O medo do abismo azul ganha um novo rosto
Você já sentiu aquele frio na espinha ao olhar para a imensidão azul do oceano e não conseguir enxergar o fundo? Essa sensação, conhecida tecnicamente como talassofobia, é o combustível principal de KEROGEN, o novo projeto de terror psicológico da Zartbitter Games (estúdio independente focado em experiências imersivas). O jogo coloca o jogador na pele de Oteil, um operador de drones que não apenas controla as máquinas, mas projeta sua própria mente nelas para investigar um petroleiro naufragado.
KEROGEN é um jogo de terror psicológico focado em exploração subaquática via drones, onde o protagonista transfere sua consciência para máquinas. O título utiliza uma estética retrô low-poly para abordar temas como disforia corporal e isolamento no fundo do mar.
A premissa de transferir a consciência para máquinas não é exatamente nova no gênero, mas KEROGEN promete uma abordagem mais íntima e perturbadora. A cada mergulho, o jogo sugere que partes da humanidade de Oteil são deixadas para trás, perdidas na transição entre a carne e o metal. Essa mecânica serve como pano de fundo para uma narrativa que promete ser tão densa quanto a pressão do fundo do mar, evocando clássicos modernos que transformaram o oceano em um cenário de pesadelo claustrofóbico.
Como KEROGEN se posiciona frente aos gigantes do terror subaquático
Para entender onde KEROGEN se encaixa, é preciso olhar para os pilares do gênero. O jogo bebe diretamente da fonte de títulos que usam o isolamento e a pressão hidrostática como ferramentas de tortura psicológica para o jogador. Abaixo, comparamos a proposta de KEROGEN com outros expoentes do terror no fundo do mar.
| Característica | KEROGEN | SOMA | Iron Lung |
|---|---|---|---|
| Estética Visual | Low-poly (estilo PS1) | Realista/Fotorrealista | Retrô/Minimalista |
| Mecânica Principal | Operação de drones e escaneamento | Exploração em primeira pessoa e puzzles | Navegação por instrumentos e fotos |
| Tema Central | Disforia corporal e perda de si mesmo | Existencialismo e consciência artificial | Claustrofobia e horror cósmico |
| Narrativa | Interação com tripulação suspeita | Solidão e diálogos com IAs | Isolamento absoluto e silêncio |
O papel da tripulação e a desconfiança constante
Diferente de Iron Lung (jogo de terror minimalista de David Szymanski), onde você está completamente sozinho em um submarino minúsculo, em KEROGEN você faz parte de uma equipe, o que pode ser ainda mais aterrorizante. A dinâmica entre os personagens parece ser um dos pontos altos da experiência narrativa, criando um ambiente de paranoia constante.
- Maeve: A maquinista do navio. Ela é responsável por manter seus drones funcionando. Embora pareça uma aliada, o jogo deixa claro que confiar nela não é uma escolha, mas uma necessidade perigosa.
- Boris: O capitão da embarcação. Sua motivação é puramente financeira, o que o torna uma figura instável que pode sacrificar a segurança de Oteil em nome do lucro.
- Ayla: A analista que parece saber demais. Ela está presa a um juramento de sigilo, e o que ela esconde pode ser a diferença entre a vida e a morte nas profundezas.
Essa estrutura de personagens lembra um pouco a tensão de BioShock (clássico de tiro e RPG da 2K Games), onde as vozes no seu rádio nem sempre têm os seus melhores interesses em mente. Em KEROGEN, você está literalmente "nas mãos" dessas pessoas enquanto sua mente está projetada em um drone a centenas de metros abaixo da superfície.
A estética low-poly como ferramenta de imersão
O uso do estilo low-poly — gráficos propositalmente simplificados que remetem à era do PlayStation 1 — tem se tornado uma tendência fortíssima no terror independente. Mas por que isso funciona? Em KEROGEN, a falta de definição visual obriga a imaginação do jogador a preencher as lacunas. Quando você vê um vulto em meio ao óleo e à escuridão do oceano, a baixa resolução torna tudo mais ambíguo e, consequentemente, mais assustador.
"Com cada mergulho, partes preciosas de você são perdidas na transição."
Essa frase, presente no material de divulgação, resume o horror existencial que o jogo busca. A transição da mente humana para o hardware do drone não é um processo limpo. O jogo menciona especificamente a disforia corporal, um termo que descreve o estranhamento ou desconforto profundo com o próprio corpo. No contexto de KEROGEN, isso se manifesta quando o jogador começa a questionar se ainda é humano ou se tornou apenas mais uma peça de metal descartável no fundo do oceano.
Exploração, escaneamento e mistérios oleosos
Embora os trailers ainda mantenham um ar de mistério sobre o loop de jogabilidade (a sequência de ações que o jogador repete), já sabemos que a investigação de objetos e o escaneamento de ambientes serão fundamentais. Você não está apenas passeando; você está procurando por "cadáveres de um pesadelo encharcado de óleo".
A mecânica de escaneamento sugere que o horror em KEROGEN não virá apenas de sustos repentinos (os famosos jump scares), mas de descobrir a história terrível por trás do naufrágio. Investigar os destroços do petroleiro revelará segredos que a empresa ou a tripulação preferiam manter submersos. É um tipo de horror investigativo que recompensa o jogador atento, mas que também o pune com visões perturbadoras.
Pra cada perfil, um vencedor
Escolher entre os títulos de terror subaquático depende muito do que você busca em uma experiência de jogo. Se o seu objetivo é uma narrativa filosófica profunda que vai te fazer questionar o que significa estar vivo por semanas, SOMA (da Frictional Games) continua sendo a escolha imbatível. Ele é mais longo, tem uma produção de alto orçamento e um roteiro premiado.
Por outro lado, se você prefere uma experiência curta, intensa e extremamente claustrofóbica, onde a jogabilidade é minimalista e focada no medo do desconhecido absoluto, Iron Lung é o vencedor. É um jogo que pode ser terminado em menos de uma hora, mas que deixa uma marca permanente pela sua simplicidade aterrorizante.
KEROGEN surge como o meio-termo ideal para quem gosta da estética retrô e de temas psicológicos complexos, mas quer uma interação maior com personagens e uma mecânica de exploração mais variada. Ele promete entregar o horror corporal que falta em Iron Lung e a jogabilidade focada em drones que traz um frescor ao gênero. Para quem busca algo que explore a disforia e a paranoia em um ambiente industrial decadente, KEROGEN é a aposta certa para a lista de desejos.
Até o momento, a Zartbitter Games ainda não confirmou uma data de lançamento oficial, mas o título já possui página no Steam. Ficar de olho no desenvolvimento deste projeto é essencial para qualquer fã de terror que entende que o verdadeiro medo não vem do que vemos, mas do que deixamos de ser quando mergulhamos fundo demais.


