O dilema da comédia infinita
Grand Blue Dreaming, obra escrita por Kenji Inoue e ilustrada por Kimitake Yoshioka, é um daqueles títulos que dividem opiniões no cenário dos mangás. Com 23 volumes publicados pela Kodansha Comics, o mangá acompanha a vida de Iori Kitahara, um calouro de engenharia que, ao se mudar para a loja de mergulho do tio, acaba sendo engolido pela rotina insana do Peekaboo Diving Club. O problema? O mergulho é apenas um detalhe em um mar de álcool, nudez gratuita e ameaças de morte entre amigos.
Se você busca uma narrativa densa ou um amadurecimento constante dos personagens, a verdade é dura: você está no lugar errado. A obra funciona como aquele amigo de bar que insiste em relembrar histórias de bebedeira toda semana. É engraçado na primeira vez, mas, após vinte volumes, a repetição começa a pesar. A grande questão aqui é se o humor pastelão e as expressões faciais exageradas — marca registrada de Yoshioka — são suficientes para carregar uma franquia por tanto tempo.
A estrutura do caos: Vale a pena o investimento?
Para quem está em dúvida se deve começar ou continuar a leitura, preparamos um comparativo entre o que a obra entrega e o que ela ignora. A experiência de leitura muda drasticamente dependendo do seu perfil como leitor.
| Ponto de Análise | O que Grand Blue Dreaming entrega | O que falta na obra |
|---|---|---|
| Humor | Gags visuais rápidas e situações absurdas. | Sutileza ou qualquer tipo de humor inteligente. |
| Desenvolvimento | Momentos raros de humanidade entre os personagens. | Progressão de arco real ou profundidade emocional. |
| arte | Expressões faciais cômicas de altíssima qualidade. | Consistência no design de cenários dramáticos. |
Por que a fórmula cansa?
O maior pecado de Grand Blue Dreaming é a sua própria estrutura. Ao maratonar os volumes, o leitor percebe que qualquer tentativa de criar um laço emocional entre Iori e os outros membros do clube é imediatamente sabotada por uma piada de bêbado ou um insulto gratuito. É um ciclo vicioso: o mangá te dá um vislumbre de uma trama interessante (como as expedições de mergulho em Okinawa ou Palau) e logo em seguida joga tudo fora com uma cena de nudez ou alguém passando mal de tanto beber.
- O lado positivo: Quando o mangá foca no mergulho, a arte brilha e o senso de aventura é genuíno.
- O lado negativo: A insistência em piadas de "virgens desesperados" torna a interação entre os personagens extremamente exaustiva.
- A contradição: Embora o clube seja inclusivo, a dinâmica de gênero é baseada em uma infantilidade que parece estagnada no tempo.
A arte de Kimitake Yoshioka é, sem dúvida, o ponto alto. As expressões faciais, que beiram o grotesco, são tecnicamente impressionantes. No entanto, elas servem a um propósito que, para muitos leitores, perde a graça após o volume 10. A sensação que fica é a de um mangá que tem medo de crescer junto com seu protagonista.
Onde isso pode dar
A aposta da redação é que Grand Blue Dreaming continuará sendo um sucesso de nicho para o público que busca apenas entretenimento descartável. Se você é um leitor que consegue ignorar a falta de substância narrativa e quer apenas dar risada com situações de humor escrachado, o título cumpre seu papel. Contudo, se você espera que a obra evolua para algo mais maduro, prepare-se para a frustração. O final do volume 23 traz uma ponta de esperança com um momento de bondade genuína, mas, conhecendo o histórico de Inoue, é muito provável que o volume 24 comece com alguém vomitando em algum lugar indevido. É o tipo de mangá que você ama ou ignora, mas que, definitivamente, não tenta agradar a todos.


