WhatsApp Instagram YouTube
Culpa do Lag CULPA DO LAG
Cultura Geek

MURASAKI WAVES: 8 músicos alemães que viraram a banda de city pop da Europa

· · 7 min de leitura
Jovem correndo na rua ao som de city pop, fones de ouvido e garrafa de água ao lado
Compartilhar WhatsApp

Uma banda de oito músicos com trompete, saxofone e dois trombones não é exatamente o que se espera quando alguém pede um cover de Mariya Takeuchi. Mas foi exatamente esse o experimento que a MURASAKI WAVES levou aos palcos da DoKomi e do Japan Tag, em Dusseldorf, e que está chamando atenção na cena europeia de cultura japonesa. Em entrevista exclusiva à Anime Corner durante a DoKomi, o grupo abriu o jogo sobre o nome inspirado em Ghibli, a lógica por trás do revival e por que eles não pretendem — nem querem — compor música própria.

O que a MURASAKI WAVES apresentou na DoKomi 2026

O fim de semana anterior ao da convenção, a MURASAKI WAVES já tinha passado pelo Japan Tag, festival anual que a cidade de Dusseldorf realiza há quase 20 anos às margens do Reno para celebrar a cultura japonesa. Na DoKomi, a banda se apresentou no palco principal Live Stage e também no espaço Hana no Machi, mostrando ao público europeu o melhor do catálogo de city pop com uma formação nada óbvia: Lily Aiko Mertens nos vocais, Ares Gnauk na guitarra, Yannick Bethmann no baixo, Kenji Fujii na bateria, Raphael Zuber nos teclados, Finley Münker no trompete, Alex Hefny no saxofone e Felix Koch e Alex Ehret nos trombones.

O porte da formação não é por acaso. Para soar com a leveza e o groove que o gênero pede, a banda precisou trazer metais — algo raro em bandas de revival japonesas. É justamente essa seção de metais, junto com a pronúncia japonesa da vocalista Lily, o que tem chamado a atenção do público nos dois festivais.

Por que o nome mistura Ghibli, "murasaki" e o pop art de Hiroshi Nagai

O nome da banda nasceu da necessidade prática de ter algo para colocar no cartaz de shows. Yannick, baixista e um dos fundadores, conta que a inspiração imediata foi o filme Ocean Waves, do Studio Ghibli (estúdio japonês de animação fundado por Hayao Miyazaki e Isao Takahata). Mas eles queriam algo mais japônes do que apenas "ocean waves". A solução foi trocar a palavra "oceano" por murasaki, que significa roxo em japonês.

A escolha do roxo não é aleatória. O grupo se inspirou nas ilustrações de Hiroshi Nagai, artista japonês responsável por capas icônicas do gênero, marcadas por piscinas, praias e céus em tons de azul e roxo. "Purple is the color people associate with city pop on the Internet", resume Raphael, o tecladista. A palavra "waves" também serve como metáfora para o próprio som da banda, ondulante e com camadas de metais.

A lógica do revival e por que ele estourou fora do Japão

Quando o assunto é a onda de city pop que explodiu nas redes a partir de 2018, a banda tem uma leitura interessante de dentro do Ocidente. Para eles, o estopim foi o vídeo de "Plastic Love", de Mariya Takeuchi, viralizando — algo que pegou muitos japoneses de surpresa, porque para o público local o city pop é apenas "a música pop deles dos anos 80", como explicou Yannick.

Lily, a vocalista, acrescenta que o fenômeno passa por dois motores: a atual glorificação global da cultura japonesa e a nostalgia de uma geração mais nova por décadas que não viveu — 70, 80 e até 90. Ares, o guitarrista, aponta um terceiro ingrediente: "If you listen to old recordings, it still sounds high quality and pristine" — a produção da época envelheceu bem, e isso facilita a redescoberta.

Para a banda, o city pop funciona como uma mistura rara: soa familiar pelo groove e pela estética, mas é novo para a maioria do público ocidental que ouve pela primeira vez. É exatamente essa brecha entre nostalgia e descoberta que torna o gênero mais interessante de tocar do que, por exemplo, fazer cover de ABBA ou Bee Gees.

Como a banda se conectou com a cena otaku de Dusseldorf

A MURASAKI WAVES não é um caso isolado — ela faz parte de uma constelação de artistas que orbitam a cena de cultura japonesa de Dusseldorf. Em outro momento da entrevista, eles mencionam Mizucat, artista presente na DoKomi que trabalha com estética que mistura anime com o visual vintage dos anos 70 e 80. Ela foi responsável por desenhar o logo oficial da banda e pela primeira foto oficial, feita com um carro branco que ela mesma levou para o ensaio fotográfico.

Esse tipo de colaboração mostra como o circuito de cultura japonesa na Alemanha funciona como um ecossistema: bandas, ilustradores, eventos e cosplayers se alimentam mutuamente. Quando perguntados sobre a diferença entre DoKomi e Japan Tag, a banda é direta: a DoKomi é mais voltada ao anime, enquanto o Japan Tag tem espaço para música tradicional, roupas e apresentação mais ampla da cultura japonesa. Para uma banda de city pop, o Japan Tag acaba sendo um palco mais natural.

