Rod Serling, criador de The Twilight Zone, descreveu o segmento "The Different Ones" de Night Gallery como "uma peça de merda" – mesmo sendo ele quem escreveu o roteiro original.
O que aconteceu
Após encerrar The Twilight Zone em 1964, Serling lançou Night Gallery em 1970, um horror‑anthology que pretendia misturar contos sobrenaturais com a assinatura de crítica social do criador. O segundo episódio da segunda temporada, intitulado "The Different Ones", trazia a história de Victor Koch, um adolescente com deformidades faciais que, cansado de bullying, aceita um programa de intercâmbio interplanetário. No planeta Boreon, ele encontra uma sociedade onde todos têm a mesma aparência, sugerindo uma mensagem de aceitação e inclusão.
Apesar da premissa promissora, a versão ao ar acabou divergindo drasticamente do teleplay de Serling. A produção inseriu efeitos especiais de baixa qualidade, cenas de horror barato e, sobretudo, um tom que misturava terror com comédia, algo que o autor repudiava.
Como chegamos aqui
O descontentamento de Serling não surgiu do nada. Desde o início, ele enfrentou atritos com o produtor Jack Laird, que insistia em inserir "blackout sketches" – curtas cômicos de 30 a 40 segundos – entre os segmentos. Serling via essas inserções como rupturas que diluíam a mensagem central, comparando-as a colocar Edgar Allan Poe ao lado de Flip Wilson em um mesmo bloco.
Em entrevista de 1976 com Linda Brevelle, Serling enumerou os roteiros que se transformaram em fiascos ao serem filmados. Quando questionado, ele apontou "The Different Ones" como exemplo: "Era um teleplay sensível, mas virou um filme de monstros americano internacional que nunca foi o que eu pretendia".
O autor ainda citou outros colegas – Charles Beaumont e Ray Bradbury – que, segundo ele, sofreram situações semelhantes, tendo suas obras distorcidas por decisões de produção. Essa comparação reforça o ponto de vista de Serling: a visão autoral foi sacrificada em nome de ratings e de uma suposta "mistura de gêneros".
O que vem depois
Embora "Night Gallery" nunca tenha atingido o ícone cultural de The Twilight Zone, ele ainda é lembrado como uma das melhores antologias de TV. O episódio "The Different Ones" serve como um alerta para criadores e fãs: a integridade do roteiro pode ser comprometida quando produtores priorizam efeitos sensacionalistas ou inserções comerciais.
Para o público brasileiro, que acompanha séries de antologia como Black Mirror e American Horror Story, a lição é clara – a mensagem original pode ser perdida se a produção não respeitar o espírito do texto. Ainda que a série esteja fora de catálogo nas plataformas locais, trechos circulam em grupos de fãs, e a discussão sobre a censura criativa continua viva.
- Serling escreveu 92 dos 156 episódios de The Twilight Zone – demonstração de seu controle criativo.
- Jack Laird, produtor de Night Gallery, defendia os "blackout sketches" como estratégia de audiência.
- O segmento "The Different Ones" tentou abordar temas de aceitação, mas acabou sendo criticado por sua execução pobre.
Para ficar no radar
Embora ainda não haja planos de relançamento oficial de Night Gallery no Brasil, serviços de streaming como Paramount+ e HBO Max costumam adquirir catálogos clássicos. Fique atento a anúncios de restaurações ou edições especiais que incluam comentários de historiadores de TV – eles podem trazer novas perspectivas sobre a obra de Serling.
Enquanto isso, os fãs podem revisitar episódios disponíveis em arquivos digitais ou em canais de YouTube que compartilham trechos sob política de uso justo. A discussão sobre a qualidade da produção e a preservação da visão autoral continua relevante, sobretudo em um cenário onde séries de antologia renascem com força total.


