TL;DR: O western italiano Django (1966) foi proibido no Reino Unido até 1993 por causa de violência considerada excessiva; em 1993 recebeu classificação 18 e, em 2004, foi rebaixado para 15, tornando-se disponível em home video.
O que aconteceu
Quando o diretor italiano Sergio Corbucci lançou Django em 1966, o filme causou comoção imediata devido ao nível de sangue, armas e cenas de tortura. A British Board of Film Classification (BBFC) avaliou a obra em 1967 e, sob a supervisão do censor John Trevelyan, declarou que o conteúdo era "excessivo e nauseante". Trevelyan afirmou que o filme não poderia ser reduzido nem ao nível da classificação X, a mais restritiva da época.
Por causa dessa decisão, Django nunca recebeu classificação oficial no Reino Unido e ficou proibido de exibição pública por quase três décadas. Tentativas de submeter o filme novamente, em 1972 e 1974, também foram rejeitadas, pois a BBFC manteve que a violência era o único motivo da proibição.
Somente em 1993, já no contexto de um cinema mais violento – com lançamentos como Terminator 2 – a BBFC considerou o filme "relativamente brando" e concedeu-lhe a classificação 18, permitindo sua exibição em cinemas e em vídeo doméstico.
Em 2004, após nova revisão, a classificação foi reduzida para 15, refletindo a mudança de percepção do público e dos padrões de censura. Hoje, Django está disponível em plataformas como o Roku Channel e Kanopy, sem restrições de idade.
Como chegamos aqui
A origem da controvérsia remonta ao próprio conceito do filme. Django é, em grande parte, uma adaptação não autorizada do clássico samurai Yojimbo (1961), dirigido por Akira Kurosawa. O mesmo padrão de apropriação já havia gerado processos quando Sergio Leone lançou A Fistful of Dollars (1964), que copiou cenas de Yojimbo sem crédito, resultando em ação judicial bem‑sucedida de Kurosawa.
Corbucci, ao produzir Django, ampliou a violência já presente em Yojimbo e em A Fistful of Dollars. O protagonista, interpretado por Franco Nero, entra em uma cidade fronteiriça acompanhado de María (Loredana Nusciak) e desencadeia tiroteios massivos, incluindo uma cena em que uma vítima é forçada a comer sua própria orelha cortada. Essa crueldade gráfica foi o ponto central da objeção da BBFC.
Além das influências asiáticas, o filme também se inseriu num período de crescente violência cinematográfica nos anos 60, como nos trabalhos de Herschell Gordon Lewis. Contudo, Django destacou‑se por combinar violência explícita com um tom nihilista e político, algo que, na época, poucos filmes ousavam fazer.
- 1966 – Lançamento original na Itália.
- 1967 – BBFC rejeita classificação; John Trevelyan declara o filme "incapaz de ser reduzido".
- 1972 e 1974 – Novas tentativas de classificação são negadas.
- 1993 – Reclassificação como 18, após mudança de padrões de censura.
- 2004 – Downgrade para 15, tornando o filme acessível a adolescentes.
O sucesso cult de Django gerou inúmeras imitações, como Django Kill… If You Live, Shoot! e One Damned Day at Dawn… Django Meets Sartana!. Apenas Django Strikes Again (1987) contou com a participação de Franco Nero como protagonista.
O que vem depois
Com a classificação 15, Django passou a ser distribuído em DVD, blu‑ray e streaming, permitindo que novas gerações assistam ao filme sem cortes. A reavaliação crítica também evoluiu: críticos como Budd Wilkins (Slant Magazine, 2012) destacaram a carga política do filme, apontando que a violência serve como metáfora de opressão.
O legado de Django influenciou diretamente o diretor norte‑americano Quentin Tarantino, que utilizou o título e elementos visuais em Django Unchained (2012). O próprio Tarantino reconheceu que a cena da orelha cortada em Django inspirou uma sequência similar em Reservoir Dogs (1992), reforçando a ideia de que a obra original acabou por moldar a linguagem da violência no cinema contemporâneo.
Hoje, o filme está disponível gratuitamente em serviços como o Roku Channel e Kanopy, e continua sendo objeto de estudo em cursos de cinema que analisam a evolução da censura e da representação da violência na sétima arte.
Para ficar no radar
Embora Django já tenha sido reclassificado, a discussão sobre limites de violência ainda persiste, sobretudo em plataformas de streaming que adotam políticas próprias de classificação. A trajetória do filme demonstra como padrões culturais e regulatórios podem mudar drasticamente ao longo de décadas.
Para quem acompanha a história da censura cinematográfica, observar o caso de Django oferece um panorama claro de como obras consideradas subversivas podem, eventualmente, ser reintegradas ao cânone popular, influenciando gerações de cineastas e espectadores.


