O que liga o fenômeno Backrooms à mente de Elliot Alderson?
Enquanto o mercado de cinema insiste em reciclar franquias exaustas e universos compartilhados que já perderam o fôlego, Backrooms — o longa-metragem baseado no viral de internet dirigido por Kane Parsons — surge como um respiro de originalidade. Mas o que muitos espectadores não imaginavam é que a espinha dorsal desse terror psicológico não bebe apenas de fontes de horror clássico, mas sim de uma das séries mais complexas da última década: Mr. Robot, o techno-thriller da USA Network protagonizado por Rami Malek.
A conexão foi revelada em um bate-papo revelador entre Parsons e o criador da série, Sam Esmail. O diretor confessou ter assistido à jornada de Elliot Alderson nada menos que oito ou nove vezes. Para Parsons, a série não é apenas entretenimento; é um guia de como manipular a percepção da realidade e construir uma atmosfera de paranoia constante — elementos que ele transportou diretamente para o seu projeto na A24.
Por que Mr. Robot é a referência perfeita para o terror?
A pergunta que fica é: por que um drama sobre hackers e desordem dissociativa de identidade serviria de base para um filme sobre salas infinitas e entidades hostis? A resposta reside na forma como ambos tratam o isolamento. Em Mr. Robot, a tecnologia é apenas um véu; o verdadeiro horror está na mente fragmentada de Elliot e em sua luta contra sistemas de poder invisíveis. Parsons adaptou essa sensação para o ambiente claustrofóbico das Backrooms.
O diretor elencou três pilares que definiram sua visão criativa:
- Mr. Robot: O mestre da paranoia e da desconstrução da realidade.
- Utopia (série britânica da Channel 4): Referência máxima em estética visual saturada e conspirações perturbadoras.
- Devs (minissérie de Alex Garland): O uso de ficção científica para explorar o determinismo e a existência.
Como essa influência moldou a narrativa de Clark?
Se você assistiu ao filme, notou que o protagonista, Clark (interpretado por Chiwetel Ejiofor), não está apenas fugindo de monstros. Ele está em uma espiral de deterioração mental. As sessões de terapia com a personagem de Renate Reinsve ecoam diretamente as interações de Elliot com sua terapeuta na série de Esmail. É um jogo de espelhos onde o espectador nunca tem certeza do que é real e do que é projeção da psique do personagem.
"Eu acho que gosto de viver no mundo de Mr. Robot. O tom que a série absorve parece complementar a forma como eu gosto de sentir a realidade", explicou Parsons durante a entrevista.
Essa abordagem eleva Backrooms acima do simples "filme de monstro". Ele se torna um estudo sobre o colapso da sanidade em um ambiente que, teoricamente, nem deveria existir. A estética de Parsons, marcada por uma fotografia que flerta com o digital e o analógico, é uma carta de amor direta à direção de arte de Esmail.
O lado que ninguém está vendo
A aposta da redação é que, daqui para frente, veremos uma nova onda de cineastas que cresceram consumindo o YouTube e séries de prestígio de forma simultânea. Kane Parsons é o primeiro grande expoente dessa geração "híbrida". Ele não separa o conteúdo viral da internet da alta qualidade narrativa da TV; ele funde ambos.
Enquanto muitos críticos ainda torcem o nariz para adaptações de fenômenos da internet, o sucesso de Backrooms prova que o pedigree da fonte importa menos do que a visão de quem está atrás da câmera. Se o próximo passo de Parsons for continuar a explorar essa intersecção entre o digital e o psicológico, podemos estar diante de um novo mestre do horror moderno. O que falta agora é saber se ele conseguirá manter esse nível de profundidade em projetos originais ou se ficará preso ao universo das Backrooms por muito tempo. Por ora, a influência de Mr. Robot foi a melhor decisão criativa que ele poderia ter tomado.


