TL;DR: Manta abrirá sua plataforma a criadores independentes em 16 de novembro e lançou o programa Move Your Bookshelf para migrar bibliotecas de usuários do Tapas.
O que aconteceu
Em 7 de outubro, a plataforma de webtoons, web novels e mangás Manta anunciou que, a partir de 16 de novembro, criadores independentes poderão publicar suas séries diretamente no site. A mudança cria uma seção dedicada a esses autores, que terão acesso a um estúdio de criação para subir episódios, montar perfis e interagir com leitores. O conteúdo já existente na Manta permanecerá intacto, mas será exibido em um espaço separado da nova área indie.
Além da abertura para novos autores, a Manta divulgou, no dia 9 de outubro, o programa “Move Your Bookshelf” (MYB). O objetivo é permitir que leitores que desbloquearam episódios no Tapas – que anunciou seu encerramento para 31 de março de 2027 – reconstruam suas bibliotecas gratuitamente na Manta. Para participar, o usuário deve comprovar que possui ao menos 10 episódios de uma série no Tapas, enviando um vídeo da tela de histórico de compras. Não é necessário mostrar telas de login ou detalhes de pagamento. Após aprovação, os episódios são adicionados à conta Manta na mesma versão original.
Como exemplo de conteúdo exclusivo, a Manta lançou em 5 de outubro From the Burnt Ashes, de Jeung-ji Ma, como seu primeiro “Global Release”: a série é publicada simultaneamente na Manta e na RIDI, permitindo leitura simultânea em todo o mundo.
Como chegamos aqui
A Manta, operada pela empresa sul-coreana RIDI, começou como um hub para obras licenciadas, focando em títulos de grande circulação. Nos últimos anos, o mercado de webtoons viu uma explosão de plataformas que dão voz a autores amadores – Webnovel, Lezhin, entre outras – e a demanda por espaços que ofereçam remuneração justa tem crescido. Ao mesmo tempo, o anúncio da Tapas, plataforma de origem coreana que migrou para os EUA, de que encerraria suas atividades em 2027 deixou milhares de leitores sem acesso ao conteúdo que já haviam pago.
Essa combinação de oportunidade (a necessidade de um canal para criadores independentes) e urgência (a migração forçada de usuários do Tapas) parece ter impulsionado a decisão da Manta. A empresa já havia testado recursos internos de publicação para autores internos, mas nunca havia aberto o caminho para quem não fosse parte da equipe. O movimento segue a tendência de “democratização do conteúdo”, onde plataformas dão mais autonomia a quem produz, reduzindo a dependência de grandes editoras.
O programa MYB também reflete uma preocupação crescente com a preservação de direitos digitais. Enquanto o Tapas informou que o conteúdo desbloqueado não poderia ser transferido para outro serviço da Kakao, a Manta oferece um método oficial e gratuito de migração, evitando que leitores percam o investimento feito ao longo dos anos.
O que vem depois
Com a abertura oficial para criadores independentes, a Manta deve atrair um fluxo novo de narrativas, estilos artísticos e nichos ainda pouco explorados. Isso pode gerar um aumento significativo de tráfego, já que leitores que antes consumiam apenas títulos licenciados terão mais opções de descoberta. Por outro lado, a concorrência interna pode ser intensa: autores estabelecidos da própria Manta podem sentir que a atenção dos usuários será diluída entre um número maior de séries.
Do ponto de vista financeiro, a Manta ainda não detalhou como pretende remunerar os criadores independentes, mas a empresa insinuou que facilitará a geração de receita no futuro. Caso a monetização seja bem estruturada (por exemplo, com um modelo de split de royalties transparente), a plataforma pode se tornar um polo de atração para talentos que hoje se dividem entre Webnovel e outras plataformas ocidentais.
Quanto ao programa MYB, a expectativa é que ele sirva como um caso de teste para futuras migrações de conteúdo entre serviços. Se o processo for fluido, outras plataformas podem adotar políticas semelhantes, criando um ecossistema mais amigável ao consumidor.
Por fim, o lançamento de From the Burnt Ashes como “Global Release” indica que a Manta pretende investir em lançamentos simultâneos, reduzindo a fragmentação de público entre diferentes regiões. Se bem-sucedido, esse modelo pode ser replicado em outras séries, ampliando o alcance internacional da plataforma.
Onde isso pode dar
O movimento da Manta tem potencial para mudar a dinâmica do mercado de webtoons no Brasil e na América Latina. Abaixo, listamos alguns prós e contras que podem surgir nos próximos meses:
- Pró: Diversificação de conteúdo – leitores terão acesso a histórias de autores de diferentes países e estilos.
- Pró: Retenção de usuários do Tapas – o programa MYB evita que leitores abandonem a Manta por falta de conteúdo.
- Pró: Possibilidade de novos modelos de monetização – com criadores independentes, a plataforma pode experimentar micro‑transações, assinaturas ou recompensas por apoio direto.
- Contra: Saturação de títulos – um influxo grande de séries pode tornar a descoberta mais difícil, exigindo melhores algoritmos de recomendação.
- Contra: Qualidade variável – sem curadoria rigorosa, alguns projetos podem não atender ao padrão esperado pelos leitores.
- Contra: Desafios de pagamento – a falta de informações claras sobre como os criadores serão remunerados pode gerar desconfiança.
Se a Manta conseguir equilibrar esses fatores, ela pode se posicionar como a principal ponte entre criadores independentes e leitores latino‑americanos, especialmente num momento em que o mercado de webtoons ainda está em fase de consolidação. Caso contrário, a iniciativa pode se perder em meio a plataformas já consolidadas, como Webnovel e Lezhin, que já possuem bases de usuários robustas.
Em suma, a abertura da Manta para criadores independentes e o programa Move Your Bookshelf são passos ousados que respondem a demandas reais do público. O sucesso dependerá da execução – tanto na experiência do usuário quanto na transparência financeira – e da capacidade da empresa de promover um ecossistema saudável para autores e leitores.


