Shogakukan divulgou um relatório de investigação externa que apontou 44 incidentes de má conduta, incluindo abuso sexual, e anunciou um plano de cinco medidas para reforçar sua política de direitos humanos.
O que aconteceu
Em 3 de agosto de 2026, a editora Shogakukan publicou um resumo das conclusões de uma comissão terceirizada que investigou o departamento editorial do serviço digital Manga ONE e a conduta do criador de mangá Shōichi Yamamoto. A comissão recebeu 44 relatos de incidentes por meio de linhas diretas dedicadas, abrangendo:
- Abuso sexual e outras formas de má conduta cometidas por executivos seniores e editores;
- Abuso de poder por funcionários em relações com criadores externos;
- Falhas na coordenação entre os departamentos editorial, jurídico, administrativo e gerencial.
O relatório destacou que, em alguns casos, a Shogakukan tomou as medidas corretas, mas em outros a resposta foi considerada insuficiente. Em particular, a comissão criticou a empresa por ter "encorajado e apoiado" a violação dos direitos humanos da vítima no caso envolvendo Yamamoto.
Além disso, a comissão concluiu que a editora não possuía sistemas adequados para reconhecer a perspectiva das vítimas, impedir a promoção de violações, reconhecer desequilíbrios de poder entre editores e autores, e gerir riscos significativos de violação de direitos humanos.
Como chegamos aqui
O escândalo tem raízes em processos judiciais contra Shōichi Yamamoto. Em 20 de fevereiro de 2026, o Tribunal Distrital de Sapporo condenou o criador a pagar 11 milhões de ienes (cerca de US$71 mil) por danos a uma mulher que alegou ter sido abusada sexualmente enquanto ele atuava como professor em sua escola de ensino à distância. O caso civil foi iniciado em julho de 2022 e ainda está sendo contestado pelos advogados da vítima, que buscam responsabilizar também a instituição de ensino.
Yamamoto já havia sido condenado em 2020 por violar a Lei de Proibição de Prostituição Infantil, recebendo uma multa de 300 mil ienes (aproximadamente US$1,9 mil). Seu mangá "Daten Sakusen" foi serializado no Manga ONE a partir de fevereiro de 2015, interrompido em fevereiro de 2020 e removido da plataforma em outubro de 2022.
Em 2022, o Manga ONE retomou a serialização sob o pseudônimo "Hajime Ichiro", que na prática correspondia ao mesmo Yamamoto. Quando a editora descobriu a duplicidade, interrompeu a distribuição digital e física do mangá "Jōjin Kamen" e reconheceu que não deveria ter contratado o autor sob o nome fictício.
O escândalo também trouxe à tona o caso do escritor Tatsuya Matsuki, autor de "act‑age", que foi preso em 2020 por agressão indecente a uma aluna do ensino fundamental. A Shogakukan havia contratado Matsuki sob o pseudônimo "Miki Yatsunami" para um novo mangá, alegando que a escolha do nome visava proteger as vítimas, mas a comissão apontou que a decisão careceu de avaliação adequada.
Após a divulgação dos relatórios, criadores de mangá expressaram forte insatisfação nas redes sociais, anunciando a retirada de suas obras da plataforma Manga ONE. A editora também adiou a cerimônia de entrega dos Prêmios Shogakukan de Mangá, originalmente programada para 3 de março de 2026.
O que vem depois
Em 4 de agosto, a Shogakukan publicou uma lista de medidas que pretende implementar para atender às recomendações da comissão externa. As ações estão divididas em cinco áreas principais:
- Criação da Política de Direitos Humanos e da Comissão de Direitos Humanos: A política, redigida em 19 de março, estabelece o compromisso da empresa em respeitar e proteger direitos fundamentais. A comissão será liderada pela diretora sênior Kumiko Hanazuka e contará com especialistas externos.
- Expansão de treinamentos e reforma da cultura corporativa: Serão realizados treinamentos regulares sobre respeito aos direitos humanos, prevenção de violência sexual, apoio a vítimas e procedimentos de denúncia. Gerentes receberão um programa específico para supervisão e contato com partes externas.
- Revisão de contratos com criadores externos: Novas cláusulas de direitos humanos serão inseridas nos acordos, e será criado um fluxo de autoridade claro envolvendo os departamentos editorial, jurídico e administrativo para decidir sobre a continuidade de parcerias.
- Fortalecimento dos órgãos de supervisão: O Conselho de Administração passará a relatar periodicamente sobre violações, enquanto o Escritório de Gestão de Riscos, a Comissão de Direitos Humanos e o Departamento Jurídico revisarão todas as decisões relacionadas a incidentes.
- Reforma do sistema interno de denúncias: Será implementado um "sistema de queixas" alinhado aos Princípios Orientadores das Nações Unidas sobre Empresas e Direitos Humanos, permitindo denúncias anônimas, proteção ao denunciante e apoio psicológico às vítimas de agressão sexual.
Além dessas medidas, a Shogakukan comprometeu‑se a revisar continuamente a eficácia das reformas e a publicar, em breve, a lista completa das ações em inglês.
Os salários da alta administração – CEO, diretores e membros do conselho – serão reduzidos por três meses: o presidente terá um corte de 50% e os demais entre 20% e 30%.
Para ficar no radar
Os próximos passos da Shogakukan serão acompanhados de perto pelos criadores, leitores e organizações de direitos humanos. A publicação de um documento detalhado em inglês, a efetividade dos treinamentos e a adoção de um sistema de denúncia robusto são pontos críticos para avaliar se a editora conseguirá restaurar a confiança do mercado.
Enquanto isso, a comunidade de mangá permanece cautelosa, e plataformas concorrentes podem ganhar espaço ao oferecer garantias mais claras de proteção aos autores.
FAQ
- Quantos incidentes foram relatados na investigação? A comissão recebeu 44 relatos de má conduta, incluindo casos de abuso sexual e abuso de poder.
- Quais são as principais medidas que a Shogakukan vai adotar? A editora anunciou cinco áreas de ação: política de direitos humanos, treinamento interno, revisão contratual, fortalecimento da supervisão e reforma do sistema de denúncias.
- O que aconteceu com o mangá de Shōichi Yamamoto? O mangá "Daten Sakusen" foi retirado da plataforma Manga ONE, e a distribuição de "Jōjin Kamen" foi suspensa após a descoberta de que o autor usava um pseudônimo.


