A dc comics está testando nossa sanidade ou apenas a nossa memória de curto prazo
A DC Comics parece ter entrado em um glitch narrativo digno de um episódio de Black Mirror. Se você abriu as edições recentes de batman (a linha principal, 616... brincadeira, essa é a outra editora) e de Absolute Batman (o novo universo 'Ultimate' da DC), deve ter sentido um déjà vu fortíssimo. Não é apenas impressão sua: o Bruce Wayne clássico e o Bruce Wayne 'bombado' do universo Absolute estão, literalmente, vivendo a mesma história ao mesmo tempo.
Enquanto Matt Fraction — roteirista premiado de Gavião Arqueiro — comanda a revista mensal principal ao lado de Jorge Jimenez — desenhista de Super Sons —, do outro lado do multiverso temos Scott Snyder — autor da icônica fase Corte das Corujas — e Nick Dragotta — artista de East of West — fazendo basicamente o mesmo setup. É o puro suco do meme do Homem-Aranha apontando para o Homem-Aranha, mas com morcegos e muito mais trauma psicológico.
| Elemento da Trama | Batman (Linha Principal) | Absolute Batman |
|---|---|---|
| Roteirista | Matt Fraction | Scott Snyder |
| Vilão Principal | Vandal Savage (vilão imortal) | coringa (vilão clássico) |
| O Crime | Incriminado pela morte de um policial | Incriminado pela morte de Jim Gordon |
| Status Social | Caçado pela mídia e prefeitura | Caçado pela mídia e prefeitura |
| Força de Elite | Polícia de Gotham tunada | Programa "Absolute Robins" |
Batman de Matt Fraction: o herói clássico encurralado?
Na cronologia oficial da DC, as coisas não estão nada fáceis para o Bruce Wayne que a gente conhece. Vandal Savage — aquele vilão das antigas que não morre nem se for jogado no sol — conseguiu o impossível: ele deu um xeque-mate político no Morcego. O plano é simples e cruel: incriminar o Batman pelo assassinato de um oficial de polícia.
O que torna essa fase de Matt Fraction interessante é como ela foca no isolamento. O novo prefeito de Gotham deu sinal verde para uma caçada humana, e a mídia local comprou a narrativa sem pestanejar. O Batman de Jimenez e Sook (Ryan Sook — artista de Legião dos Super-Heróis) é um fugitivo em sua própria cidade, precisando lidar com uma força policial equipada com tecnologia de ponta feita especificamente para derrubar vigilantes fantasiados. É o Batman raiz tendo que provar que não é um assassino enquanto o sistema inteiro tenta deletá-lo.
Absolute Batman de Scott Snyder: o novo Bruce Wayne sob fogo?
Agora, mude a frequência para o universo Absolute. Aqui, o Bruce Wayne não é um bilionário; ele é um engenheiro civil da classe trabalhadora, mas o azar é o mesmo. Scott Snyder decidiu que, para começar bem esse novo universo, o Coringa — o palhaço do crime que todo mundo ama odiar — deveria incriminar o Batman pela morte de ninguém menos que Jim Gordon — o eterno aliado e ex-comissário de Gotham.
A dinâmica aqui é um pouco mais agressiva. O prefeito da Gotham Absolute também deu o ok para a caçada, e a mídia está fazendo um churrasco com a reputação do herói. A diferença estética é gritante, com Nick Dragotta entregando um Batman massivo, mas a batida do roteiro é um Ctrl+C Ctrl+V espiritual da linha principal. Em vez de policiais comuns, temos o programa "Absolute Robins" sendo usado como cães de guarda do sistema para caçar o Morcego. Sim, até os Robins entraram na dança da discórdia.
Por que a DC Comics está repetindo a mesma trama?
Se você acha que isso é falta de criatividade ou erro de comunicação entre os editores, pense de novo. O próprio Matt Fraction abriu o jogo no podcast The Direct Edition, em conversa com Chip Zdarsky — outro roteirista de peso do Batman. Segundo Fraction, ele e Scott Snyder estão fazendo isso de propósito.
A ideia é um experimento narrativo: dar o mesmo "gancho" (hook) para dois roteiristas diferentes e ver como cada um resolve o problema. É quase um desafio de reality show de escrita criativa. Fraction comentou que eles estão planejando algo para o Free Comic Book Day (dia em que as lojas americanas distribuem HQs de graça), possivelmente em 2027 ou até antes, onde veremos o desfecho dessas duas abordagens.
- O Batman de Fraction resolve as coisas com intelecto e os recursos que lhe restam da fase bilionária.
- O Batman de Snyder resolve as coisas na força bruta e na engenhosidade de quem não tem nada a perder.
- A Gotham Principal é uma metrópole gótica clássica em colapso político.
- A Gotham Absolute é uma distopia urbana onde o Batman é o elemento estranho desde o dia um.
Vereditos: o melhor pra cada perfil
Se você é fã de longa data e gosta de ver o Bruce Wayne sofrendo para limpar seu nome enquanto mantém a pose de detetive, o Batman de Matt Fraction é a sua escolha. É uma história de resistência e política, focada em como um símbolo pode ser distorcido pelo poder público. A arte de Jorge Jimenez continua sendo uma das melhores coisas que a DC publica atualmente, com um dinamismo que pouca gente consegue replicar.
Por outro lado, se você quer algo novo, visceral e não se importa com mudanças drásticas na mitologia (como um Batman que usa uma capa que pesa toneladas e não tem a Mansão Wayne), Absolute Batman é o caminho. Scott Snyder conhece o personagem como poucos e está claramente se divertindo ao desconstruir tudo o que ele mesmo ajudou a construir na década passada. É um Batman mais "pé no chão" no sentido financeiro, mas totalmente insano no visual.
Qual escolher
No fim das contas, a escolha depende do quanto você consegue tankar de Gotham City por semana. Ler as duas simultaneamente é uma experiência curiosa, quase como assistir a dois filmes com a mesma premissa lançados no mesmo ano (tipo Armageddon e Impacto Profundo). Você consegue notar as nuances de cada autor em cima de um mesmo problema: como o Batman sobrevive quando a cidade que ele protege decide que ele é o vilão?
A aposta da redação é que essa simetria vai culminar em um evento que vai fritar o cérebro dos leitores. Se você tiver orçamento para apenas uma, Absolute Batman leva uma pequena vantagem pelo fator novidade e pela arte disruptiva de Dragotta. Mas não durma no ponto com a fase do Fraction; o cara sabe escrever diálogos como ninguém e Vandal Savage é um antagonista que merece mais holofotes.
Independentemente da sua escolha, prepare-se: o Batman vai apanhar muito nos próximos meses, seja ele rico ou pobre, clássico ou absoluto. É um bom momento para ser fã do Morcego, mas um péssimo momento para ser o Bruce Wayne.


