Hope chega aos cinemas americanos em 9 de setembro de 2026 como o filme mais caro já produzido na Coreia do Sul. Depois de uma década de silêncio, o diretor Na Hong-Jin — responsável pelo horror cult O Maldito (The Wailing, 2016) — troca o terror rural por uma invasão alienígena que se autointitula épico. O resultado é um longa de 157 minutos que começa brilhante, tropeça no próprio entusiasmo e ainda deixa gancho para continuação. A pergunta que fica não é se vale o ingresso, mas se a metade genial que ele oferece já paga a conta.
O que funciona em Hope (e funciona muito bem)
O primeiro terço do filme é, sem exagero, o melhor ato de abertura de qualquer blockbuster lançado em 2026. A vila portuária fictícia de Hope Harbor, colada na DMZ e atravancada de placas de "denuncie espiões", vira o palco perfeito para uma criatura que ninguém consegue ver direito. Na Hong-Jin aplica a lição de Tubarão e Jurassic Park — menos é mais — com disciplina de mestre.
- Hwang Jung-min como o xerife Bum-seok: anti-herói ineficiente, sem backstory lacrimoso, movido a puro desespero e xingamento criativo.
- Hong Kyung-pyo na direção de fotografia — mesmo DP de Parasite, Burning e Snowpiercer — mantendo a câmera colada no protagonista num sufocante travelling.
- Trilha de Michael Abels (o mesmo de Get Out) que sabe exatamente quando calar para deixar o silêncio trabalhar.
O diretor parece se divertir de propósito escondendo o monstro pelo maior tempo possível.
Acompanhamos Bum-seok numa noite de pesadelo pela cidade destruída e, em paralelo, o primo caçador Sung Ki (Zo In-sung) e seu grupo de armeiros perdidos na floresta. A construção é tão sólida que evoca Prometheus e A Quiet Place: Day One — duas referências que não caem bem na boca de qualquer filme.
O que Hope tenta ser (e tropeça feio)
Quando o longa decide revelar a ameaça alienígena em tela cheia, o feitiço vira contra o feiticeiro. Os efeitos visuais, descritos como caros pela produção, não convencem em luz do dia — e perdem toda a tensão construída no escuro. O suspense migra de horror atmosférico para fanfarra sci-fi genérica. O paralelo que o próprio crítico da publicação original levanta — comparar a estranheza final com o tipo de delírio sci-fi de Avatar, de James Cameron — é justo só pela metade: Cameron construiu mundo; aqui, o mundo se dissolve no roteiro.
| Aspecto | Primeira metade | Segunda metade |
|---|---|---|
| Tom | Horror atmosférico | Sci-fi genérico |
| Ritmo | Tensão crescente | Subplots inflados |
| Monstro | Sugerido, escondido | Mostrado à luz do dia |
| Emoção | Desespero contido | Excesso melodramático |
| Duração | Justificada | Pesada demais |
Os 157 minutos viram o vilão. Cenas individuais se esticam além do necessário, subplots se acumulam e o final abre uma porta para sequência que soa anticlimática. Foi ambição demais? Talvez. Foi estúdio demais? Não — e isso é o mais curioso. Na Hong-Jin não vende a alma para plateia geral; ele simplesmente erra a mão ao mirar alto demais.
A polêmica que o filme provoca: gênio ou delírio?
Tem dois campos opostos assistindo ao mesmo filme. De um lado, quem considera Hope a prova de que o cinema de gênero ainda tem espaço para experimentação fora de Hollywood — um tapa na caretice de blockbusters pasteurizados. Do outro, quem enxerga 157 minutos de ego autoral travestido de ousadia, com um terceiro ato que tenta reinventar a roda e só consegue furar o pneu.
Argumentos a favor:
- A primeira metade é genuinamente uma das melhores coisas vistas em 2026 — tensão rara em superproduções atuais.
- A direção de fotografia de Hong Kyung-pyo justifica o ingresso sozinha.
- Não existe outro filme este ano que separe tão drasticamente o que é mostra do que é esconde.
Argumentos contra:
- O terceiro ato vira piada de si mesmo, citado pelo crítico como "quatro ou cinco swings demais".
- O gancho de sequência é forçado e mal disfarçado de gancho de continuação preguiçoso.
- 157 minutos não são defendidos nem pela construção de personagem nem pelo arco de Bum-seok.
Veredito: o melhor pra cada perfil
Antes de decidir se Hope merece sua pipoca, considere o tipo de espectador que você é:
- Fã de Na Hong-Jin: compre já. Mesmo quando falha, ele falha com assinatura autoral reconhecível.
- Caçador de experiência de cinema: veja na maior tela possível. O som e a fotografia pedem imax ou equivalente.
- Público geral que quer um blockbuster divertido: espere o streaming. Os 157 minutos pesam sem o compromisso emocional.
- Quem gostou de O Maldito (The Wailing): prepare-se para algo completamente diferente — o horror aqui é ambiental, não psicológico.
- Cinéfilo obcecado por Villeneuve e Bong Joon-ho: alinhe expectativas. É mais irregular que Incendies, mas mais corajoso que muita coisa lançada em 2026.
Vale a pena?
Sim, mas com ressalvas honestas. Hope é o tipo de filme que você recomenda para o amigo cinéfilo com a frase "você precisa ver o primeiro ato" — e essa é, ao mesmo tempo, a maior qualidade e a maior maldição da obra. Na Hong-Jin prova que tem fôlego para o blockbuster mundial; o problema é que ele não soube quando parar.
A nota final — 6,5 em 10 — combina com a experiência: nem o desastre que os haters proclamam, nem o masterpiece que os festivais tentaram vender. É um filme de manifesto, e manifestos são por natureza desiguais. O que Hope entrega de único, em 2026, é a coragem de falhar espetacularmente em vez de acertar medíocremente.


