Sete folhas de papel bastaram para triplicar a estimativa de um leilão. As páginas do roteiro de Harry Potter e as Relíquias da Morte — Parte 2, o filme que encerrou a saga nos cinemas em 2011, foram arrematadas por US$ 22.680 no leilão de verão da Prop Store, casa tradicional de memorabilia cinematográfica — bem acima da faixa máxima de US$ 6 mil prevista antes do pregão. O grande responsável pelo salto é o dono original do material: o ator britânico Alan Rickman, intérprete do professor Severus Snape em todos os oito longas da franquia, falecido em 2016.
O lote reúne exatamente sete páginas de um dos momentos mais emocionantes da saga: o flashback em que Dumbledore pede a Snape que proteja a família Potter — a cena que revela, para o público, por que o personagem parecia um vilão durante anos. Trata-se de um roteiro de produção com a marca d'água "222", linhas de Snape destacadas a caneta e anotações manuscritas pelo próprio Rickman no verso das folhas, com caligrafia autenticada por peritos.
O que exatamente foi vendido?
Não é um roteiro qualquer de Harry Potter. O conjunto reúne sete páginas impressas do roteiro final da saga, todas pertencentes ao uso pessoal de Alan Rickman durante as filmagens. Cada folha traz a tarja de produção "222" (código interno de Deathly Hallows — Part 2) e destaca as falas de Snape na sequência do flashback com Dumbledore.
O diferencial está no verso: Rickman era conhecido por estudar cada cena a fundo, e nessas páginas o ator deixou anotações manuscritas, observações sobre ritmo e, muito provavelmente, ajustes de intenção que nunca chegaram ao público. A autenticidade das anotações foi confirmada por um perito da área, o que transforma as folhas em um documento único sobre o processo criativo de um dos atores mais respeitados de sua geração.
Por que o preço explodiu?
Três fatores explicam o salto de US$ 6 mil para US$ 22,6 mil. Primeiro, a procedência: é um item do próprio Rickman, não uma cópia de produção genérica. Segundo, a cena: trata-se do flashback que reescreve a história de Snape para o espectador, um divisor de águas narrativo que o ator sabia ser importante desde o início e guardou como segredo durante anos enquanto filmava. Terceiro, a escassez absoluta — só existe um conjunto desses, e dificilmente outro aparecerá no mercado em curto prazo.
Em memorabilia, raridade + procedência + carga emocional costumam multiplicar o valor de qualquer item. Quando os três se alinham, o teto da estimativa raramente se sustenta.
Como o leilão se compara a outros lotes de Hollywood?
Leilões de colecionáveis cinematográficos formam um mercado em que objetos do mesmo filme podem valer preços radicalmente diferentes. A Prop Store e casas como Heritage Auctions e Bonhams costumam leiloar desde figurinos usados em tela até itens de produção. O lote de Rickman chama atenção justamente por não ser um figurino ou acessório de cena — é um documento do processo do ator.
| Tipo de item | Exemplo comum em leilão | O que geralmente justifica o preço |
|---|---|---|
| Figurino usado em cena | Trajes de super-heróis, uniformes militares | Tela-testada, autenticada, proveniência clara |
| Prop físico | Varinhas, armas, joias | Uso real nas filmagens, raridade da peça |
| Roteiro genérico | Cópias de produção sem marcas de uso | Importância histórica do filme |
| Roteiro com anotações do ator | Folhas marcadas à mão, com direção interna | Raridade única + insight sobre processo criativo |
O caso Rickman entra exatamente na última categoria — a mais rara das quatro. Um roteiro com anotações autenticadas de um ator falecido, em cena-chave de uma franquia bilionária, não tem substituto no mercado.
O que essas páginas dizem sobre Alan Rickman?
Mais do que memorabilia, o lote funciona como uma janela para o método de trabalho do ator. Rickman era famoso por preparar cada personagem com camadas de backstory que nem sempre apareciam explicitamente em cena — e o flashback de Snape é justamente o tipo de sequência em que essas camadas finalmente vêm à tona.
As anotações no verso das folhas permitem, pela primeira vez em escala pública, observar como ele ajustava ênfase, pausas e intenção em um dos papéis mais celebrados de sua carreira. Para pesquisadores de atuação, estudiosos do audiovisual e fãs da franquia, é um documento de valor histórico real, não só afetivo.
O que isso significa para o colecionador brasileiro?
Para quem acompanha o mercado de colecionáveis no Brasil, o caso serve de termômetro. Itens com procedência clara de atores falecidos ou aposentados tendem a se valorizar justamente porque a oferta é finita — não dá para fabricar outra página escrita por Rickman. A regra prática é simples:
- Procedência pesa mais que o objeto em si.
- Cena narrativa relevante multiplica interesse.
- Autenticação independente é o que separa memorabilia de réplica.
No Brasil, o acesso a esses lotes passa quase sempre por importadoras especializadas, plataformas internacionais como a própria Prop Store e casas de leilão que aceitam lances online. O preço em real inclui impostos de importação e frete, o que costuma dobrar ou triplicar o valor de face em dólar — vale planejar antes de entrar em um leilão internacional.
O que vale — e o que não vale — nesse tipo de memorabilia
Para separar hype de fato, alguns critérios ajudam:
- Roteiros genéricos de filmes famosos podem ser interessantes, mas raramente passam de algumas centenas de dólares.
- Roteiros com anotações autenticadas de atores centrais entram em outra faixa, geralmente a partir de quatro dígitos.
- Cenas-chave da narrativa (revelações, mortes, viradas) inflam o preço muito mais que cenas de transição.
- Atores falecidos ou aposentados costumam ver seus itens mais valorizados com o tempo.
Para ficar no radar
Este é o tipo de notícia que mostra por que o mercado de memorabilia não é só luxo: é, em parte, arquivo. Cada lote arrematado é um pedaço de história do audiovisual que sai do alcance de estúdios e fãs e vai para coleções privadas — às vezes para sempre. A tendência é que itens com esse perfil fiquem cada vez mais disputados, especialmente em franquias prestes a receber novos adaptations, como é o caso de Harry Potter com a série da HBO em desenvolvimento.
Se você é fã da saga ou do trabalho de Rickman, vale acompanhar os próximos catálogos da Prop Store e de outras casas do setor. E se aparecer um item com anotações de outro ator central de uma franquia ainda ativa, espere concorrência pesada: o precedente criado por estas sete páginas já está estabelecido.


