O que aconteceu
O catálogo da Netflix acaba de receber uma adição que merece a atenção de quem busca um thriller com atmosfera pesada e um elenco de peso: Fallen (1998). O longa, que marca a única incursão de Denzel Washington — um dos atores mais premiados e respeitados de sua geração — no gênero do horror, está disponível para os assinantes brasileiros. A trama acompanha o detetive John Hobbes (Washington), que, ao lado de seu parceiro Jonesy (interpretado pelo icônico John Goodman, de O Grande Lebowski), investiga uma série de assassinatos brutais em Chicago que seguem o mesmo modus operandi de um serial killer já executado.
O que começa como um suspense policial convencional rapidamente descamba para algo muito mais sinistro. A investigação revela que a mente por trás dos crimes não é humana, mas sim um demônio capaz de saltar de um corpo para outro através do toque. O filme, dirigido por Gregory Hoblit (de As Duas Faces de um Crime) e roteirizado por Nicholas Kazan (de O Reverso da Fortuna), equilibra a tensão de uma caçada humana com elementos sobrenaturais que, para a época, foram considerados ousados e, por vezes, incompreendidos pela crítica especializada.
Como chegamos aqui
É importante contextualizar que Fallen não foi um sucesso imediato. Em 1998, o filme sofreu nas bilheterias, arrecadando apenas 25 milhões de dólares contra um orçamento de 46 milhões. Naquela época, o gênero de terror — especialmente o que misturava elementos policiais com o sobrenatural — raramente recebia o reconhecimento que filmes como O Silêncio dos Inocentes conseguiram conquistar. A crítica da década de 90 tendia a ser mais conservadora, e o tom experimental de Fallen acabou sendo rotulado negativamente.
No entanto, o tempo tem sido gentil com a obra. Enquanto o cinema de gênero sofria com a falta de prestígio, o mercado de home video (VHS e DVD) permitiu que o filme encontrasse seu público fiel. Com o passar das décadas, o longa foi reavaliado por fãs e estudiosos, que passaram a destacar pontos que antes foram ignorados:
- Elenco de elite: Além de Denzel e Goodman, o filme conta com participações de peso como Donald Sutherland (Invasão de Corpo e Alma), James Gandolfini (Família Soprano) e Embeth Davidtz (A Lista de Schindler).
- Atuação visceral: Washington entrega uma performance contida, mas carregada de tensão, ancorando o elemento fantástico em uma realidade palpável.
- Roteiro inteligente: A premissa de um demônio que infecta pessoas comuns torna a paranoia do protagonista algo contagiante para o espectador.
O próprio Denzel Washington, em entrevistas de época, confessou que não recebia muitos roteiros de terror de qualidade, o que torna Fallen um ponto fora da curva em sua filmografia. Hoje, vivemos em um cenário onde o terror finalmente é celebrado em grandes premiações, como vimos nas recentes vitórias de Amy Madigan e Ryan Coogler, o que torna a revisita a este filme de 1998 ainda mais interessante.
O que vem depois
Para o espectador brasileiro, a chegada de Fallen à Netflix é a oportunidade ideal para preencher uma lacuna cinéfila. O filme não é apenas uma curiosidade sobre a carreira de um grande ator; é um exemplo de como o cinema de gênero pode ser subestimado em seu lançamento e ganhar um status de "cult" anos depois. Se você gosta de suspenses que desafiam a lógica e mantêm a tensão até os minutos finais, o filme é uma recomendação sólida.
O veredito
Vale a pena assistir? Sem dúvidas. Fallen é um lembrete de que nem todo fracasso de bilheteria é um filme ruim. Pelo contrário, o longa envelheceu muito bem, beneficiando-se de uma atmosfera que filmes de terror modernos, muitas vezes dependentes de sustos baratos, não conseguem replicar.
Se você busca uma maratona de fim de semana, este é um prato cheio. Ele não tenta ser uma obra-prima do terror transcendental, mas entrega exatamente o que promete: uma caçada tensa, atuações impecáveis e uma premissa que, mesmo quase 30 anos depois, ainda consegue prender a atenção de quem gosta de um bom mistério sobrenatural.


