O SlashFilm publicou ranking dos cinco melhores filmes de ficção científica lançados em 1998. O topo ficou com dark city, de Alex Proyas, seguido por Pi, de Darren Aronofsky, the truman show, de Peter Weir, The X-Files: Fight the Future e Pokémon: The First Movie fechando a lista.
5. Pokémon: The First Movie — sci-fi disfarçado de desenho infantil
Muita gente torce o nariz, mas o primeiro longa da franquia Pokémon merece o posto por razões que vão além da nostalgia. O filme deteve o recorde de maior bilheteria de um anime nos EUA por mais de duas décadas, só superado por Demon Slayer: Infinity Castle em 2025. Por baixo da superfície de "desenho para vender brinquedo", há uma narrativa sobre clonagem e crise existencial: mewtwo, criado em laboratório, questiona seu propósito e o valor da vida artificial.
A versão internacional com dublagem em inglês cortou monólogos filosóficos mais densos para simplificar a trama. Mesmo assim, o filme funciona como ficção científica acessível sobre identidade e origem — temas que a franquia revisitaria décadas depois em jogos como pokémon legends: arceus.
4. The X-Files: Fight the Future — expansão de mitologia que funciona
Transformar série de TV em filme costuma dar errado: ou aliena novatos ou decepciona fãs. O longa de Arquivo X evita as duas armadilhas. Começa como "caso da semana" — investigação de atentado a prédio federal — e escala para conspiração alienígena global. Chris Carter, criador da série, entrega roteiro que avança a mitologia sem travar quem nunca viu um episódio.
David Duchovny e Gillian Anderson carregam o filme com a química que sustentou nove temporadas. O resultado é thriller de conspiração sci-fi eficiente, com referências suficientes para fãs hardcore e ponto de entrada decente para curiosos. Envelheceu melhor que muito blockbuster da época.
3. The Truman Show — a profecia que virou documentário
Peter Weir acertou o alvo antes do alvo existir. Em 1998, reality show era Big Brother (estreou em 1999 na Holanda) e influenciador digital nem termo era. O filme antecipou a vigilância voluntária, a performance de si como produto e a erosão da privacidade por entretenimento. Jim Carrey entrega sua melhor atuação — equilíbrio raro entre o histriônico que o consagrou e dramaticidade contida.
A direção usa linguagem de reality show (câmeras escondidas, enquadramentos "amadores") dentro do próprio filme, tornando o espectador cúmplice da farsa. Não é sci-fi de naves ou lasers; é sci-fi social, subgênero que Black Mirror exploraria duas décadas depois. Assisti-lo hoje causa desconforto justamente por parecer menos ficção a cada ano.
2. Pi — cartão de visita de um autor singular
Estreia de Darren Aronofsky, Pi já carrega o DNA do diretor: close-ups extremos, planos-sequência, estética de pesadelo febril e obsessão por padrões matemáticos. O protagonista, Max Cohen, busca ordem numérica no caos do mundo — e talvez no mercado de ações. O baixo orçamento vira virtude: a fotografia granulada em preto e branco reforça a paranoia.
Referências visuais a Tetsuo: The Iron Man, de Shinya Tsukamoto, aparecem na fusão carne-máquina e na montagem frenética. Pi não explica tudo; exige que o espectador aceite a lógica onírica. Para quem acompanhou a filmografia posterior — Réquiem para um Sonho, O Lutador, Cisne Negro, Mãe! —, o filme funciona como manifesto: os temas (religião, identidade, autodestruição) e a linguagem visual já estão todos ali.
1. Dark City — noir expressionista que antecedeu matrix
Alex Proyas pegou a estética gótica de O Corvo e levou ao extremo. Dark City é cidade-personagem: eternamente noturna, rearranjada madrugada adentro por seres pálidos de trench-coat que manipulam memórias. O design de produção bebe em Metrópolis, de Fritz Lang — expressionismo alemão transplantado para ficção científica tardia.
O roteiro opera em camadas: investigação noir, alegoria da caverna de Platão, questionamento sobre identidade e livre-arbítrio. Elenco forte (William Hurt, Kiefer Sutherland, Jennifer Connelly) sustenta o peso conceitual. Flopou na bilheteria original — competiu com Titanic e Armageddon — mas virou cult justificado. Assistir hoje revela DNA direto em Matrix (lançado 15 meses depois), de Dark City a Inception.
Pra cada perfil, um vencedor
- Quer sci-fi cerebral, visualmente única e influente: Dark City. É o filme que mais recompensa revisões.
- Prefere estreia de autor com identidade definida: Pi. Aronofsky inteiro em 84 minutos.
- Busca crítica social disfarçada de entretenimento: The Truman Show. Mais atual em 2024 que em 1998.
- Quer mitologia de série expandida sem lição de casa: The X-Files: Fight the Future. Funciona sozinho.
- Aceita anime mainstream com tema adulto por baixo: Pokémon: The First Movie. Surpreende quem dá chance.
O ano de 1998 entregou variedade rara: do blockbuster de TV ao experimental indie, passando por sátira profética e anime global. Dark City no topo faz justiça a um filme que o tempo tratou bem — ao contrário de godzilla (1998), que o próprio artigo cita como pior da franquia. Se você nunca viu nenhum, comece pelo número 1. Se já viu todos, a ordem de preferência pessoal provavelmente difere da crítica. E é assim que deve ser.


