TL;DR: O mangá boys‑love Ao to Midori, criado por Roji, recebe sua primeira adaptação live‑action, com estreia prevista para 5 de outubro nas emissoras japonesas BS Asahi e TV Kanagawa. A produção traz atores Naoya Kusakawa e Hidekazu Chinen e reacende a discussão sobre como o gênero BL pode ser tratado na TV tradicional.
O que aconteceu
Um site oficial foi lançado neste sábado anunciando que Ao to Midori — a obra de Roji que explora o amor não correspondido entre dois colegiais — será transformada em série live‑action. A estreia está marcada para 5 de outubro, às 23h24, pela BS Asahi e, poucos minutos depois, pela TV Kanagawa. A transmissão será ampliada para HBC, RKB Mainichi Broadcasting e CBC TV a partir de 8 de outubro.
O elenco principal conta com Naoya Kusakawa no papel de Midori Yamamura e Hidekazu Chinen como Ao Hayama. A direção fica a cargo de Nao Nomura, Hitomi Kitagawa e Saki Michimoto, enquanto Ayumi Shimo escreve o roteiro. A série será transmitida simultaneamente online na plataforma Lemino (às 10h da manhã) e, posteriormente, no TVer após a exibição na TV aberta.
O mangá, publicado inicialmente pela France Shoin em agosto de 2023, já tem dois volumes lançados, o segundo pela Printemps Shuppan em maio. A trama acompanha Ao, estudante exemplar e “bebê” na escola, e Midori, que nutre sentimentos por ele mas não consegue se declarar, criando um ciclo de amor não correspondido que se estende pelos anos de adolescência até a vida adulta.
Como chegamos aqui
Adaptar obras BL para o formato live‑action não é novidade, mas ainda é um caminho repleto de desafios. A história recente mostra duas tendências principais:
- Expansão de plataformas digitais: Serviços como Lemino e TVer têm buscado conteúdo diferenciado para atrair públicos nichados, e o BL oferece histórias de alta carga emocional.
- Visibilidade crescente do gênero: Mangás como Countdown to Yes, também de Roji, já foram adaptados em janeiro passado, provando que há demanda suficiente para justificar investimentos.
Entretanto, a trajetória das adaptações anteriores revela armadilhas que ainda precisam ser superadas:
- Risco de simplificação: O formato televisivo costuma condensar tramas complexas, o que pode diluir a sutileza dos sentimentos retratados nos quadrinhos.
- Pressão de ratings: Em canais tradicionais, a busca por audiência pode levar à inserção de elementos melodramáticos que destoam da essência do BL.
- Representatividade: A escolha de atores e a direção artística influenciam diretamente como a comunidade LGBTQ+ percebe a obra.
O caso de All About My Two Dads, outro mangá de Roji licenciado em inglês pela Animate International, demonstra que o público internacional está atento à fidelidade das adaptações. Quando a narrativa original é tratada com respeito, a recepção tende a ser positiva; o contrário gera críticas ferozes nas redes.
O que vem depois
Com a estreia em outubro, a série terá uma janela de exibição curta na TV aberta, mas a estratégia de streaming garante que o conteúdo permaneça acessível por um período mais longo. Isso abre espaço para duas possibilidades:
- Expansão de franquia: Caso a série conquiste bons índices de visualização, a produtora pode considerar spin‑offs focados em personagens secundários ou até mesmo um segundo temporada que siga a vida adulta de Ao e Midori.
- Influência no mercado editorial: Um sucesso pode impulsionar novas licenças de mangás BL para adaptações ao vivo, estimulando editoras como France Shoin a investir mais em propriedades com temáticas LGBTQ+.
Do outro lado, se a série falhar em captar a atenção do público, há risco de retrocesso: redes podem ficar mais reticentes a apostar em obras BL, e futuros projetos podem ser postergados ou cancelados antes mesmo de entrar em produção.
O lado que ninguém está vendo
O que realmente importa aqui não é apenas a data de estreia, mas a forma como a adaptação pode redefinir o conceito de “boys‑love” na televisão japonesa. Existem três pontos críticos que merecem atenção:
- Autenticidade emocional: Ao e Midori são personagens que vivem um amor silencioso, marcado por gestos sutis. Se a direção optar por exagerar a dramatização, corre-se o risco de transformar uma história delicada em um melodrama barato.
- Visibilidade LGBTQ+ fora do Japão: Plataformas como Lemino têm alcance global. Uma representação cuidadosa pode servir de referência para outras produções internacionais, enquanto falhas podem reforçar estereótipos.
- Impacto nas políticas de transmissão: Caso a série obtenha bons números, as emissoras podem rever suas políticas de horário para programas com temáticas LGBTQ+, abrindo espaço para mais diversidade na grade.
Minha tese é que Ao to Midori tem tudo para ser um marco positivo, desde que a produção mantenha o equilíbrio entre fidelidade ao mangá e a necessidade de adaptar a narrativa ao ritmo televisivo. Uma abordagem sensível pode validar o gênero BL como parte integrante da cultura pop, enquanto uma execução descuidada pode reforçar a ideia de que o amor entre homens ainda é “exótico” demais para a TV mainstream.
Em última análise, a série será um teste de fogo para a indústria: ela mostrará se o público está pronto para consumir histórias de amor não convencionais sem filtros, ou se ainda precisamos de mais espaço para experimentação antes que o BL se torne um prato do dia a dia nas telas japonesas.
Para ficar no radar
Fique atento às datas de transmissão nas diferentes redes e ao lançamento simultâneo nas plataformas digitais. Acompanhe também as reações nas redes sociais, pois o feedback da comunidade BL costuma ser um termômetro preciso da aceitação da obra.
Se a série conseguir equilibrar emoção e respeito, pode abrir portas para uma nova era de adaptações live‑action que celebram, sem medo, a diversidade dos sentimentos humanos.


