O projeto ambicioso que quase mudou a ficção científica
Em 1978, a televisão americana era um oligopólio dominado pelas três grandes redes (ABC, CBS e NBC). No entanto, nos bastidores da Paramount Pictures — o lendário estúdio de cinema — um plano ousado fervilhava: criar a Paramount Television Service (PTS), uma quarta rede focada inteiramente em um produto que já era um fenômeno cultural: Star Trek (a icônica franquia de exploração espacial criada por Gene Roddenberry).
Essa não era apenas uma ideia de executivo entediado. O estúdio queria capitalizar a febre das reprises de Star Trek: The Original Series que dominavam a TV na década de 70. O plano era simples, mas perigoso: usar uma nova série, Star Trek: Phase II, como a âncora que obrigaria o público a sintonizar na nova rede. Para a Paramount, era a chance de se tornar um titã da radiodifusão, mas a realidade do mercado e o ego dos envolvidos tinham outros planos.
Comparativo: O modelo PTS vs. O modelo UPN
A Paramount sempre teve uma relação conturbada com o formato de rede de TV. Abaixo, comparamos a tentativa frustrada dos anos 70 com a realidade que veio décadas depois.
| Característica | Paramount Television Service (1978) | UPN (1995) |
|---|---|---|
| Foco principal | Star Trek: Phase II | Star Trek: Voyager |
| Status | Cancelado antes do lançamento | Operou por 11 anos |
| Destino final | Virou filme (The Motion Picture) | Fundida com a The WB para criar a The CW |
Por que a aposta em Star Trek: Phase II naufragou?
O maior erro da Paramount foi subestimar a devoção (e a toxicidade) dos fãs da época. Star Trek: Phase II foi projetada para reunir o elenco original, mas com uma ausência notável: Leonard Nimoy, o eterno Spock. O ator estava em uma disputa contratual e pessoal com Roddenberry, o que gerou uma revolta imediata. Os fãs da época não aceitavam um Star Trek sem o vulcano, e a Paramount começou a receber cartas de boicote antes mesmo de um único episódio ser filmado.
Além disso, o custo era proibitivo. Estava previsto um orçamento de 2 milhões de dólares apenas para o episódio piloto de duas partes — um valor estratosférico para a TV daquela época. Barry Diller, o presidente da Paramount na época, era um visionário, mas até ele percebeu que a conta não fecharia. O projeto foi desmantelado em novembro de 1977, transformando o que seria uma série épica no primeiro filme da franquia, Star Trek: The Motion Picture (1979).
O lado que ninguém está vendo
A história da PTS costuma ser contada como um fracasso de planejamento, mas a verdade é que ela foi o embrião de um modelo de negócio que hoje é o padrão da indústria. Barry Diller, após o baque com a PTS, levou sua ambição para a 20th Century Fox, onde ajudou a fundar a Fox Broadcasting Company. A ideia de uma "quarta rede" não estava errada; o erro foi tentar sustentar uma rede inteira em cima de uma única franquia de nicho, por mais amada que ela fosse.
Hoje, vemos a Paramount tentando replicar esse mesmo desejo com o Paramount+, enchendo a plataforma de séries da franquia (Discovery, Strange New Worlds, etc). A diferença é que, em 1978, a tecnologia e o modelo de distribuição não permitiam que o "fandom" sustentasse uma rede inteira. Eles queriam criar um ecossistema antes mesmo de o público ter ferramentas para consumi-lo de forma on-demand.
Onde isso pode dar
Se a PTS tivesse sido bem-sucedida, o cenário da TV mundial seria irreconhecível. Provavelmente teríamos tido uma era de ouro da ficção científica nos anos 80, muito antes da popularização da TV a cabo. A lição que fica, porém, é sobre a fragilidade de construir um império sobre uma única marca.
- Dependência criativa: Apostar tudo em uma única IP (Propriedade Intelectual) é um risco que pode implodir o orçamento se o público rejeitar uma mudança no elenco ou no tom.
- A força do fandom: O boicote de 1977 provou que, mesmo décadas antes das redes sociais, os fãs tinham poder de veto sobre decisões corporativas.
- O tempo certo: A Paramount estava certa sobre a demanda, mas errada sobre o momento. O que não funcionou em 78 acabou pavimentando o caminho para a UPN e, eventualmente, para o streaming moderno.