Por que eles não pretendem compor música própria

A resposta talvez mais reveladora da entrevista veio quando perguntaram se a banda pensava em produzir um single autoral de city pop. Raphael foi taxativo. Para ele, tentar compor uma faixa "estilo anos 80" hoje em dia não faz sentido — é o equivalente a pintar uma ilustração "no estilo Michelangelo": "There is already a lot of good music from that time in city pop style".

A lógica é que a arte acontece em um contexto específico. Se você quer fazer música hoje, a abordagem precisa ser de hoje; tentar recriar uma estética do passado vira imitação limitada. Por isso, os quatro membros que estão na banda em tempo integral continuam tocando em outros projetos paralelos — é onde eles exercitam a autoria. Na MURASAKI WAVES, o compromisso é com o repertório, com o palco e com a tradução ao vivo daquele som para plateias que nunca ouviram falar de Tatsuro Yamashita ou Anri.

O maior objetivo: tocar no Japão

Quando a Anime Corner perguntou sobre o próximo objetivo, a resposta veio unânime: "Japan". Antes da DoKomi, eles já tinham cumprido uma meta grande — subir ao palco principal do Japan Tag, coisa que três meses atrás parecia piada de ensaio. Agora, o horizonte é internacional. Yannick cita a Espanha como próximo passo dentro da Europa, mas é em solo japonês que eles querem pisar com a formação completa de oito músicos.

Enquanto isso não acontece, a banda vive uma rotina comum a grupos que não vivem de música: Yannick trabalha em TI na Vodafone, Raphael cursa mestrado em economia e ciência política, Lily estuda na Academia de Artes de Dusseldorf, Ares divide o tempo entre uma loja de vinhos e o curso de baixo jazz, e Kenji concilia faculdade de marketing com freela como músico. Manter oito agendas alinhadas para um ensaio é, nas palavras deles, o verdadeiro desafio de estar em uma banda grande.

Vale ouvir a MURASAKI WAVES?

O ponto que mais chama atenção na MURASAKI WAVES é menos a nostalgia e mais a coragem de apostar em formação grande, com metais, num gênero que normalmente é apresentado em formato reduzido. É uma escolha que soa como declaração de princípios: se vamos trazer o city pop para plateias europeias, vamos trazer com a gordura sonora que o gênero pede.

Para o fã brasileiro de cultura japonesa, o nome ainda é pouco conhecido por aqui, mas vale acompanhar — especialmente porque o grupo tem planos de expansão pela Europa e mira o Japão como destino final. Quem curte o revival do city pop, frequenta a cena de anime ou só quer entender por que a estética roxa dos anos 80 voltou com força nas redes, fica de olho nos próximos shows e nas atualizações de repertório. A frase de encerramento de Yannick resume o ethos da banda melhor do que qualquer release: "Love always wins!".

Perguntas frequentes

O que é a banda MURASAKI WAVES?
É uma banda alemã de Dusseldorf, formada por oito músicos, dedicada a fazer covers de city pop japonês. A formação inclui vocais, guitarra, baixo, bateria, teclados, trompete, saxofone e dois trombones. Eles se apresentam em festivais de cultura japonesa na Europa, como a DoKomi e o Japan Tag.
Por que o nome da banda é MURASAKI WAVES?
O nome mistura referências ao filme Ocean Waves, do Studio Ghibli (estúdio japonês de animação), com a palavra murasaki, que significa roxo em japonês. O roxo é a cor associada ao city pop na internet e remete às ilustrações do artista Hiroshi Nagai, conhecido pelas capas icônicas do gênero.
A MURASAKI WAVES compõe músicas próprias?
Não. A banda decidiu se manter como projeto de covers de city pop, porque entende que tentar compor hoje uma faixa no estilo dos anos 80 seria equivalente a imitar uma estética já consolidada. Os membros que querem trabalhar com música autoral fazem isso em outros projetos paralelos.
O que causou o revival do city pop?
Segundo a própria banda, o estopim foi a viralização do vídeo de Plastic Love, de Mariya Takeuchi, por volta de 2018. A partir daí, somaram-se a nostalgia de gerações mais novas por décadas como os 70 e 80 e a atual popularização global da cultura japonesa, criando uma audiência nova para o gênero fora do Japão.
Qual é o próximo grande objetivo da MURASAKI WAVES?
Tocar no Japão. Antes da DoKomi 2026, eles já tinham cumprido a meta de subir ao palco principal do Japan Tag, em Dusseldorf. O próximo passo no curto prazo é expandir para outros países europeus, como a Espanha, antes de tentar cruzar o oceano com a formação completa de oito músicos.
Culpa do Lag
Curtiu? Recebe as próximas no WhatsApp.

Games, animes, filmes e tech — as notas quentes direto no nosso canal, sem depender de algoritmo.

Seguir no canal

Veja tambem

Compartilhar WhatsApp