O fenômeno project hail mary e a visão de seu criador
O filme Project Hail Mary (baseado no livro que no Brasil recebeu o título devoradores de estrelas) consolidou-se como um dos maiores sucessos de ficção científica dos últimos tempos. Estrelando Ryan Gosling no papel do cientista Ryland Grace, a obra conseguiu equilibrar o otimismo científico característico de Andy Weir (autor também de perdido em marte) com uma narrativa visualmente deslumbrante. Recentemente, Weir abriu o jogo sobre o que mais o encantou na transposição de suas páginas para as telonas.
Em entrevista ao portal Space.com, o autor admitiu que, embora o filme tenha feito alterações pontuais em relação ao material original, a essência da história permanece intacta. Weir, que esteve presente em boa parte das filmagens, destacou duas sequências que, para ele, definem o coração da obra. Essas cenas representam os dois pilares do filme: a conexão emocional e a ciência sob pressão extrema.
Quais são as cenas favoritas de Andy Weir em Project Hail Mary?
Para o autor, é impossível escolher apenas um momento, resultando em um empate técnico entre duas passagens fundamentais. A primeira delas é o Primeiro Contato, o momento em que Ryland Grace e o alienígena Rocky (dublado e interpretado via captura de movimentos por James Ortiz) começam a interagir. A segunda é a sequência da 'pesca', um dos momentos de maior tensão técnica e física do longa.
"É uma espécie de empate. As coisas do primeiro contato, quando Ryland e Rocky estão tentando interagir um com o outro e criar uma linguagem compartilhada. E a outra seria a sequência da pesca, quando eles precisam obter uma amostra da atmosfera de Adrian; aquilo é realmente de acelerar o coração."
A escolha de Weir faz todo o sentido para quem acompanhou a jornada literária. Enquanto o primeiro contato foca na linguística e na diplomacia interplanetária, a cena da pesca é o puro suco da "hard sci-fi", onde leis da física e engenharia improvisada determinam a sobrevivência dos protagonistas.
O primeiro contato e a barreira da linguagem entre Grace e Rocky
A sequência do primeiro contato é, sem dúvida, a alma de Project Hail Mary. Diferente de muitos filmes de alienígenas que optam pelo conflito imediato ou por tradutores universais mágicos, aqui vemos o processo árduo e fascinante de construção de comunicação. Grace e Rocky não falam a mesma língua — Rocky se comunica através de tons musicais — e a amizade que nasce dessa barreira é o que torna o filme um feel-good movie espacial.
No filme, essa construção é apresentada de forma leve e até cômica em certos pontos. O uso de tecnologia para catalogar os sons de Rocky e transformá-los em inglês americano é um deleite para os fãs de ciência. Weir elogiou como a produção conseguiu traduzir a paciência necessária para esse processo, transformando o que poderia ser uma aula de linguística em um momento de pura conexão humana (e não-humana).
- Fidelidade visual: O design de Rocky foi muito elogiado por Weir, mantendo a anatomia descrita no livro.
- Química em cena: Mesmo interagindo com um personagem digital/prótese, a atuação de Ryan Gosling vende a amizade real entre os dois.
- Alívio cômico: A cena estabelece o tom de humor que permeia a relação da dupla até o fim da missão.
A sequência da 'pesca' em Adrian: Tensão pura no espaço
Se o primeiro contato aquece o coração, a cena da pesca no planeta Adrian é feita para deixar o espectador na ponta da poltrona. O objetivo da missão é coletar amostras de Taumoeba, um organismo microscópico que atua como predador do Astrophage (a forma de vida que está consumindo a energia do Sol e ameaçando a Terra).
Nesta cena, a nave Hail Mary mergulha nas camadas superiores da atmosfera do planeta. Grace precisa sair da nave para realizar a coleta enquanto a gravidade de Adrian tenta puxá-lo para uma queda mortal. A sequência envolve perda de consciência, manobras arriscadas de Rocky para salvar seu amigo humano e uma execução técnica impecável por parte da equipe de efeitos visuais da Amazon Studios. Para Weir, ver a física que ele escreveu sendo representada com tanta precisão e adrenalina foi um dos pontos altos de sua carreira como autor adaptado.
Por que a adaptação de Project Hail Mary funcionou tão bem?
O sucesso de Project Hail Mary não é acidental. Andy Weir teve uma postura colaborativa com os produtores, chegando a sugerir subplots que não estavam no livro original, como o segredo envolvendo a tatuagem de Sandra. Além disso, a escolha de Ryan Gosling trouxe uma vulnerabilidade e um carisma que o personagem Ryland Grace exigia, especialmente por passar grande parte do tempo sozinho ou conversando com um ser de outro planeta.
O filme consegue explicar conceitos complexos de física, biologia e química sem subestimar a inteligência do público, seguindo a fórmula que já havia dado certo em Perdido em Marte. Ao destacar essas duas cenas, Weir reforça que o bom cinema de ficção científica é aquele que consegue unir o deslumbramento da descoberta com o medo do desconhecido.
Por que isso importa?
- Validação do autor: Quando um autor do calibre de Weir aprova as cenas, isso dá um selo de qualidade para os fãs mais ferrenhos do livro.
- Sucesso do gênero: O desempenho do filme prova que o público ainda tem sede por ficção científica inteligente e otimista.
- Futuro da franquia: O sucesso abre portas para que outras obras de Weir, como artemis, recebam o mesmo tratamento de alto nível em Hollywood.
- Evolução técnica: A representação de Rocky define um novo padrão para personagens alienígenas não-humanoides no cinema comercial.


