O efeito manada que condenou Mary Reilly
Por que alguns filmes são sentenciados ao fracasso antes mesmo de chegarem às telas? Em 1996, Mary Reilly — releitura gótica do clássico O Médico e o Monstro de Robert Louis Stevenson — foi vítima de uma tempestade perfeita de expectativas frustradas e má vontade da crítica especializada. Estrelado por Julia Roberts, no auge de seu estrelato, e dirigido por Stephen Frears, o longa foi pintado como um desastre pretensioso. Contudo, a história provou que o julgamento apressado da época foi um erro crasso.
O fenômeno não é novo. O jornalismo de entretenimento, muitas vezes movido por "sangue" e polêmicas de bastidores, tende a criar narrativas antes mesmo de o público conferir a obra. Foi assim com o épico Heaven's Gate e o incompreendido Hudson Hawk. Com Mary Reilly, o cenário foi similar: o filme foi retirado da temporada de premiações e jogado em fevereiro, o famoso "mês do descarte" em Hollywood, o que serviu como um convite para que os críticos afiassem suas facas.
A defesa solitária de Roger Ebert
Enquanto a maioria dos veículos buscava falhas na atuação de Roberts ou no sotaque da protagonista, Roger Ebert, o crítico de cinema mais influente da história, nadou contra a corrente. Em sua análise, ele não buscou o erro; ele buscou a alma da obra. Ebert percebeu que o filme não era sobre efeitos visuais grandiosos ou transformações físicas típicas do gênero, mas sobre a opressão e a dualidade humana sob a ótica de uma governanta impotente.
"'Mary Reilly' é, de certa forma, mais fiel ao espírito da história original de Robert Louis Stevenson do que qualquer um dos filmes anteriores baseados nela, porque é fiel ao horror subjacente", escreveu Ebert em sua crítica de três estrelas.
O que a crítica da época ignorou foi a atmosfera. O filme é denso, sombrio e desconfortável, características que deveriam ser celebradas em um terror psicológico, mas que foram interpretadas como "lentas" ou "tediosas".
Comparativo: Mary Reilly vs. Adaptações Tradicionais
| Critério | Adaptações Tradicionais | Mary Reilly |
|---|---|---|
| Foco Narrativo | Transformação física e o monstro | Psicologia e a perspectiva da governanta |
| Tom | Aventura de horror/Ação | Gótico, melancólico e intimista |
| Destaque | Efeitos especiais | Atuação e atmosfera |
Onde isso pode dar
A lição que fica três décadas depois é clara: o valor de uma obra cinematográfica não reside na recepção imediata das redes ou da crítica de varejo. Mary Reilly sobreviveu ao tempo justamente por ser uma peça de nicho, uma experiência que exige do espectador uma disposição para o desconforto, algo que a pressa do lançamento original não permitiu.
- A importância do olhar crítico: A defesa de Ebert nos lembra que um crítico deve avaliar o filme que lhe foi entregue, não o filme que ele esperava ver.
- O fator tempo: Obras que desafiam o status quo do gênero frequentemente precisam de décadas para serem reavaliadas fora do ruído de seus lançamentos.
- O legado de Frears: A direção de Stephen Frears merece uma revisita, especialmente pela forma como ele constrói a tensão sexual e o horror sem recorrer a clichês de sustos fáceis.
Se você busca um terror que foge do óbvio e prefere o peso psicológico à correria frenética dos blockbusters atuais, ignorar o "selo de fracasso" dado em 1996 é o primeiro passo para descobrir uma pérola gótica esquecida.


