A Mattel (gigante do setor de brinquedos) lançou mais de 60 figuras na linha original de masters of the universe nos anos 80, mas o desenho animado da Filmation ignorou quase 10% desse catálogo. Enquanto He-Man e Skeletor se tornaram ícones globais, uma elite de guerreiros e vilões ficou restrita apenas às prateleiras das lojas e aos mini-comics que acompanhavam os bonecos. Essa exclusão, que na época parecia um erro de marketing, acabou criando um mística em torno desses personagens, elevando seus preços a patamares astronômicos no mercado de colecionadores atuais.
Com o novo filme de Masters of the Universe (franquia épica de fantasia e ficção científica) gerando expectativas positivas após as primeiras imagens na CinemaCon, a nostalgia está mais forte do que nunca. O longa promete abraçar o visual clássico, o que levanta a dúvida: será que finalmente veremos esses renegados da TV nas telonas? Enquanto o filme não chega, analisamos quem são esses cinco personagens que a TV esqueceu, mas que os colecionadores jamais deixaram de caçar.
Quem é stinkor e por que ele foi barrado na TV?
Stinkor — o vilão gambá humanoide de Eternia — é talvez o caso mais famoso de ausência no desenho clássico. Ele pertence a uma raça conhecida como Peleezeans e possui o poder de liberar um odor tóxico capaz de paralisar qualquer inimigo. No cânone dos brinquedos, ele é o oposto direto do Moss Man (Homem-Musgo), mas enquanto o herói verde apareceu na animação, o vilão fedorento ficou de fora.
A tese mais aceita é que a Filmation (estúdio responsável pelo desenho) considerou o personagem "baixo nível" ou ofensivo demais para os padrões educativos da época. Afinal, o diferencial do boneco era o fato de ele realmente cheirar mal (um cheiro de patchouli que dura décadas). Hoje, o mercado de colecionáveis não se importa com o odor: uma figura vintage de Stinkor lacrada de 1984 pode ser encontrada por cerca de US$ 200 (aproximadamente R$ 1.000) no eBay, com alta procura por exemplares que ainda preservam o aroma original.
ninjor é o vilão mais injustiçado da franquia?
Ninjor — o ninja maligno a serviço de Skeletor — chegou à linha de brinquedos em 1987, justamente quando a febre dos ninjas dominava a cultura pop ocidental. Descrito nos mini-comics como um dos seres mais cruéis através do tempo e do espaço, Ninjor tinha tudo para ser um sucesso de audiência. No entanto, ele foi um dos lançamentos finais da coleção original, chegando quando o desenho animado já havia sido encerrado.
O design em preto e vermelho, acompanhado de uma máscara de tecido real, torna esta uma das figuras mais visualmente impactantes de toda a linha Masters of the Universe. Por ter sido lançado no fim da vida útil da coleção, sua tiragem foi menor. Isso reflete diretamente no preço: versões lacradas americanas estão sendo vendidas por até US$ 715 (cerca de R$ 3.600). É um valor alto para um personagem que nunca trocou um soco com o He-Man nas manhãs de sábado.
clamp champ era o herói que faltava em Eternia?
Clamp Champ — o mestre das pinças e guarda real de Eternia — detém o título de único personagem humano negro na linha original de brinquedos dos anos 80. Ele atuava como guarda-costas pessoal do Rei Randor e da Rainha Marlena, utilizando uma pinça gigante tecnologicamente avançada para imobilizar vilões. Sua ausência no desenho da Filmation é vista hoje como uma grande oportunidade perdida de representatividade e de expansão do núcleo do palácio real.
Assim como Ninjor, ele apareceu tarde demais para a TV, estreando apenas nos quadrinhos The Search for Keldor. Para quem deseja ter esse herói na estante, o investimento é pesado. Mesmo figuras soltas (loose) e usadas raramente saem por menos de US$ 100. Já um exemplar vintage no card original está listado por valores entre US$ 420 e US$ 460, provando que sua relevância histórica só cresceu com o tempo.
Rotar e Twistoid: por que o conceito de peões não funcionou?
No final da década de 80, a Mattel começou a experimentar conceitos mais exóticos para manter o interesse das crianças. Foi assim que surgiram Rotar (herói) e Twistoid (vilão). Em vez de pernas, esses personagens tinham bases de peão que permitiam que eles girassem em alta velocidade no campo de batalha.
- Rotar: Um antigo guarda que teve o corpo reconstruído por Man-At-Arms (Mentor) após ser ferido em batalha.
- Twistoid: Uma criação cibernética de Skeletor, feita para contra-atacar as habilidades de giro de Rotar.
- Mecânica: Ambos vinham com acessórios que permitiam "duelos de peões", uma mecânica que mais tarde seria popularizada por Beyblade.
Esses personagens são considerados os "santos graais" para muitos colecionadores devido à sua raridade extrema. Rotar, em estado lacrado, chega a custar US$ 895 (quase R$ 4.500). Já Twistoid é tão difícil de encontrar que raramente aparece em versões lacradas no mercado internacional, com peças usadas completas variando entre US$ 225 e US$ 375. A complexidade de animar personagens que giram constantemente pode ter sido o prego no caixão para que nunca aparecessem na TV.
Tabela de Preços: O valor da nostalgia em 2024
| Personagem | Afiliação | Preço Médio (Lacrado) | Raridade |
|---|---|---|---|
| Stinkor | Vilão | US$ 200 | Média |
| Ninjor | Vilão | US$ 715 | Alta |
| Clamp Champ | Herói | US$ 460 | Alta |
| Rotar | Herói | US$ 895 | Extrema |
| Twistoid | Vilão | US$ 350+ (Loose) | Extrema |
O lado que ninguém tá vendo
A exclusão desses personagens do desenho clássico da Filmation levanta uma discussão interessante sobre o que define o sucesso de uma franquia. Normalmente, pensamos que a exposição na mídia (TV e Cinema) é o único motor de vendas, mas Masters of the Universe provou que o design do brinquedo e a imaginação da criança podem ser autossuficientes. Personagens como Ninjor e Stinkor sobreviveram décadas no imaginário popular apenas através do tato, do cheiro e de pequenos livretos ilustrados.
Hoje, essa ausência na TV joga a favor dos colecionadores. Como esses bonecos não foram produzidos em massa na mesma escala que um Beast Man ou um Mer-Man (que apareciam em todo episódio), eles se tornaram escassos. Para o novo filme da Amazon/MGM, incluir esses personagens não seria apenas um aceno aos fãs, mas uma forma de finalmente validar figuras que foram fundamentais para a sobrevivência da linha de brinquedos, mesmo sendo tratadas como párias pela animação original.
No fim das contas, a lição para quem coleciona é clara: às vezes, o personagem que ninguém queria ver na TV nos anos 80 é exatamente aquele que vai pagar suas férias em 2024. Se você tem um Stinkor guardado no sótão, talvez seja a hora de verificar se aquele cheiro de gambá ainda vale alguns milhares de reais.


