Penguin Colony chega como um indie inesperado que combina a dureza dos jogos Soulslike com uma camada de humor ácido e referências à literatura de H.P. Lovecraft. O jogador controla um pinguim que vagueia por um acampamento polar devastado, enquanto observa a loucura de exploradores fascistas e deuses cósmicos. Em poucas horas de gameplay, o título entrega uma experiência que diverte e subverte expectativas.
O que aconteceu
O ponto de partida de Penguin Colony é um cenário gelado onde tendas em chamas e corpos uniformizados compõem o pano de fundo. O narrador, Lenval Brown, descreve relíquias eldritch e ambições incompreensíveis, mas a perspectiva do jogador – um pinguim – reduz tudo a um simples “Fnaaarp”. Conforme o jogador avança, encontra personagens que vão de nazistas ocultistas a guerreiros Māori que tentam impedir a ressurreição de um “estrela‑spawn”.
O jogo oferece diferentes tipos de pinguins, cada um com habilidades específicas: alguns são pesados o suficiente para pressionar interruptores, enquanto filhotes podem deslizar por túneis estreitos. Trocar de espécie é tão simples quanto se aproximar e apertar o botão Y. Essa mecânica cria pequenos puzzles de ambiente que lembram o design de rotas tortuosas típico de FromSoftware, mas com um toque cômico.
Embora a movimentação dos pinguins seja deliberadamente “janky”, isso obriga o jogador a observar com mais calma os cenários detalhados – ruínas azuis, cidades de pedra iluminadas por lasers e torres helicoidais que lembram os horrores de At The Mountains Of Madness, a famosa novela de Lovecraft.
Os confrontos com chefões também são paródicos. Um “Shoggowotsit” gigante aparece como um tributo exagerado ao Gaping Dragon de Dark Souls, mas ao invés de exigir precisão, basta deslizar sob suas pernas para avançar. Essa subversão de expectativas reforça a proposta de ser um “anti‑Soulslike”.
Como chegamos aqui
Origame Digital, equipe indígena baseada em Melbourne, desenvolveu Penguin Colony como uma homenagem satírica ao horror cósmico. O estúdio, que trabalha em terras Wurundjeri Woiwurrung, já mostrava interesse em narrativas lovecraftianas, mas decidiu inverter a fórmula ao colocar pinguins no centro da história. A escolha dos pinguins remete a ícones como Pingu e Happy Feet, ao mesmo tempo que cria um contraste absurdo com a seriedade dos cultos nazistas e das criaturas cósmicas.
O enredo se desenvolve alguns anos após a morte de Lovecraft, com exploradores do “norte global” – agora retratados como ocultistas nazistas – tentando despertar uma entidade que confundem com um “rei ariano”. A presença dos guerreiros Māori oferece uma linha de redenção, permitindo ao jogador controlar breves segmentos desses personagens enquanto eles tentam impedir o ritual.
Do ponto de vista de design, o jogo incorpora elementos típicos de Soulslike, como áreas interconectadas, checkpoints escassos e itens colecionáveis que não concedem poder, mas sim palavras em inglês e te reo Māori. Essa troca de “loot” por conhecimento linguístico reforça a crítica ao consumismo de itens em jogos de ação.
- Exploração de ambientes inspirados em arquitetura lovecraftiana.
- Variedade de pinguins com habilidades distintas.
- Referências satíricas a nazismo e ao ocultismo.
- Chefe “Shoggowotsit” como paródia de Dark Souls.
- Coleta de palavras em duas línguas como recompensa.
Esses elementos combinam-se para criar uma experiência que, embora não seja tecnicamente refinada, entrega um charme singular. A trilha sonora orquestral acompanha as áreas mais sombrias, enquanto os efeitos sonoros de passos escorregadios dos pinguins adicionam humor ao cenário.
O que vem depois
Ao final da partida, o jogador vê uma constelação zodiacal que representa todo o lore descoberto, incentivando a troca de notas entre a comunidade. A própria Tali Faulkner, da Origame Digital, já indicou que a equipe pretende explorar mais histórias lovecraftianas, possivelmente focando em outras divindades cósmicas menos conhecidas.
Para quem gostou da mistura de humor e horror, há expectativa de que futuros títulos mantenham a mesma abordagem “anti‑Soulslike”. A proposta de usar pinguins como avatar pode parecer bizarra, mas abre caminho para experimentações narrativas que fogem do convencional.
Enquanto isso, os fãs de jogos desafiadores podem esperar que a desenvolvedora continue refinando a mecânica de movimentação, já que o “jank” atual ainda atrapalha o ritmo de exploração em algumas áreas. Uma melhoria nos tutoriais e na UI – especialmente a barra de stamina que ocupa muito espaço – também seria bem‑vindas.
Vale a pena?
Penguin Colony não é o melhor platformer de pinguins, nem o Soulslike mais polido, mas entrega uma experiência única que combina crítica social, humor ácido e reverência ao horror cósmico. Se você aprecia jogos indie que ousam subverter gêneros, o título oferece horas de exploração curiosa e momentos de riso inesperado.
Os fãs de Lovecraft podem achar a paródia refrescante, enquanto os adeptos de Soulslike terão prazer em reconhecer e, ao mesmo tempo, zombar dos tropos da fórmula. A jogabilidade pode ser um pouco desajeitada, mas a ambientação e a escrita criam um charme que compensa as falhas técnicas.
Em resumo, Penguin Colony é recomendado para quem busca algo fora da caixa, que desafie expectativas e, acima de tudo, permita jogar como um pinguim em meio a uma loucura lovecraftiana.


