Visitei o enorme anime mall de Chengdu em busca de produtos oficiais dos meus jogos favoritos de PlayStation 5 e descobri um cenário que mistura a paixão por cultura pop japonesa, as particularidades do mercado chinês e oportunidades inesperadas para colecionadores.
O que aconteceu
O ponto de partida foi a própria curiosidade: depois de concluir as missões de Tides of Annihilation — um dos títulos que mais curti no PS5 — decidi procurar camisetas, action figures e outros itens de colecionador. O local escolhido foi o multi‑andar anime mall ao lado da Praça Tianfu, um dos maiores centros de consumo geek da cidade de Chengdu, capital da província de Sichuan.
Ao entrar, a primeira impressão foi a quantidade de luzes de néon, pôsteres de animes populares e vitrines repletas de bonecos de pvc. No entanto, ao procurar especificamente por merch de jogos de console, percebi que a oferta era limitada e, em alguns casos, adaptada para o público local. Enquanto algumas lojas exibiam figuras de personagens de jogos japoneses como Final Fantasy ou Monster Hunter, itens diretamente ligados a franquias ocidentais de PS5 eram raros ou inexistentes.
Mesmo assim, consegui encontrar alguns produtos curiosos: camisetas com estampas genéricas de “gaming”, chaveiros que misturavam símbolos de consoles com elementos de anime, e até um pequeno estande que vendia réplicas de controles estilizados. A experiência mostrou que, embora o mercado chinês seja vibrante, ele ainda apresenta barreiras para a distribuição de merch oficial ocidental.
Como chegamos aqui
Para entender o panorama, é preciso recuar à evolução dos centros de consumo geek na China. Nas últimas duas décadas, cidades como Chengdu investiram pesado em parques temáticos, convenções e shoppings especializados em cultura otaku, atraindo tanto fãs locais quanto turistas estrangeiros. O anime mall em questão nasceu desse movimento, oferecendo um espaço onde lojas de importação, vendedores independentes e marcas chinesas coexistem.
Ao mesmo tempo, a política de importação de produtos licenciados na China permanece bastante restritiva. Muitas empresas ocidentais preferem evitar o processo de certificação local, o que reduz a presença de merch oficial de consoles como o PS5. Como resultado, a maioria dos itens disponíveis são produzidos por fabricantes chineses que criam versões “inspiradas” nos designs originais, muitas vezes sem a aprovação dos detentores dos direitos.
Outro fator importante é a cultura de colecionismo que se desenvolveu nas comunidades de gamers chineses. Grupos em plataformas como Bilibili e Weibo organizam trocas, vendem produtos artesanais e até criam suas próprias linhas de merch. Essa dinâmica cria um ecossistema onde a demanda por itens oficiais pode ser suprida por alternativas locais, ainda que de qualidade variável.
- Licenças restritas: marcas ocidentais enfrentam burocracia para entrar no mercado chinês.
- Produção local: fabricantes chineses replicam designs populares, gerando opções mais acessíveis.
- Comunidades online: fãs organizam feiras e grupos de troca, ampliando a circulação de merch.
Esses elementos explicam por que, ao procurar merch de Tides of Annihilation ou de outros títulos de PS5, a oferta no mall foi mais escassa do que o esperado.
O que vem depois
O futuro desse tipo de comércio parece depender de duas linhas principais: a abertura gradual das políticas de importação e a consolidação de marcas chinesas que buscam licenças oficiais. Caso as grandes editoras de jogos negociem acordos mais flexíveis, é provável que vejamos uma expansão dos stands oficiais dentro desses shoppings, oferecendo produtos autênticos e de alta qualidade.
Enquanto isso, os colecionadores que desejam itens exclusivos ainda podem contar com plataformas de e‑commerce transfronteiriço, embora enfrentem custos de envio e possíveis atrasos alfandegários. Outra alternativa é participar de eventos como a ChinaJoy, onde estandes de marcas internacionais costumam aparecer com lançamentos de merch exclusivo.
Em resumo, a visita ao anime mall de Chengdu revelou um mercado vibrante, porém ainda em fase de adaptação às demandas ocidentais. Para quem busca peças de colecionador de jogos de PS5, a melhor estratégia hoje combina visitas a esses centros locais, monitoramento de comunidades online e, quando possível, compras em sites internacionais.
O que falta saber
Embora o panorama já esteja claro, ainda há perguntas que permanecem sem resposta definitiva:
- Quais são os planos das principais editoras de jogos para ampliar sua presença oficial na China?
- Como as restrições de importação podem mudar com as novas políticas comerciais do governo chinês?
- Que papel as comunidades de fãs desempenharão na legitimação de produtos “inspirados” versus oficiais?
Responder a essas questões exigirá acompanhamento das próximas edições de feiras de tecnologia e entretenimento, além de um olhar atento às declarações dos próprios estúdios. Até lá, o anime mall de Chengdu continua sendo um ponto de referência para quem quer sentir o pulso da cultura geek na China.


