Por que Disclosure Day aposta numa história real de UFO?
TL;DR: Steven Spielberg transformou a lenda de Jackie Gleason – o humorista que teria sido levado por Richard Nixon a um laboratório secreto para ver supostos alienígenas – em ponto central de Disclosure Day. O filme mistura fatos documentados, rumores conspiratórios e ficção para criar um thriller de ficção científica que parece mais um documentário.
Quando um diretor com a reputação de Close Encounters of the Third Kind e E.T. decide mergulhar em um caso de suposta conspiração governamental, o público já espera mais do que efeitos especiais: quer ver a verdade (ou algo que pareça). Spielberg, conhecido por usar mitos populares como combustível narrativo, encontrou na história de Gleason um elemento pronto para ser dramatizado, sem precisar inventar nada.
- Jackie Gleason – o colecionador de UFOs
O ator e comediante, conhecido como "The Great One", construiu em Peekskill, Nova York, uma casa em formato de nave espacial (a "Mothership") em 1965. Seu acervo de livros, revistas e documentos sobre OVNIs foi doado à University of Miami após sua morte, tornando-se uma das maiores coleções privadas de material ufológico.
- O encontro "secretado" com Nixon
Segundo relatos da ex‑esposa de Gleason, Beverly, o presidente dos EUA teria levado Gleason a um complexo militar da Flórida em fevereiro de 1973, mostrando-lhe o que ele chamava de destroços de um disco voador. Gleason descreveu "caixas de vidro" contendo corpos alienígenas, alguns parecendo crianças e outros adultos, todos gravemente danificados.
- Como a lenda ressurgiu em 2024
Com a onda de desclassificação de arquivos UFO iniciada por Donald Trump, o caso Gleason voltou à mídia. Roger Stone compartilhou a história nas redes, e jornalistas como Timothy Green Beckley a citaram em UFOs Among the Stars, reacendendo o interesse público.
- Spielberg adapta a história ao cinema
Em Disclosure Day, a sequência que retrata o suposto tour de Nixon é apresentada como "arquivo de 1973". O diretor optou por reproduzir fielmente a descrição de Gleason: alienígenas mutilados em caixas semelhantes a refrigeradores, reforçando a sensação de que algo terrível foi encoberto.
- O “enormous conspiracy” como tema central
O filme segue a lógica de Barack Obama, que afirmou que nenhum presidente tem acesso total a informações sobre extraterrestres. Spielberg usa essa premissa para justificar por que até mesmo um presidente pode ser mantido à margem de um segredo tão grande.
- Referências ao Roswell e à cultura pop
Além da trama Gleason‑Nixon, o filme inclui alusão direta ao incidente de Roswell (1947) e à imagem clássica dos "little gray men". Essas referências funcionam como “easter eggs” para fãs de UFO, reforçando a credibilidade da narrativa fictícia.
- Impacto na comunidade geek
Para o público de cultura geek, a mistura de fatos reais com ficção oferece um terreno fértil para debates: até que ponto o cinema pode (ou deve) usar lendas não comprovadas? A resposta de Spielberg sugere que a verdade pode ser mais estranha que a ficção.
- Riscos de romantizar teorias da conspiração
Embora a abordagem seja criativa, há o perigo de legitimar teorias sem evidência. Ao transformar a história de Gleason em entretenimento, o filme pode reforçar crenças marginalizadas, desviando a atenção de discussões mais sérias sobre transparência governamental.
Onde isso pode dar
O uso de um caso real – ainda não comprovado – como base de um blockbuster pode abrir duas avenidas: por um lado, pode estimular o interesse público por documentos desclassificados, pressionando governos a liberar mais informações. Por outro, pode alimentar o ciclo de desinformação, onde cada nova produção cinematográfica gera mais “evidências” fictícias que se misturam ao fato histórico.
Para a comunidade geek, o filme representa um convite à investigação: comparar cenas de Disclosure Day com arquivos reais, analisar a veracidade das fontes citadas e, quem sabe, descobrir novos detalhes sobre a suposta visita de Nixon. A curiosidade, afinal, é o motor que move tanto a ficção científica quanto a cultura de conspiracionismo.
O veredito
Spielberg conseguiu transformar um mito obscuro em um dos pontos mais intrigantes de Disclosure Day. A escolha de usar a lenda de Jackie Gleason demonstra coragem narrativa, mas também levanta questões éticas sobre a responsabilidade de um cineasta ao tratar de supostas verdades. O filme entrega entretenimento de alta qualidade, mas deixa o espectador com a sensação de que ainda há muito a ser revelado – e talvez, ainda mais importante, a ser questionado.
"A melhor ficção científica não é aquela que responde a todas as perguntas, mas sim a que nos faz perguntar ainda mais." – Crítica de cinema independente
Em última análise, Disclosure Day funciona como um espelho: reflete nossos medos, nossa fascinação por extraterrestres e, acima de tudo, a eterna busca por algo que vá além do que vemos nos telões.


