A Peste Negra dizimou cerca de um terço da população europeia no século XIV, mas no universo literário de Christopher Buehlman — autor norte-americano conhecido por misturar horror histórico e fantasia —, os ratos foram apenas o começo do pesadelo. Publicado originalmente em 2012, o romance Between Two Fires (Entre Dois Fogos, em tradução livre) deixou de ser um segredo de nicho para se tornar uma das obras mais recomendadas em comunidades de terror e literatura grimdark (subgênero da fantasia com tom pessimista e violento). Agora, com o ressurgimento do interesse por tramas de época viscerais, a pergunta que ecoa entre os leitores é: por que Hollywood ainda não transformou essa jornada infernal em um filme?
O que aconteceu: O renascimento de um clássico moderno
Embora tenha sido lançado há mais de uma década, Between Two Fires experimentou um fenômeno de popularidade tardia, algo raro no mercado editorial saturado de hoje. O livro narra a história de Thomas, um cavaleiro caído e desonrado que sobrevive como um bandoleiro na França de 1348. Sua vida muda ao encontrar Delphine, uma jovem órfã que afirma ter visões sagradas e ser capaz de ver o que os olhos comuns ignoram. O objetivo da dupla é atravessar um país devastado pela praga para chegar a Avignon, a sede do papado na época.
O título da obra faz referência a um fato histórico curioso: o Papa daquela era mantinha fogueiras acesas ao seu redor, acreditando que o calor purificava o ar da pestilência. No entanto, na escrita de Buehlman, o perigo não é apenas biológico. O mundo está literalmente sendo usado como campo de batalha para uma guerra entre o Céu e o Inferno, onde os anjos parecem ter abandonado a humanidade e os demônios caminham livremente pela terra, aproveitando-se do caos e do desespero dos sobreviventes.
Em 2026, uma nova edição de luxo em capa dura foi lançada no mercado internacional, trazendo um prefácio assinado por Joe Hill — escritor de NOS4A2 e filho de Stephen King. Hill argumenta que a obra ressoa com o público contemporâneo por refletir a ansiedade coletiva pós-pandemia de COVID-19. Viver em um mundo onde o invisível mata e as estruturas sociais colapsam deixou de ser uma fantasia distante para se tornar um trauma compartilhado, o que deu ao livro uma nova camada de relevância emocional.
Como chegamos aqui: A mistura perfeita de Berserk e Robert Eggers
Para entender o apelo visual e narrativo de Between Two Fires, é preciso olhar para as referências que moldam o imaginário do terror medieval. O livro é frequentemente comparado a Berserk, o lendário mangá de Kentaro Miura. Assim como o protagonista Guts, o cavaleiro Thomas é um guerreiro cínico e brutalizado pela vida que encontra uma chance de redenção ao proteger alguém mais frágil. A atmosfera de "fantasia sombria" está presente em cada página, com monstros que desafiam a lógica e a sanidade.
Diferente de outras obras que tratam a Idade Média com um olhar romântico, Buehlman mergulha no horror folclórico e religioso. Entre os elementos que tornam o livro único, destacam-se:
- Demônios Viscerais: Esqueça as representações genéricas de criaturas com chifres. Aqui, Thomas enfrenta abominações como um monstro semelhante a uma enguia gigante escondido em um rio e estátuas de santos que ganham vida à noite para caçar quem se atreve a abrir a porta.
- Terror Psicológico: Há uma sequência memorável em um castelo que parece ter escapado da peste, apenas para se revelar uma armadilha surrealista onde a realidade se desfaz em pesadelos etéreos.
- Dualidade Moral: O livro questiona constantemente se a fé é uma ferramenta de salvação ou apenas uma ilusão em um mundo onde Deus parece ter silenciado.
Outra comparação inevitável é com o cinema de Robert Eggers, diretor de A Bruxa e O Homem do Norte. Eggers é mestre em capturar a mentalidade de pessoas de séculos passados, tratando suas superstições não como folclore, mas como verdades absolutas e aterrorizantes. Between Two Fires opera na mesma frequência: para os camponeses franceses do século XIV, o diabo não era uma metáfora, mas uma presença física que poderia estar batendo à sua porta durante a noite.
"A porta se abriu para uma estátua de um metro e oitenta da Virgem Maria... mas onde o Menino Jesus deveria estar em seus braços, sua mão de pedra segurava o tornozelo de um bebê que pendia de cabeça para baixo com a pele arroxeada de uma vítima da peste."
O que vem depois: O potencial cinematográfico e o que falta saber
A estrutura de Between Two Fires é quase episódica, funcionando como uma road trip (viagem de estrada) medieval. Cada parada de Thomas e Delphine apresenta um novo desafio ou uma nova criatura, o que facilitaria tanto uma adaptação para um longa-metragem épico quanto para uma minissérie de alto orçamento em plataformas como HBO ou Netflix. O contraste entre a beleza das paisagens francesas e a feiura grotesca das manifestações demoníacas oferece um prato cheio para diretores de fotografia e designers de criaturas.
Até o momento, não há um anúncio oficial de que os direitos de filmagem tenham sido adquiridos por um grande estúdio, mas a pressão dos fãs e o sucesso de vendas da nova edição colocam a obra no radar dos produtores. O gênero de horror histórico está em alta, e uma história que combina ação de espada e feitiçaria com o terror mais puro do catolicismo medieval tem potencial para ser o próximo grande sucesso cult do cinema.
A jornada de Thomas é, no fundo, uma história sobre manter a humanidade quando o mundo inteiro parece ter se tornado um inferno. Se Hollywood busca uma trama que seja visualmente impactante e emocionalmente densa, o material de Christopher Buehlman está pronto para ser explorado. Resta saber quem terá a coragem de levar essa visão apocalíptica para as telas.
Para ficar no radar
Enquanto uma adaptação cinematográfica não é confirmada, os entusiastas do gênero podem explorar o universo de Between Two Fires e obras correlatas para saciar a sede de terror medieval. O livro ainda não possui uma tradução oficial amplamente distribuída no Brasil, o que o torna um item de desejo para colecionadores de edições importadas.
Se você gostou da premissa, vale a pena conferir o filme Black Death (Morte Negra, 2010), estrelado por Sean Bean e Eddie Redmayne, que aborda temas semelhantes de fé e pestilência, embora com um foco menos sobrenatural que o livro de Buehlman. Além disso, o próprio autor possui outros títulos aclamados, como The Lesser Dead e The Blacktongue Thief, que mostram sua versatilidade em criar mundos fantásticos e sombrios.
Fique atento às listas de lançamentos de estúdios como A24 e Neon, que costumam apostar em projetos de horror com essa pegada mais autoral e histórica. Between Two Fires é, sem dúvida, uma propriedade intelectual que só precisa do diretor certo para se tornar um novo marco do cinema de gênero.


