O que acontece no mundo dos feiticeiros após a queda de En?
No oitavo episódio da segunda temporada de Dorohedoro (anime baseado no mangá de Q Hayashida), o clima de anarquia e bizarrice atinge um novo patamar. A morte de En, o poderoso líder da Família En, não é apenas um evento narrativo, mas um colapso estrutural. Como sua magia de cogumelos servia como uma espécie de infraestrutura para o mundo dos feiticeiros, sua ausência causa um efeito dominó imediato. O episódio ilustra com maestria como a informação da sua queda se espalha: não por boatos, mas pelo apodrecimento físico das construções e sistemas mantidos por seu poder.
Para os membros da Família En, o impacto é psicológico e visceral. Fujita, o feiticeiro de baixo escalão, exibe sinais claros de estresse pós-traumático, enquanto a instável Ebisu mascara sua melancolia com risadas incontroláveis. Até mesmo a dupla de elite, Shin e Noi, parece desorientada, entregando-se à inércia e ao consumo de fast-food enquanto tentam processar a perda. A confissão de Noi, chamando En de "idiota arrogante de cogumelo", humaniza a relação entre eles, mostrando que, apesar da lealdade, as facções em Dorohedoro são movidas por sentimentos complexos e nem sempre puramente heróicos ou vilanescos.
O trauma de Nikaido e o perigo do efeito borboleta
Enquanto a Família En lida com o luto, o episódio mergulha na melancolia de Nikaido, a companheira de Caiman (o protagonista com cabeça de réptil). O roteiro explora o peso de ser uma feiticeira do tempo, um dos tipos mais raros e perigosos de magia. Através de flashbacks, vemos que os poderes de Nikaido são uma caixa preta que ela própria teme abrir. A incapacidade de uma criança em compreender as ramificações de alterar o passado resultou em tragédias que moldaram sua personalidade adulta.
A estrutura dessa subtrama utiliza o conceito clássico do "efeito borboleta". Nikaido carrega a memória de Yakumo, uma figura de seu passado que foi apagada da existência para todos, exceto para ela. Essa carga emocional justifica por que ela esconde suas habilidades: não é apenas por medo de ser caçada por En, mas para proteger o tecido da realidade e as pessoas que ama. É um lembrete de que, por trás de toda a violência gráfica e do humor ácido, Dorohedoro possui um coração humano pulsante e trágico.
Por que a ressurreição de um vilão envolve uma pizza gigante?
Se você achava que já tinha visto de tudo nesta série, o episódio 8 apresenta a magia de Turkey. A personagem, que é uma mulher trans (um detalhe importante de representação que a obra trata com naturalidade), possui a habilidade de criar bonecos réplicas que buscam instintivamente o original. No entanto, o método é o que define a estética de Q Hayashida: ela precisa, literalmente, cozinhar essas réplicas.
A cena é um banquete visual de absurdo e horror corporal:
- O preparo: Turkey utiliza uma pá de pizza gigante para manusear uma massa que contém um corpo humano nu e funcional.
- O objetivo: Usar o boneco para rastrear o paradeiro exato de En, onde quer que seus restos (ou sua alma) estejam.
- O contraste: A animação detalha o processo culinário de forma tão apetitosa que chega a ser perturbador, criando uma dissonância cognitiva entre a fome e o asco.
Essa sequência encapsula a alma de Dorohedoro. A série transita entre o gore mais pesado e o cotidiano mais banal — como o prazer de comer uma pizza — sem perder o ritmo ou parecer forçada. A criatividade de Hayashida brilha nos detalhes, como os feiticeiros usando aspiradores de pó tunados em vez de vassouras voadoras tradicionais.
A estética visceral e o design de mundo de Q Hayashida
O episódio também dedica tempo para reforçar a construção de mundo única da obra. A magia aqui não é algo místico e limpo; é biológica. Os feiticeiros possuem tumores em forma de demônio em seus cérebros que canalizam fumaça através de um sistema orgânico específico. Quando atingem um nível de poder extremo, eles se tornam demônios literais. É uma abordagem de body horror que poucos animes ousam explorar com tanta propriedade.
Além disso, a trilha sonora e o design de som merecem destaque. A cena em que Haru transforma sua cauda em um microfone para cantar um death metal sobre o quanto os humanos são desprezíveis é puro suco de Dorohedoro. Cada frame transborda uma alegria caótica, seja no brilho de uma cena de ação ou na podridão de um beco no "Buraco" (a cidade dos humanos). O episódio termina com os Cross-Eyes (Olhos Cruzados) cruzando o caminho dos limpadores de En novamente, indicando que, embora o ritmo tenha tido momentos de pausa para o desenvolvimento de personagens, a guerra está longe de terminar.
"Dorohedoro é um bufê do bizarro, onde a dor da perda e o prazer de uma refeição italiana coexistem sem que um diminua o outro."
O que esperar dos próximos episódios
Com a conclusão deste arco focado na transição de poder e no passado de Nikaido, os fãs podem esperar por desdobramentos intensos. Por que isso importa:
- Consequências temporais: O uso ou a recusa de Nikaido em usar seus poderes será crucial para o destino de Caiman.
- O paradeiro de En: A réplica criada por Turkey deve levar a Família En a revelações sombrias sobre o que realmente aconteceu com seu mestre.
- Confronto de facções: A tensão entre os Cross-Eyes e os remanescentes da Família En está prestes a explodir em um conflito direto.
- Mistérios do Buraco: A conexão entre o passado de Nikaido e a origem da maldição de Caiman deve ganhar mais pistas em breve.


