O que aconteceu
Quem assistiu aos primeiros episódios de Star City, a nova aposta de ficção científica da Apple TV+, provavelmente notou que a série vai além de uma simples exploração da corrida espacial. No segundo episódio, intitulado A Bear on a Chain, a trama introduz um elemento que parece deslocado para o espectador casual: um livro proibido do filósofo Nikolai Fyodorov. A obra aparece nas mãos de Sergei Nikulov (Josef Davies), um jovem engenheiro que tenta impressionar o Chefe Designer (Rhys Ifans) com sua visão fora da caixa.
Diferente de outros dramas espaciais que focam apenas na política da Guerra Fria, Star City utiliza essa referência literária para estabelecer a motivação secreta de seus personagens. O Chefe Designer, ao encontrar o texto proibido, não pune o engenheiro; ele o valida. Esse momento é o ponto de virada que permite a Sergei entrar no círculo de confiança do protagonista, revelando que a corrida lunar é apenas a ponta do iceberg de um projeto muito mais audacioso e, teoricamente, subversivo para os ideais soviéticos da época.
Como chegamos aqui
Para entender por que essa referência é tão importante, precisamos olhar para o contexto histórico e filosófico que a série resgata. Nikolai Fyodorov foi um pensador russo do século XIX cujas ideias, agrupadas sob o conceito de "cosmismo", eram vistas com desconfiança pelo regime soviético. Enquanto o estado buscava o controle terreno e a supremacia ideológica, os seguidores de Fyodorov olhavam para o céu com uma perspectiva quase religiosa: a conquista do espaço como a ferramenta definitiva para alcançar a imortalidade humana.
A série faz um trabalho brilhante ao conectar esses pontos:
- O Cosmismo como motor: A filosofia de Fyodorov propunha que a humanidade deveria usar a ciência para vencer a morte.
- A rebeldia intelectual: Em um cenário de censura, possuir um livro de Fyodorov é um ato de resistência que separa os engenheiros comuns dos visionários.
- O paralelo narrativo: Assim como os cosmistas queriam superar a finitude, o Chefe Designer em Star City quer superar os limites impostos pela burocracia estatal para alcançar o cosmos.
Essa escolha de roteiro não é apenas um "easter egg" para intelectuais; é uma ferramenta narrativa para justificar por que o Chefe Designer está disposto a arriscar tudo. Ele não está apenas construindo foguetes para vencer os americanos; ele está buscando a "vitória sobre o inimigo final", que, no contexto da série, é a própria mortalidade e as limitações da existência humana.
O que vem depois
A introdução de temas filosóficos pesados sugere que Star City seguirá o caminho de For All Mankind, seu "irmão mais velho" de plataforma, ao misturar precisão técnica com dilemas existenciais profundos. O que falta saber agora é como o regime soviético reagirá quando descobrir que seus melhores engenheiros estão, literalmente, mirando em estrelas que o governo sequer autorizou explorar.
A série estabeleceu uma narrativa de "thriller paranoico" que funciona bem, mas é a filosofia por trás das engrenagens que garantirá a longevidade do interesse dos fãs. Se o Chefe Designer continuar seguindo os preceitos de Fyodorov, podemos esperar que os próximos episódios explorem o custo humano dessa busca pela imortalidade. O que antes era uma corrida por território lunar, agora se transforma em uma corrida existencial.
O que falta saber
A pergunta que fica para os fãs é até onde essa ideologia de "imortalidade através das estrelas" levará os personagens. Com novos episódios chegando toda sexta-feira na Apple TV+, o público deve ficar atento a:
- Qual será o limite da paciência dos oficiais soviéticos antes que o projeto secreto seja descoberto?
- Como o papel de Sergei Nikulov evoluirá, considerando sua importância futura na cronologia de For All Mankind?
- Se a série continuará utilizando textos filosóficos russos como pistas para os próximos passos da trama.
Para quem busca uma obra que trata o espectador como alguém capaz de pesquisar e conectar referências, Star City já se provou uma das produções mais instigantes do ano. A aposta da série é clara: transformar a exploração espacial em uma busca por significado transcendental.


