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Cinema e Series

Ted Lasso Temporada 4 falha personagens femininas

· · 5 min de leitura
Imagem de Ted Lasso — Ted Lasso Temporada 4 falha personagens femininas
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TL;DR: Na sexta parte da Temporada 4, "Don't Jump Around Much Anymore", Ted Lasso tenta dar voz ao futebol feminino, mas acaba reduzindo Rebecca e Keeley a caricaturas, o que compromete seriamente a credibilidade da série.

O que aconteceu

O episódio 6 da Temporada 4 traz Ted (Jason Sudeikis) de volta a Londres para comandar o primeiro time feminino do AFC Richmond. A premissa parece promissora: explorar as desigualdades de gênero no esporte profissional. Contudo, a execução revela falhas gritantes nos arcos de Rebecca (Hannah Waddingham) e Keeley (Juno Temple).

Rebecca, que nos primeiros três anos evoluiu de vilã manipuladora a líder resiliente, volta a ser retratada como obsessiva por churrasco, tropeçando em situações cômicas que beiram o ridículo. Em seguida, ela entra em um ciclo de feminismo performativo ao ser repreendida por Alice Chilton (Tanya Reynolds) por contratar Ted sem considerar uma mulher para o cargo. O drama se arrasta por vários episódios, mas as piadas não funcionam e a reação de Rebecca parece forçada.

O relacionamento de Rebecca com Matthijs (Matteo van der Grijn) também sofre. A série tenta humanizar a personagem ao mostrar sua vulnerabilidade amorosa, mas a trama se desfaz em um clichê de “mulher ciumenta rastreando o parceiro no celular”. Mesmo quando o casal se reconcilia no final do episódio, a tentativa de salvar a narrativa com uma música melosa não consegue apagar a sensação de que a personagem foi desrespeitada.

Já Keeley, que encerrou a Temporada 3 como fundadora de sua própria agência de relações públicas, é relegada a um papel de coadjuvante no time feminino. Em vez de liderar sua empresa, ela aceita ser assistente de Rebecca e Higgins (Jeremy Swift), recebendo tratamento infantilizado. O arco romântico com Roy Kent (Brett Goldstein) volta a ser o foco, transformando uma decisão madura – escolher a própria carreira – em um drama de “amor impossível”.

Como chegamos aqui

Para entender o declínio, é preciso revisitar a trajetória das duas personagens. No início, Rebecca era a antagonista que, ao ser derrotada por Ted, encontrou redenção ao assumir a presidência do clube e lutar contra o machismo institucional. Keeley, por sua vez, começou como assistente de marketing, evoluiu para influenciadora e, finalmente, empreendedora. Ambas foram construídas com camadas de vulnerabilidade, humor e força.

A mudança de foco para o futebol feminino poderia ter sido um passo natural, ampliando a discussão de gênero. Contudo, os roteiristas parecem ter subestimado a complexidade já estabelecida de Rebecca e Keeley, tratando-as como “personagens de apoio” para dar espaço a novos rostos, como Alice Chilton. Enquanto Alice traz frescor ao mostrar uma treinadora ambiciosa, sua caracterização como “b*tch” reforça estereótipos negativos.

Além disso, a série já mostrava sinais de desgaste a partir da Temporada 2, quando o tom otimista começou a se tornar forçado. A Temporada 3 tentou encerrar a história, mas acabou deixando pontas soltas que agora precisam ser amarradas. O retorno de Ted Lasso, impulsionado por contratos milionários da apple tv, parece mais uma jogada comercial do que uma continuação orgânica.

O resultado é um roteiro que tenta fazer duas coisas ao mesmo tempo: celebrar o esporte feminino e, simultaneamente, reciclar personagens já “concluídos”. Essa dicotomia gera incoerência narrativa e, sobretudo, desrespeito ao desenvolvimento prévio das protagonistas.

O que vem depois

Os próximos episódios ainda têm espaço para corrigir o rumo. Algumas possibilidades:

  • Reinventar Rebecca: Em vez de mantê‑la presa a piadas de “obsessão por churrasco”, a série poderia explorar seu papel como mentora de jovens atletas, usando sua experiência executiva para combater o sexismo institucional.
  • Dar autonomia a Keeley: Retomar sua agência de relações públicas, talvez como parceira oficial de marketing do time feminino, permitindo que ela influencie decisões estratégicas ao invés de ser coadjuvante.
  • Desenvolver Alice: Aproveitar a nova treinadora para criar conflitos reais de liderança, sem reduzi‑la a um estereótipo de “b*tch”.
  • Focar nas jogadoras: Dar mais tempo de tela às atletas, permitindo que suas histórias pessoais e profissionais sejam o motor da trama.

Se a série conseguir realinhar esses elementos, ainda há esperança de recuperar parte da magia que a tornou um refúgio durante a pandemia. Caso contrário, a Temporada 4 pode se tornar um exemplo clássico de como a busca por relevância social pode colidir com a integridade narrativa.

Onde isso pode dar

O futuro de Ted Lasso depende de duas decisões críticas: reconhecer que Rebecca e Keeley já completaram seus arcos e, portanto, precisam de novos desafios que respeitem sua história; ou continuar a tratá‑las como peças de apoio, arriscando que a série perca ainda mais credibilidade. A Apple TV tem recursos para investir em roteiristas que compreendam a importância de personagens femininas bem‑escritas, mas a pressão por lançamentos semanais pode estar limitando a profundidade das tramas.

Em última análise, a série tem a oportunidade de transformar seu erro em aprendizado, mostrando que a inclusão não é apenas um tema de fundo, mas um compromisso com a consistência dos personagens. Se conseguir, Ted Lasso ainda pode ser lembrado como um dos poucos shows que realmente tentou mudar a narrativa de gênero no esporte. Se falhar, será mais um caso de promessa vazia que acabou se perdendo no caminho.

Perguntas frequentes

Por que a Temporada 4 de Ted Lasso recebeu críticas negativas?
A crítica principal se concentra na forma como Rebecca e Keeley foram retratadas de maneira regressiva, transformando personagens antes complexas em caricaturas.
O que mudou na trama da Temporada 4 em relação às anteriores?
A série introduziu o primeiro time feminino do AFC Richmond, mudando o foco para o futebol feminino, mas acabou negligenciando o desenvolvimento das protagonistas femininas.
Existe esperança de que a série se recupere nos próximos episódios?
Sim, se os roteiristas aproveitarem a oportunidade de dar novos arcos a Rebecca e Keeley, focando em autonomia e mentoria, a série pode reconquistar parte de sua credibilidade.
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