Fim do romance: a lua de mel da era Trump com as gigantes da tecnologia acabou


A lua de mel do governo Trump com a agenda antitruste parece ter chegado a um fim abrupto. O que antes era uma coalizão bipartidária robusta, unida pelo desejo de conter o poder excessivo das grandes corporações, hoje vive um cenário de desconfiança generalizada. O clima de otimismo que permeou o início do segundo mandato de Donald Trump, em 2025, foi substituído por uma atmosfera de ceticismo, onde as antigas promessas de combate aos monopólios dão lugar a acusações de conluio, lobby e enfraquecimento das instituições reguladoras.

O “Negócio” como Prioridade: O Tom da Nova Gestão

O tom do momento foi ditado por Omeed Assefi, chefe interino da divisão antitruste do Departamento de Justiça (DOJ). Em um discurso recente na Universidade George Washington, Assefi recorreu a uma citação icônica de O Poderoso Chefão 🛒: “Não é pessoal, Sonny, é estritamente negócios”. A frase, embora cinematográfica, reflete a nova filosofia da agência: uma postura que tenta equilibrar a retórica de “perseguição implacável aos infratores” com uma abertura pragmática para negociações que, segundo críticos, resultam em acordos excessivamente lenientes.

A tensão interna no DOJ atingiu níveis críticos no último ano. A demissão de altos funcionários, incluindo auxiliares de Gail Slater — ex-chefe da divisão que deixou o cargo sob circunstâncias nebulosas —, gerou um rastro de denúncias. Acusações de “insubordinação” foram rebatidas por ex-membros da agência com alegações de que o Departamento de Justiça estaria “pervertendo a justiça” em favor de interesses corporativos alinhados ao movimento MAGA 🛒.

A Desilusão da Comunidade Jurídica

Durante a reunião anual de primavera da American Bar Association (ABA), o sentimento era de desencanto. Especialistas que antes acreditavam na seriedade do governo Trump em relação às políticas antitruste agora veem uma clara regressão. Roger Alford, um dos ex-deputados demitidos da divisão, não poupou críticas ao comparar a postura de Assefi à do Capitão Renault em Casablanca, fingindo surpresa diante de evidências óbvias de influência política nas instâncias federais.

A sensação compartilhada por muitos é de que a administração atual não possui mais o ímpeto necessário para enfrentar gigantes tecnológicos. O questionamento agora não é se o governo se importa com a concorrência, mas quem terá recursos e autoridade moral para assumir o papel que o governo federal abdicou de cumprir.

O Papel dos Estados como Último Refúgio

Diante do aparente esvaziamento da força federal, os olhos se voltam para os Procuradores-Gerais estaduais (AGs). Existe uma distinção clara entre a política de Washington e a atuação em nível estadual. Enquanto o DOJ optou por acordos questionáveis, como no caso Live Nation-Ticketmaster, 34 estados — incluindo representantes republicanos e democratas — decidiram continuar a batalha judicial por conta própria. Para figuras como o Procurador-Geral do Colorado, Phil Weiser, a atuação dos estados tornou-se um baluarte contra a “anarquia e a corrupção” que, segundo ele, tomaram conta da esfera federal.

  • Resistência Estadual: Estados continuam litigando contra a Live Nation, buscando resultados mais robustos do que o acordo federal.
  • Limitação de Recursos: A disparidade de fundos entre estados e o governo federal coloca uma pressão imensa sobre os procuradores locais.
  • Aposta no Futuro: A esperança é que, na ausência de ação federal, o Congresso destine verbas diretas para que os estados possam sustentar essas investigações complexas.

O Lobby e a Defesa da Administração

Apesar das críticas, a administração Trump mantém uma postura desafiadora. Tanto Assefi quanto o presidente da FTC, Andrew Ferguson, minimizam o peso das influências externas. Para eles, o lobby é uma constante histórica de Washington e não deve ser confundido com a tomada de decisão. Ferguson foi ainda mais incisivo, sugerindo que a imprensa estaria “romantizando” as denúncias de corrupção apenas porque o perfil dos lobistas mudou — de democratas da K Street para republicanos alinhados ao novo poder.

A estratégia de Trump, rotulada como “estritamente negócios”, parece ser uma alternativa mais suave à regulação agressiva, focada em acordos mutuamente benéficos em vez de punições exemplares. No entanto, o sucesso dessa abordagem será testado em breve. Casos envolvendo Big Tech, como as apelações nos processos contra o Google, Meta, Amazon e Apple, servirão como o verdadeiro termômetro para saber se o governo ainda mantém a capacidade de “jogar pesado” ou se, como sugerem os críticos, os reguladores federais estão apenas “deixando a arma e levando os canollis”.

O futuro da regulação antitruste nos Estados Unidos encontra-se em uma encruzilhada. Se a administração federal continuar a retroceder, a força da lei dependerá da resiliência dos estados e da capacidade de advogados e procuradores de manterem a pressão, mesmo quando as instituições que deveriam liderar o combate parecem ter mudado de lado.