Francis Ford Coppola — o lendário diretor de cinema — é provavelmente a maior contradição ambulante que Hollywood já viu. O cara simplesmente entregou uma das sequências mais absurdas da história do cinema nos anos 70, mas, se dependesse da vontade dele, um dos pilares dessa era nem teria existido. Imagina o chat se ele tivesse recusado o convite para dirigir a família Corleone porque achava o projeto "mainstream" demais?
O que aconteceu
Para entender o peso dessa história, a gente precisa olhar para o currículo do homem. Entre 1972 e 1979, Coppola meteu um combo de o chefão (The Godfather), A Conversação (The Conversation), O Chefão: Parte II e Apocalypse Now. É o equivalente cinematográfico a um pro-player de league of legends ganhar o Mundial, o MSI e o CBLOL no mesmo ano, sem perder um mapa. Esses filmes são a base de qualquer faculdade de cinema e dominam o topo de listas como o IMDb Top 250 até hoje.
Só que a carreira dele depois disso foi um verdadeiro "8 ou 80". Enquanto ele teve sucessos como Drácula de Bram Stoker (Bram Stoker's Dracula), ele também acumulou fracassos colossais que fariam qualquer CEO de estúdio chorar no banho. Recentemente, tivemos o caso de Megalopolis — um projeto de paixão que custou US$ 136 milhões do próprio bolso do Coppola e arrecadou apenas US$ 14,4 milhões. O cara é o rei do "all-in", mas nem sempre o flush vem no river.
Essa teimosia artística não é de hoje. Antes de se tornar o mestre dos filmes de máfia, Coppola dirigiu O Caminho do Arco-Íris (Finian's Rainbow), um musical da Broadway que, embora tenha dado lucro, foi massacrado pela crítica. Esse trauma fez com que ele ficasse com um pé atrás sobre aceitar grandes produções de estúdio. Ele queria ser o cara do cinema de arte, o diferentão que segue a Nouvelle Vague francesa e o estilo de Federico Fellini — cineasta italiano icônico. Para ele, O Chefão era exatamente o tipo de coisa que ele jurou que nunca faria.
Os pilares da década de ouro de Coppola:
- O Chefão (1972): Redefiniu o gênero de crime e salvou a Paramount.
- A Conversação (1974): Um thriller de espionagem que é uma aula de edição de som.
- O Chefão Parte II (1974): Provou que sequências podem ser melhores que o original.
- Apocalypse Now (1979): Quase matou o diretor e a equipe, mas virou o filme de guerra definitivo.
Como chegamos aqui
A história de como O Chefão saiu do papel parece roteiro de filme de comédia de erros. Robert Evans — o produtor executivo bonitão e polêmico da Paramount — estava desesperado por um hit. Ele comprou os direitos do livro de Mario Puzo (autor de O Chefão) por uma pechincha porque o escritor estava devendo 11 mil dólares para agiotas e precisava pagar a dívida antes que acabasse com um braço quebrado. Sim, o filme de máfia começou com uma dívida de máfia na vida real.
Com o roteiro em mãos, Evans precisava de um diretor. A ideia brilhante veio de Peter Bart, braço direito de Evans: o filme precisava de um ítalo-americano para dar autenticidade. Coppola parecia a escolha óbvia por causa da ascendência, mas Evans odiava o trabalho anterior dele. O próprio Coppola também não estava nem um pouco hypado. Ele achava o livro de Puzo apelativo e comercial demais para o seu gosto refinado de "estudante de cinema cult".
O que mudou o jogo foi o puro suco do capitalismo: a falta de dinheiro. Coppola tinha fundado seu próprio estúdio, a American Zoetrope, com a ideia de desafiar o sistema de Hollywood. O problema? O estúdio estava quebrado. Quem deu o choque de realidade foi ninguém menos que George Lucas — o futuro criador de star wars. Na época, Lucas estava trabalhando na pós-produção de THX 1138 e disse para o amigo: "Cara, a gente está em dívida. Você precisa de um emprego. Eu acho que você deveria aceitar essa parada".
