O slasher original de 1980 Sexta-Feira 13 voltou a liderar a lista de mais assistidos no serviço gratuito Tubi, impulsionado pelo sucesso da série prequela Crystal Lake no Peacock. A ironia: a franquia foi a mais odiada pela dupla de críticos mais influente da história do cinema americano, Roger Ebert e Gene Siskel, que chegaram a dedicar um episódio inteiro do programa Sneak Peeks para atacar o filme e Siskel spoilou o final propositalmente em sua coluna no Chicago Tribune.
Fato: Sexta-Feira 13 domina o Tubi após estreia de Crystal Lake
Lançado em 1980 com orçamento modesto, o primeiro Sexta-Feira 13 tornou-se um dos títulos mais assistidos do Tubi nas últimas semanas. O salto de audiência coincide com a estreia de Crystal Lake, série prequela produzida pelo Peacock que expande a mitologia do acampamento Crystal Lake antes da chegada de Jason Voorhees — o icônico assassino de máscara de hóquei que só assume o papel de vilão principal a partir da continuação. O filme original foca em Pamela Voorhees, mãe de Jason, como a assassina.
A plataforma Tubi opera no modelo FAST (Free Ad-Supported Streaming Television), ou seja, streaming gratuito com anúncios, acessível no Brasil sem necessidade de assinatura. O longa de 1980 está disponível no catálogo brasileiro do serviço.
Contexto: por que importa a rejeição de Ebert e Siskel
Roger Ebert e Gene Siskel definiram o gosto cinematográfico de gerações através do programa Siskel & Ebert (posteriormente Ebert & Roeper). O polegar para cima ou para baixo da dupla podia fazer ou quebrar bilheterias. Em 1978, Ebert elogiou Halloween, de John Carpenter, ajudando a consolidar o subgênero slasher. Dois anos depois, no entanto, a dupla reservou seu ódio mais visceral para Sexta-Feira 13.
Sean S. Cunningham, produtor do filme, admitiu ter se inspirado no sucesso de Halloween para criar algo mais visceral e gráfico. Para Ebert e Siskel, o resultado foi "um dos piores filmes que já viram". Eles criticaram a falta de desenvolvimento de personagens, a exploração de sexo e nudez gratuita e a violência contra mulheres. Siskel foi além: em sua resenha no Chicago Tribune, revelou que Pamela Voorhees era a assassina e descreveu sua morte, encerrando com: "Espero ter estragado Sexta-Feira 13, o mais recente filme de uma das criaturas mais desprezíveis a infestar o negócio do cinema, Sean S. Cunningham".
A dupla dedicou um episódio inteiro de Sneak Peeks a filmes que, segundo eles, promoviam sexo e violência contra mulheres, tendo Sexta-Feira 13 como exemplo central. A franquia tornou-se alvo recorrente de suas críticas ao longo dos anos.
Reação dos fãs e mercado: a franquia que não morre
Apesar do peso da crítica, a franquia Sexta-Feira 13 gerou 12 filmes (incluindo o crossover Freddy vs. Jason e o reboot de 2009), séries de TV, jogos, quadrinhos e uma base de fãs fiel. O retorno do original ao topo do Tubi demonstra que a rejeição crítica não impediu a longevidade comercial.
- Crystal Lake (Peacock): série prequela que explora os eventos anteriores ao massacre de 1980, com tom mais investigativo e menos focado no "body count" tradicional.
- Brian Tallerico, crítico do site RogerEbert.com (fundado por Ebert), seguiu a tradição do mentor e deu avaliação negativa a Crystal Lake, enquanto outros veículos receberam a série de forma mais positiva.
- O sucesso no Tubi reforça o modelo de streaming gratuito com anúncios como vitrine para catálogos clássicos de terror.
Comentários em fóruns e redes sociais mostram fãs celebrando a "vingança" da franquia contra os críticos históricos, enquanto novos espectadores descobrem o filme original pela primeira vez através da série.
O que falta saber: futuro da franquia no streaming
A Paramount detém os direitos da franquia Sexta-Feira 13, mas disputas legais envolvendo o roteirista original Victor Miller (que recuperou os direitos domésticos do primeiro filme em 2018) travam novos projetos cinematográficos há anos. A série Crystal Lake foi produzida sob acordos específicos que contornam parte dessas barreiras.
Para o espectador brasileiro, o movimento atual significa:
- O filme de 1980 está acessível gratuitamente no Tubi (com anúncios).
- A série Crystal Lake exige assinatura do Peacock, que não possui operação direta no Brasil; sua disponibilidade por aqui depende de acordos de licenciamento com plataformas locais — ainda não confirmados.
- O interesse renovado pode acelerar negociações para trazer a prequela ao mercado brasileiro.
Enquanto isso, a ironia permanece: a franquia que Ebert e Siskel tentaram enterrar com spoilers e insultos continua a atrair público quase cinco décadas depois, provando que, no terror, nem a crítica mais poderosa consegue matar o que o público abraçou.


