O retorno dos robôs gigantes: DANDIVINE é a salvação ou apenas marketing?
A Good Smile Company — gigante do mercado de colecionáveis e figures — decidiu que não basta apenas fabricar os bonecos: eles querem ser os donos do IP. Com o anúncio de Beast King Warrior God DANDIVINE, a empresa oficializa sua entrada no mercado de animes com uma ambição que beira a audácia: criar uma franquia de longo prazo focada em robôs combináveis, o famoso subgênero gattai. O anime, que estreia em outubro de 2026, chega sob a responsabilidade do estúdio LIDENFILMS (conhecido por Tokyo Revengers) e da Kayac Animation.
A premissa é um prato cheio para quem sente falta dos clássicos dos anos 90: vinte anos após a derrota dos Aposdolls, o lendário robô DANDIVINE caiu no esquecimento. O mundo seguiu em frente, e a fabricante de brinquedos que lucrava com a imagem do herói metálico agora enfrenta uma crise financeira. É uma metalinguagem interessante, que reflete a própria situação do gênero mecha na indústria atual: um nicho que luta para se manter relevante diante da onipresença dos isekais e dramas de slice-of-life.
O que realmente chama a atenção, no entanto, não é apenas o anime, mas a estratégia corporativa por trás. A Good Smile Company planeja lançar um novo conceito de robô combinável a cada ano, com projetos já engatilhados para 2027 e 2028. É uma tentativa clara de criar um ecossistema de brinquedos e entretenimento que se retroalimenta, algo que a Bandai dominou por décadas com Gundam.
O protagonista "chato": Gênio ou erro de roteiro?
Toshiki Inoue, o lendário roteirista responsável pela composição da série, soltou uma bomba durante o anúncio: o protagonista Gekiha Shijima foi escrito para ser "completamente entediante". Em um mercado onde todos os protagonistas precisam ter um trauma profundo, um poder oculto ou uma personalidade expansiva, a escolha de Inoue é um hot take corajoso.
A ideia é que o espectador passe a série inteira esperando que Gekiha se torne interessante, apenas para ser frustrado. Isso é genial ou é um tiro no pé? Se bem executado, pode ser uma desconstrução brilhante do heroísmo. Se mal executado, teremos um protagonista que afasta o público em vez de gerar identificação. A aposta é alta, e Inoue parece estar testando a paciência do espectador.
Comparativo: O que DANDIVINE traz de novo?
Para entender o peso dessa aposta, precisamos olhar para como o gênero se divide hoje. A Good Smile Company não está tentando competir com o realismo militar de Gundam, mas sim com a nostalgia dos super robôs combináveis.
| Critério | DANDIVINE (O novo modelo) | Mechas Tradicionais (Ex: Gundam/Evangelion) |
|---|---|---|
| Foco principal | Brinquedos e franquia anual | Narrativa episódica ou cinematográfica |
| Protagonista | Propositalmente "chato" | Complexo, traumatizado ou heróico |
| Dinâmica | Robôs combináveis (Gattai) | Variada (Real robot vs Super robot) |
| Longevidade | Planejada em ciclos anuais | Focada em sagas longas ou OVAs |
A grande vantagem de DANDIVINE é o suporte financeiro e de design da Good Smile. Se a qualidade dos brinquedos for o foco, a fidelidade visual do anime será impecável. O risco, contudo, é o anime se tornar um "comercial de 20 minutos", perdendo a alma narrativa em favor da venda de plástico.
O lado que ninguém está vendo
O que a indústria parece ignorar é que o público de mecha hoje é um público de nicho, porém extremamente fiel e exigente. Tentar forçar uma "franquia anual" pode gerar fadiga antes mesmo do terceiro ano. Se o primeiro título, DANDIVINE, não entregar um roteiro que justifique sua existência além da venda de action figures, a iniciativa pode naufragar antes de 2027.
Por outro lado, a escolha de Toshiki Inoue sugere que a Good Smile quer, sim, conteúdo de qualidade. Inoue não é um novato; ele entende como subverter tropos. Se o estúdio LIDENFILMS conseguir entregar uma animação de combate à altura dos designs de An (GOD BRAVE STUDIO), podemos estar diante do início de uma nova era de ouro para os robôs gigantes. O sucesso não depende apenas de quantos robôs eles conseguem combinar, mas de quantas pessoas eles conseguirão fazer se importar com um protagonista que não foi feito para ser amado.


