TL;DR: Em 1971 o serial "The Dæmons" de Doctor Who quase foi retirado do ar porque a cena final mostrava a destruição de uma igreja, o que poderia violar a antiga lei de blasfêmia do Reino Unido.
O que aconteceu
Durante a oitava temporada da série, transmitida entre maio e junho de 1971, o arco conhecido como "The Dæmons" foi exibido em cinco partes. O enredo gira em torno do Mestre — interpretado por Roger Delgado — que tenta ressuscitar o alienígena Azal, um ser que se apresenta como demônio, mas na verdade é uma entidade extraterrestre que influenciou mitos humanos ao longo dos séculos.
O Doctor (Jon Pertwee) e sua companheira Jo Grant (Katy Manning) tentam impedir que um sítio arqueológico liberte Azal. No clímax, a igreja onde a batalha culmina explode, supostamente destruindo o vilão. A cena gerou protestos de espectadores que reconheceram o local como a St. Michael’s Church, em Albourne, Wiltshire, acreditando que a estrutura real havia sido demolida.
Na verdade, a explosão foi criada a partir de um modelo em miniatura construído por Peter Day, designer de efeitos da BBC, e seu assistente Ricky Grosser. O truque visual enganou o público a ponto de levantar questões sobre a legalidade da cena sob a lei de blasfêmia vigente na época.
Como chegamos aqui
Nos anos 70 o Reino Unido ainda mantinha uma lei de blasfêmia que protegia a Igreja da Inglaterra de representações ofensivas. Embora a produção de "The Dæmons" tenha sido cautelosa — evitando mencionar a palavra "Deus" e substituindo crucifixos por talismãs genéricos — a destruição de um edifício religioso ainda era um ponto sensível.
Para contornar o risco, a equipe fez várias alterações no roteiro:
- O título original "The Demons" foi mudado para "The Dæmons", usando a ligadura para indicar que o antagonista não era um demônio tradicional.
- Qualquer referência direta a orações cristãs foi substituída por frases neutras, como o verso infantil "Mary Had a Little Lamb" cantado ao contrário.
- Os objetos sagrados foram trocados por amuletos sem símbolos cristãos.
- A área subterrânea da igreja foi descrita como uma "caverna secular" ao invés de um "cripta".
- Terrance Dicks, editor de roteiro, supervisionou todas as mudanças para garantir que não houvesse conotações satânicas.
Mesmo com esses cuidados, a cena final ainda levantou dúvidas. Quando os telespectadores enviaram cartas à BBC denunciando a suposta destruição de um local sagrado, a emissora precisou esclarecer que se tratava de um modelo, não de um edifício real.
Vale lembrar que a lei de blasfêmia só foi efetivamente enfraquecida em 1998, com a Human Rights Act, e revogada totalmente em 2008 pelo Criminal Justice and Immigration Act. Na época de "The Dæmons", porém, o risco de processo por blasfêmia ainda era real.
O que vem depois
Apesar da polêmica, "The Dæmons" permanece como um dos episódios mais lembrados da era clássica de Doctor Who. A trama introduziu um dos vilões mais icônicos — o Mestre — e demonstrou que a série estava disposta a experimentar cenários fora da Terra.
Desde então, a série raramente utilizou igrejas como palco de destruição. Até o especial de Natal de 2023, "The Church on Ruby Road", a igreja apareceu apenas como elemento de fundo, sem nenhum risco de explosão.
Hoje o serial está disponível gratuitamente no canal oficial "Doctor Who: Classic" no YouTube, permitindo que fãs de todas as gerações assistam ao episódio sem medo de processos judiciais.
Para ficar no radar
Se você ainda não conferiu "The Dæmons", vale a pena dar um replay e observar como a produção contornou as restrições da época. Além de ser uma aula de história televisiva, o episódio oferece:
- Um dos primeiros confrontos épicos entre o Doctor e o Mestre.
- Um exemplo clássico de efeitos práticos que ainda surpreendem.
- Um vislumbre da cultura britânica dos anos 70 e de como a censura ainda influenciava roteiros de ficção científica.
Fique de olho nas próximas análises da Redação, que vão explorar outros momentos em que Doctor Who bateu de frente com a legislação ou com a moral da época.