"Eu estava interessado na New Wave e em Fellini e, como todos os garotos da minha idade, queríamos fazer esse tipo de filme. Então o livro [de O Chefão] representava todo o tipo de ideia que eu estava tentando evitar na minha vida", disse Coppola anos depois.
Basicamente, o maior filme de todos os tempos só aconteceu porque o diretor precisava pagar os boletos e o melhor amigo dele deu um empurrãozinho. Se o George Lucas não tivesse insistido, talvez Coppola tivesse passado os anos 70 fazendo filmes experimentais que ninguém veria, e Marlon Brando — o eterno Vito Corleone — nunca teria tido seu grande retorno.
O que vem depois
Depois que Coppola finalmente cedeu e aceitou o cargo, o resto é história (e muitos prêmios). O Chefão foi feito com um orçamento de US$ 7 milhões e arrecadou absurdos US$ 291 milhões globalmente. Foi um dos primeiros "mega-hits" da era moderna, provando que filmes adultos e complexos podiam sim ser blockbusters. O filme levou três Oscars: Melhor Filme, Melhor Ator e Melhor Roteiro Adaptado.
Mas aqui entra a parte irônica que o chat precisa entender: o sucesso de O Chefão foi, de certa forma, uma tragédia pessoal para o Coppola. Ele queria ser um rebelde independente, mas acabou se tornando o maior trunfo do sistema que ele odiava. Esse sucesso deu a ele o dinheiro e o ego necessários para tentar projetos cada vez mais arriscados, o que culminou na produção caótica de Apocalypse Now e, décadas depois, no desastre financeiro de Megalopolis.
Hoje, a American Zoetrope ainda existe e continua com o lema de "desafiar o sistema", mas o mercado mudou. Coppola continua sendo o cara que prefere perder milhões tentando fazer algo novo do que ganhar bilhões fazendo o que o estúdio manda. No fim das contas, ele nunca deixou de ser aquele garoto que queria imitar o Fellini, mesmo quando estava filmando a cabeça de um cavalo em uma cama de luxo.
| Filme | Ano | Status de Produção |
|---|---|---|
| O Chefão | 1972 | Sucesso Absoluto / Clássico |
| Apocalypse Now | 1979 | Produção Caótica / Obra-prima |
| Megalopolis | 2024 | Fracasso de Bilheteria / Cult Divisivo |
O lado que ninguém tá vendo
A grande lição da trajetória de Coppola é que, às vezes, as restrições de um estúdio e a necessidade financeira criam o ambiente perfeito para a genialidade. Quando ele teve liberdade total e dinheiro infinito, ele tendeu a se perder em conceitos abstratos que o público comum não consegue tankar. O Chefão funciona porque é o equilíbrio perfeito entre a visão artística de um gênio e a estrutura narrativa que um grande estúdio exige.
Olhando para trás, é engraçado pensar que o filme que definiu o cinema americano foi visto pelo seu criador como um "trabalho de aluguel". Isso mostra que nem sempre o artista sabe o que é melhor para sua própria carreira. Se Coppola tivesse seguido seu desejo original de fazer apenas cinema de arte europeu, a cultura geek teria perdido uma de suas maiores referências estéticas e narrativas.
No fim, a aposta da redação é que Coppola vai continuar sendo essa figura polarizadora. Ele não faz filmes para o Rotten Tomatoes ou para o algoritmo do TikTok; ele faz filmes para o Coppola de 20 anos atrás que ainda quer ser o novo Fellini. Pode flopar nas bilheterias, mas ele morre sendo o cara que não se vendeu — mesmo que tenha precisado se vender uma vez lá atrás para salvar a própria pele.
Para quem quer mergulhar mais fundo nessa história, vale muito a pena ler o livro Como a Geração Sexo, Drogas e Rock 'n' Roll Salvou Hollywood (Easy Riders, Raging Bulls), de Peter Biskind. Lá tem todos os detalhes sórdidos dessa época onde os diretores eram os verdadeiros rockstars.


