personagens e plantou sementes para o futuro da franquia. Não foi apenas uma "pausa" na ação; foi um mergulho nas consequências das escolhas morais de cada um. Veja alguns pontos fundamentais:
- O destino de Firecracker: Interpretada por Valorie Curry, a personagem teve um fim brutal pelas mãos do próprio Homelander (Antony Starr). Isso aconteceu logo após ela expor o pastor de sua própria família em rede nacional, mostrando que, no universo de Vought, a lealdade fanática não garante sobrevivência.
- A queda de Adam Bourke: O diretor interpretado por PJ Byrne foi morto por The Deep (Chace Crawford), um ato que aprofundou a tensão entre o herói aquático e o novo Black Noir II (Nathan Mitchell).
- O dilema do vírus V1: Butcher (Karl Urban) prometeu a Annie (Erin Moriarty) e Kumiko (Karen Fukuhara) que as deixaria tomar o soro antes da liberação do vírus. A questão que fica é: podemos confiar em um homem que não tem mais nada a perder?
- O plano de Sister Sage: A mente brilhante vivida por Susan Heyward revelou mais uma camada de sua estratégia mestre, tentando trazer Ashley (Colby Minifie) para o núcleo de poder.
Além disso, tivemos o retorno de Stan Edgar (Giancarlo Esposito), que mesmo diante da morte iminente, continua a tratar Homelander e Soldier Boy (Jensen Ackles) como decepções. Essa dinâmica de "pai decepcionado" é o que realmente fere o ego inflado dos supers, muito mais do que qualquer soco.
A conexão com Vought Rising e o passado de Soldier Boy
Outro ponto que afasta o rótulo de filler é a viagem de Homelander e Soldier Boy para encontrar Mister Marathon (interpretado por Jared Padalecki). Esse encontro não foi apenas fanservice para os órfãos de Supernatural, mas sim uma ponte narrativa para Vought Rising, o spin-off focado na origem da empresa e na personagem Clara Vought (que será vivida por Aya Cash).
Explorar o passado de Soldier Boy e sua relação com os alicerces da Vought é essencial para entender por que o presente está tão quebrado. Se o público espera apenas por confrontos físicos entre Butcher e Homelander em todos os episódios, talvez esteja assistindo à série errada. The Boys sempre foi sobre as pessoas por trás das capas, e "One-Shots" honra essa tradição ao focar no declínio mental e moral de seus protagonistas.
O exemplo de Primal e a incompreensão da narrativa
O autor do texto base faz uma comparação muito pertinente com a animação Genndy Tartakovsky’s Primal, do Adult Swim. No episódio "The Primal Theory" (S02E05), a ação é transportada da pré-história para a Inglaterra de 1890, focando em uma discussão de Charles Darwin sobre a natureza selvagem do homem. Na época, muitos fãs odiaram a mudança brusca, chamando-a de filler.
"Não existem episódios filler — apenas espectadores de mente fechada que não entendem como funciona a narrativa televisiva e acreditam que a série em suas cabeças é dez vezes melhor do que a que estão assistindo."
Essa frase resume bem o problema. Tanto em Primal quanto em The Boys, esses episódios servem para reforçar o tema central da obra. Em Primal, era sobre como o instinto de sobrevivência nos torna animais; em The Boys, é sobre como o poder absoluto corrompe e como o trauma familiar molda monstros.
Por que o desenvolvimento de personagem incomoda tanto?
Vivemos o fenômeno do "cérebro de TikTok", onde se a recompensa visual não vier nos primeiros 30 segundos, o interesse se perde. Séries de prestígio como as da Amazon Studios exigem uma atenção que vai além da superfície. Quando Eric Kripke decide desacelerar o ritmo, ele está nos dando a chance de sentir o peso das mortes e a gravidade das traições. Sem esses momentos, o final da série não teria impacto emocional algum.
Se você achou o episódio lento, talvez seja hora de olhar no espelho e se perguntar o que você busca em uma obra de ficção. Se é apenas ação descerebrada, existem dezenas de filmes de heróis genéricos por aí. The Boys se recusa a ser apenas isso.
O que esperar do futuro de The Boys
Com o cerco se fechando e a reta final se aproximando, o que vimos em "One-Shots" é o prelúdio do caos absoluto. Por que isso importa?
- Consequências reais: As mortes de personagens secundários agora servem para isolar os protagonistas, deixando-os sem apoio para a batalha final.
- Fim das alianças: A confiança entre os membros do grupo de Butcher está por um fio, o que pode levar a uma implosão interna antes mesmo de chegarem a Homelander.
- Expansão do Universo: As pistas sobre o passado de Soldier Boy garantem que o legado da série continuará vivo em novas produções, mantendo o interesse dos fãs a longo prazo.
- O fator psicológico: O estado mental de Homelander nunca esteve tão instável, e sua busca por aprovação paterna (mesmo que através da violência) será seu calcanhar de Aquiles.


