Em 1985 a Cannon Films iniciou a produção de um filme de horror com o Homem‑Aranha, mas o projeto foi cancelado após a leitura do roteiro por Stan Lee.
O que aconteceu
O plano original da Cannon Films era transformar Peter Parker em um monstro semelhante ao The Fly. O estúdio contratou o diretor de terror Tobe Hooper – conhecido por The Texas Chain Saw Massacre – e o roteirista Leslie Stevens, criador de The Outer Limits, para escrever um script em que um experimento científico expõe Parker a radiação, convertendo‑o em uma criatura aracnídea gigante. O roteiro previa ainda que o vilão fosse um híbrido entre homem‑aranha e criatura mutante, com oito braços peludos.
Durante as negociações, o produtor Menahem Golan demonstrou pouco entendimento da essência do personagem, comparando‑o a um monstro estilo Wolf Man. Albert Pyun, diretor de filmes B, relatou em entrevista ao io9 que Golan acreditava que o Homem‑Aranha seria “um horror monstruoso” e não reconhecia a importância da angústia adolescente de Peter Parker.
Além de Hooper, a produção chegou a considerar Tom Cruise para o papel principal. No entanto, antes das filmagens, Stan Lee leu o roteiro e rejeitou a proposta, alegando que a história ignorava completamente o espírito dos quadrinhos. Lee insistiu que a equipe revisasse o material e voltasse ao cânone original.
Com o roteiro descartado, Hooper saiu do projeto e a Cannon tentou reorientar a produção para um filme de super‑herói mais tradicional, mas enfrentou disputas de direitos entre diferentes estúdios que alegavam possuir a licença do personagem. O impasse resultou no abandono definitivo do filme.
Como chegamos aqui
O interesse da Cannon Films pelo Homem‑Aranha surgiu após o sucesso de Superman (1978), dirigido por Richard Donner, que demonstrou a viabilidade comercial de adaptações de quadrinhos. Marvel, então, licenciava seus personagens a baixo custo, o que levou a produções como Howard the Duck e The Fantastic Four.
O projeto de horror do Homem‑Aranha se desenvolveu em três fases principais:
- Concepção inicial (1978‑1983): A Cannon adquiriu os direitos, mas ainda não definiu o tom.
- Desenvolvimento de roteiro (1984‑1985): Leslie Stevens escreveu um script onde um experimento de Oscorp cria um mutante homicida; Tobe Hooper foi contratado para dirigir.
- Intervenção de Stan Lee (final de 1985): Lee leu o roteiro, considerou‑o inadequado e bloqueou a produção, levando à saída de Hooper.
O fracasso do filme foi, em parte, uma consequência da falta de compreensão da própria identidade do personagem por parte dos executivos da Cannon. Enquanto o estúdio buscava replicar o sucesso de filmes de ação de baixo orçamento, não conseguiu equilibrar o horror com a narrativa de responsabilidade social que define o Homem‑Aranha.
Décadas depois, a Marvel lançou a linha Midnight Universe, que inclui midnight spider-man. O primeiro número da série apresenta uma versão ainda mais sombria do herói: Oscorp realiza experimentos com hormônios e mutação, resultando em um Peter Parker transformado em uma criatura aracnídea que mata seu tio Ben de forma grotesca. A semelhança entre a premissa da série e o roteiro abandonado da Cannon é notória.
O que vem depois
Com o lançamento de Midnight Spider-Man em 2024, os fãs têm acesso a uma versão oficial que explora o horror que a Cannon pretendia. A série faz parte de um projeto maior que também reimagina o Homem‑Aranha, os X‑Men e o Quarteto Fantástico em tons sombrios, reforçando a tendência de revisitar personagens clássicos sob novas lentes.
Embora o filme da Cannon nunca tenha sido produzido, a história serve como um alerta sobre a importância de respeitar a essência dos personagens ao adaptar quadrinhos para o cinema. O caso também ilustra como decisões criativas podem mudar drasticamente o destino de um projeto, especialmente quando criadores como Stan Lee intervêm.
Para os colecionadores, a arte conceitual do roteiro da Cannon ainda circula em fóruns de fãs, e algumas imagens de teste foram divulgadas em eventos de nostalgia de cinema B. O interesse por esse “filme perdido” pode gerar futuras publicações de artebooks ou até mesmo um documentário sobre projetos de super‑heróis que nunca chegaram às telas.
Enquanto isso, a Marvel continua a expandir o universo Midnight, prometendo novos números que aprofundam a origem monstruosa de Peter Parker e exploram outras facetas sombrias dos seus heróis.
Para ficar no radar
Os próximos lançamentos da linha Midnight incluem midnight fantastic four e midnight x‑men, ambos programados para 2025. Além disso, rumores apontam para um possível filme de horror do Homem‑Aranha produzido por um estúdio independente, inspirado diretamente no roteiro da Cannon, embora ainda não haja confirmações oficiais.
Os leitores que desejam acompanhar a evolução da narrativa horror do Homem‑Aranha podem seguir as publicações mensais da Marvel e ficar atentos a anúncios de edições especiais de colecionáveis que relembram o projeto abortado da década de 80.


