O regulador de segurança online da Austrália deu ao roblox um prazo de três meses para fechar brechas que deixavam perfis de crianças visíveis e acessíveis a adultos sem consentimento dos pais. A plataforma assinou um acordo legalmente exigível que obriga contas de menores a serem privadas por padrão, bloqueia solicitações de conexão de estranhos sem aprovação dos responsáveis e exige a contratação de uma auditoria independente para verificar se as proteções funcionam na prática. Se a empresa descumprir, o caso vai à Justiça Federal australiana.
O que aconteceu
Uma investigação do eSafety Commissioner — o órgão australiano equivalente a uma agência de proteção digital — revelou que, apesar das medidas anunciadas pelo Roblox no ano passado, falhas persistiam. Adultos conseguiam visualizar contas de jogadores menores de idade, enviar pedidos de conexão e interagir em fóruns públicos fora dos jogos. Nomes de usuário, interesses declarados, perfis e listas de conexões de crianças permaneciam expostos. O relatório, divulgado pelo The Guardian, motivou a assinatura de um acordo juridicamente vinculante (enforceable undertaking), figura jurídica que permite ao regulador cobrar cumprimento na Justiça se a empresa não entregar o prometido.
Entre as exigências concretas estão:
- Contas de jogadores abaixo de 16 anos devem ser privadas por padrão;
- Adultos desconhecidos não podem contatar menores sem aprovação prévia dos pais;
- Contratação de auditor independente para testar a eficácia das proteções, incluindo a tecnologia de estimativa de idade;
- Prazo de 90 dias para implementação completa, sob risco de ação no Federal Court da Austrália.
Como chegamos aqui
Não é a primeira vez que o Roblox promete endurecer a segurança. Em 2024, a empresa anunciou que contas de menores de 16 anos passariam a ser privadas por padrão e que o chat direto exigiria verificação de idade. O teste australiano mostrou que essas barreiras não funcionaram como deveriam. A plataforma é, por desenho, uma rede social disfarçada de jogo: perfis, pedidos de amizade, fóruns e bate-papo por voz são partes centrais da experiência, e criadores chegaram a reclamar que os limites prejudicavam o boca a boca orgânico de seus jogos.
Em 19 de agosto, o Roblox tentou se antecipar às críticas liberando três ferramentas de segurança como código aberto: modelos para detectar compartilhamento de dados pessoais, conversas perigosas e violações no chat de voz. A iniciativa pode ajudar outras plataformas, mas o regulador australiano deixou claro: o que importa é a eficácia dentro do próprio ecossistema do Roblox.
A pressão não vem só da Austrália. Nos Estados Unidos, os senadores Josh Hawley (Republicano, Missouri) e Dick Durbin (Democrata, Illinois) abriram investigação congressional própria, exigindo registros sobre abusos e exploração financeira de jogadores jovens. O aviso foi direto: "O Congresso não vai olhar para o outro lado." O Roblox escapou da proibição australiana de redes sociais para menores de 16 anos argumentando que seu propósito principal é jogos, mas a comissária Julie Inman Grant já sinalizou que pode rever essa isenção se os recursos sociais continuarem crescendo.
O que falta saber
O acordo australiano é um marco porque tira do Roblox o poder de autoavaliar suas proteções. A auditoria independente será o teste real: se a tecnologia de estimativa de idade falhar ou se brechas nos fóruns persistirem, a empresa terá de responder na Justiça. Para pais brasileiros, o recado é prático: as configurações de privacidade padrão vão mudar, mas não existe substituto para supervisão ativa. Verifique se a conta do seu filho está no modo privado, revise a lista de contatos e converse sobre não aceitar pedidos de estranhos — mesmo que a plataforma prometa bloqueá-los.
Nos próximos 90 dias, três frentes merecem atenção:
- Se a auditoria independente será de fato autônoma ou indicada pela própria empresa;
- Se o Congresso dos EUA transformará a investigação em legislação federal de proteção a menores em jogos online;
- Se a Austrália manterá a isenção do Roblox na lei de redes sociais ou estenderá a regra para plataformas com forte componente social.
O Roblox tem 70 milhões de usuários diários e uma base massiva de crianças. O que acontecer na Austrália e nos EUA ditou o ritmo para o resto do mundo — inclusive para o Brasil, onde o Marco Civil da Internet e a LGPD já preveem proteções especiais a menores, mas a fiscalização prática ainda engatinha.


