O dilema de David Duchovny: cinema ou televisão?
David Duchovny quase recusou o papel de Fox Mulder em arquivo x (The X-Files), a série de ficção científica criada por Chris Carter que se tornou um fenômeno cultural nos anos 90. O motivo, embora pareça estranho hoje, era o forte preconceito que existia entre os atores de Hollywood em relação à televisão, vista na época como um meio de menor prestígio se comparado às grandes produções cinematográficas.
Atualmente, vivemos em uma era onde grandes estrelas do cinema migram para o streaming e para a TV em busca de roteiros complexos, mas em 1993 o cenário era drasticamente diferente. Duchovny, que já havia tido papéis coadjuvantes em filmes como Uma Secretária de Futuro e a comédia familiar Beethoven: O Magnífico, via-se como um artista de cinema e temia que se prender a uma série de televisão pudesse estagnar sua carreira em ascensão.
A televisão era considerada um meio inferior nos anos 90?
Sim, e David Duchovny não tinha medo de admitir seu elitismo na época. Em entrevistas que resgatam a história da série, o ator confessou que sua intenção era focar exclusivamente em longas-metragens. Para ele, assinar um contrato que o prenderia por cinco a sete anos a um programa de TV parecia um risco desnecessário para suas ambições artísticas.
Duchovny já havia experimentado a televisão com uma participação memorável em Twin Peaks (série cult de David Lynch), onde interpretou a agente Denise Bryson, e também protagonizava a série erótica Red Shoe Diaries no canal Showtime. No entanto, o compromisso de longo prazo com uma série de rede aberta, como a Fox, era algo que o deixava hesitante. Ele se descrevia como um "elitista" que acreditava que o verdadeiro valor artístico estava apenas nas telas dos cinemas.
Por que a reputação da Fox preocupava o ator?
Além do preconceito com o formato televisivo, Duchovny tinha sérias dúvidas sobre a própria emissora Fox. No início dos anos 90, a Fox ainda era uma rede relativamente jovem e sua grade de programação não era exatamente conhecida pelo refinamento intelectual. O ator chegou a descrever o conteúdo do canal na época como "programação de baixa qualidade".
Para se ter uma ideia do contexto da época, a Fox era a casa de programas como:
- Um Amor de Família (Married... with Children): Uma sitcom ácida que, embora popular, era vista por muitos como vulgar.
- Cops: Um reality show policial que focava no aspecto mais cru e menos artístico da realidade.
- Herman's Head: Uma comédia que explorava os pensamentos internos de um homem, mas que não gozava de grande prestígio crítico.
Duchovny temia que Arquivo X, uma série sobre alienígenas e conspirações governamentais, fosse apenas mais um programa descartável em uma rede que ainda buscava sua identidade. Ele não conseguia visualizar que a obra de Chris Carter elevaria o patamar da ficção científica na TV para sempre.
Quem convenceu David Duchovny a aceitar o papel?
A sorte dos fãs de Arquivo X foi que as pessoas ao redor de Duchovny tinham uma visão mais clara do potencial do projeto. Sua empresária, Melanie Greene, foi uma das principais responsáveis por fazê-lo mudar de ideia. O argumento dela foi pragmático e direto: ele precisava de dinheiro para pagar o aluguel. Greene tinha um pressentimento positivo sobre o roteiro e insistiu que ele fizesse o teste para o piloto.
Outra figura crucial foi Randy Stone, o diretor de elenco do piloto de The X-Files. Stone usou um exemplo de peso para convencer o ator: ele mencionou que havia dado um conselho semelhante a Woody Harrelson anos antes, quando este hesitou em aceitar o papel na sitcom Cheers. Stone disse a Duchovny que, se ele aceitasse o papel de Fox Mulder, ele nunca mais precisaria se preocupar em trabalhar por necessidade financeira novamente. O tempo provou que Stone estava absolutamente certo.
"Eu tinha sentimentos conflitantes ao entregar o que eu achava que seriam três a cinco anos da minha vida a um programa sobre alienígenas em uma rede que tinha uma programação meio porcaria", revelou Duchovny anos depois.
O legado de Fox Mulder e o futuro da franquia
Apesar de suas dúvidas iniciais, David Duchovny acabou estrelando 194 episódios de Arquivo X, além de dois filmes lançados nos cinemas. A química entre ele e Gillian Anderson, que interpretou a cética Dana Scully, tornou-se a espinha dorsal de um dos maiores sucessos da história da televisão. A série não apenas provou que a TV poderia ser inteligente e cinematográfica, mas também pavimentou o caminho para a chamada "Era de Ouro da TV".
Duchovny seguiu com uma carreira sólida, estrelando sucessos como Californication, onde interpretou o escritor Hank Moody, e a série Aquarius. Ironicamente, o ator que desdenhava da televisão tornou-se um de seus maiores ícones.
Atualmente, o universo de Arquivo X se prepara para uma nova fase. Foi anunciado que Ryan Coogler (diretor de pantera negra e creed) está desenvolvendo um reboot da série. A atriz Danielle Deadwyler (de Till - A Busca por Justiça) está confirmada no elenco, e a direção de fotografia ficará a cargo de Autumn Durald Arkapaw. Embora os detalhes da trama ainda não tenham sido confirmados, a expectativa é de que a nova versão atualize as teorias da conspiração para a era da inteligência artificial e das fake news.
Por que isso importa
- Mudança de paradigma: O caso de Duchovny ilustra como a percepção sobre a televisão mudou radicalmente nas últimas três décadas.
- Legado duradouro: Arquivo X continua sendo a referência máxima para séries de investigação paranormal e conspiração.
- Reboot de peso: O envolvimento de nomes como Ryan Coogler mostra que a franquia ainda possui um enorme prestígio em Hollywood.
- A verdade continua lá fora: A premissa de desconfiança governamental e mistérios inexplicáveis permanece relevante no cenário sociopolítico atual.


