O choque cultural e a proposta de Danny Glover como Raiden
Nos anos 90, as adaptações de videogames para o cinema eram uma espécie de "Velho Oeste" criativo. Ninguém sabia exatamente como traduzir a interatividade dos pixels para a narrativa linear das telonas. Recentemente, uma revelação de Ed Boon, o co-criador da franquia mortal kombat (série de jogos de luta da Midway), trouxe à tona uma das ideias mais bizarras daquela era: a possibilidade de Danny Glover, o astro de Máquina Mortífera, interpretar o deus do trovão, Raiden.
De acordo com Boon, durante o processo de pré-produção do filme de 1995, executivos da New Line Cinema (estúdio responsável pela produção) chegaram a consultá-lo sobre nomes para o elenco. Em uma conversa que parecia surreal na época, o nome de Glover foi colocado na mesa. Embora Glover seja um ator de imenso prestígio e versatilidade, sua imagem estava fortemente ligada ao detetive Roger Murtaugh, cujo bordão "estou velho demais para isso" não combinava exatamente com a aura mística e imortal de um protetor do Plano Terreno (Earthrealm).
Por que a ideia de Danny Glover era tão inusitada?
Para entender o estranhamento, precisamos olhar para a origem de Raiden. No jogo original de 1992, o personagem foi inspirado em divindades do folclore japonês, especificamente em Raijin. Embora o sprite original tenha sido interpretado pelo ator Carlos Pesina (que não é de ascendência asiática), a estética do personagem, incluindo seu icônico chapéu de palha (douli), sempre remeteu ao Oriente. Escalar Danny Glover, um homem negro de San Francisco, seria uma mudança radical de etnia para o personagem, algo que hoje geraria debates intensos sobre fidelidade ao material original.
Ed Boon admitiu que, na época, não levou as conversas sobre o filme muito a sério. Para ele, a ideia de transformar Mortal Kombat em um longa-metragem parecia algo que nunca sairia do papel. Quando as sugestões de elenco começaram a chegar, incluindo nomes como o de Glover, o desenvolvedor ficou surpreso com o rumo das discussões. No fim, o papel acabou ficando com Christopher Lambert, famoso por Highlander: O Guerreiro Imortal, o que trouxe outro tipo de polêmica.
O legado de Christopher Lambert e o whitewashing nos anos 90
A escolha de Christopher Lambert para viver Raiden em 1995 é um exemplo clássico do que hoje chamamos de whitewashing (escalação de atores brancos para papéis de outras etnias). Na época, o argumento era que o filme precisava de um "nome de peso" para atrair o público ocidental. Lambert trouxe um tom canastrão e divertido ao personagem, com uma risada icônica e uma peruca branca que se tornou lendária entre os fãs, mas a falta de representatividade asiática no papel principal de um personagem com raízes orientais foi uma oportunidade perdida.
Curiosamente, Lambert não foi o único nome de peso cogitado. Sean Connery, o eterno James Bond, também foi considerado para o papel, o que mostra que o estúdio estava desesperado por uma estrela de Hollywood para ancorar a produção dirigida por Paul W.S. Anderson (diretor que mais tarde comandaria a franquia Resident Evil).
A evolução de Raiden através das décadas
Se em 1995 a identidade visual e étnica de Raiden era confusa, as produções seguintes tentaram caminhos variados, nem sempre com sucesso:
- Mortal Kombat: A Aniquilação (1997): James Remar assumiu o papel, mas o filme foi um desastre de crítica e público.
- Mortal Kombat: A Jornada Começa (1995): O filme animado teve a voz de Ron Feinberg.
- Mortal Kombat Legends (Animações): David B. Mitchell deu voz ao deus do trovão em A Vingança de Scorpion e A Batalha dos Reinos.
- Mortal Kombat (2021): O reboot finalmente corrigiu o erro histórico ao escalar o ator japonês Tadanobu Asano, trazendo uma representação muito mais fiel às origens do personagem.
O impacto do filme de 1995 na cultura pop
Apesar das escolhas de elenco questionáveis e da decisão de suavizar a violência extrema dos jogos para obter uma classificação indicativa PG-13, o filme de 1995 é considerado um clássico cult. Ele conseguiu capturar a atmosfera mística do torneio e entregou uma trilha sonora de techno que é reconhecida instantaneamente até hoje. O sucesso de bilheteria provou que os games poderiam ser uma fonte lucrativa para Hollywood, mesmo que o caminho até a fidelidade total tenha levado quase trinta anos.
A ideia de Danny Glover como Raiden permanece como uma das maiores curiosidades de "o que poderia ter sido". Seria um desastre ou uma interpretação inovadora? Nunca saberemos. O que sabemos é que o universo de Mortal Kombat continua se expandindo, e a busca pelo equilíbrio entre o respeito às raízes e o apelo comercial continua sendo o maior Fatality que os produtores precisam enfrentar.
Por que isso importa
- Revela os bastidores caóticos da indústria de cinema nos anos 90 em relação a adaptações de jogos.
- Mostra como a percepção de etnia e representatividade mudou drasticamente em três décadas.
- Destaca a importância de Ed Boon não apenas como desenvolvedor, mas como consultor (mesmo que ignorado) da franquia.
- Explica por que o reboot de 2021 foi tão focado em um elenco internacional e etnicamente diverso.
- Relembra o peso comercial que atores como Danny Glover e Sean Connery tinham para os grandes estúdios da época.


