O deputado Chris Ward apresentou oficialmente na Assembleia Legislativa da Califórnia o projeto de lei AB 1921, uma proposta que pode mudar drasticamente a forma como as publicadoras lidam com o encerramento de serviços online. A iniciativa exige que, ao decidir desligar os servidores de um produto, a empresa forneça uma versão que funcione de forma independente, um patch de atualização para uso offline ou o reembolso total do valor pago pelo consumidor. Como era de se esperar, a ESA (Entertainment software Association — associação que representa as gigantes dos games nos EUA) já se posicionou contra, alegando que a proposta é desconectada da realidade técnica da indústria.
O que propõe o projeto de lei AB 1921 da Califórnia?
A lei AB 1921 busca estabelecer um protocolo de fim de vida para softwares de entretenimento, garantindo que o consumidor não perca o acesso ao que comprou apenas porque a empresa decidiu que manter os servidores não é mais lucrativo. A proposta foca em três pilares: autonomia do software, atualizações de compatibilidade ou a devolução do dinheiro. É uma resposta direta a casos recentes de "morte de software", onde jogos caros se tornaram pesos de papel digitais da noite para o dia.
O argumento central dos defensores da lei é que, se um jogador paga o preço total por um título, ele deve ter o direito de acessá-lo perpetuamente, mesmo que as funcionalidades online sejam desativadas. Atualmente, a maioria dos termos de serviço (EULA) trata a compra de um jogo como uma licença temporária e revogável, algo que o projeto de lei pretende desafiar juridicamente.
Por que a ESA afirma que a lei ignora como os jogos funcionam?
A ESA — Entertainment Software Association, que defende os interesses de empresas como Sony, Microsoft e Ubisoft — argumenta que os jogos modernos são ecossistemas complexos dependentes de tecnologias em constante evolução e licenciamentos de terceiros. Segundo a associação, forçar os desenvolvedores a manter sistemas antigos funcionando drenaria recursos que poderiam ser usados na criação de novas experiências e tecnologias inovadoras.
Para a indústria, a imposição de manter versões offline de jogos concebidos estritamente para o ambiente online é tecnicamente inviável em muitos casos. Eles alegam que:
- Muitos jogos dependem de infraestruturas de nuvem proprietárias que não podem ser simplesmente "empacotadas" para o usuário final.
- Licenças de músicas, marcas de carros ou motores gráficos podem expirar, impedindo a redistribuição do software.
- O custo de reengenharia para tornar um jogo Always Online em um produto offline poderia levar estúdios menores à falência.
O movimento Stop Killing Games está certo em pressionar por reembolsos?
O grupo Stop Killing Games — campanha global liderada pelo YouTuber Ross Scott para impedir a destruição deliberada de jogos — defende que a indústria está cometendo um abuso contra os direitos do consumidor. Eles argumentam que a obsolescência programada de softwares é uma prática predatória. O caso de The Crew (jogo de corrida da Ubisoft — desenvolvedora francesa famosa por franquias como Assassin's Creed), que foi removido das bibliotecas dos jogadores após o desligamento dos servidores, é o exemplo máximo de por que essa lei é necessária.
A tese do movimento é simples: se a empresa não pode garantir o acesso ao jogo para sempre, ela não deve vendê-lo como um produto, mas sim como um serviço de assinatura claramente identificado. Vender um jogo a 70 dólares e depois torná-lo inacessível é, na visão do grupo, uma forma de fraude digital. A pressão do Stop Killing Games foi fundamental para que políticos como Chris Ward levassem o debate para as esferas governamentais.
É tecnicamente possível manter todo jogo online funcionando offline?
Aqui reside o ponto mais polêmico do debate, onde argumentos técnicos e éticos se chocam. Embora a ESA alegue impossibilidade técnica, a história da comunidade modder prova o contrário com frequência. Servidores privados criados por fãs e patches de compatibilidade demonstram que, com vontade política e técnica, a maioria dos jogos pode, sim, ser preservada.
"A preservação não é apenas uma questão de nostalgia, é uma questão de propriedade e respeito ao investimento do consumidor."
No entanto, jogos do gênero MMO (Massively Multiplayer Online) ou títulos baseados em microserviços distribuídos apresentam desafios reais. Transformar um jogo que roda em 50 servidores simultâneos em um executável único de PC não é trivial. Por outro lado, a lei AB 1921 oferece a alternativa do reembolso, o que coloca o ônus financeiro sobre a empresa que escolhe arquiteturas que impedem a preservação. Isso forçaria a indústria a projetar jogos pensando no fim de sua vida útil desde o primeiro dia de desenvolvimento.
A indústria de games está usando o argumento da inovação como escudo?
Defender que uma lei de preservação impediria a inovação soa como uma tática de medo corporativo. A inovação tecnológica nunca foi impedida por leis de proteção ao consumidor em outros setores, como o automotivo ou de eletrônicos. Pelo contrário, regulamentações costumam gerar soluções mais eficientes e sustentáveis.
O que a ESA realmente parece temer não é a falta de inovação, mas a perda do controle absoluto sobre o ciclo de vida dos produtos. Se os jogadores puderem continuar jogando o título do ano passado indefinidamente, a pressão para comprar a sequência anual ou gastar em novas microtransações diminui. A preservação de jogos é, portanto, uma ameaça direta ao modelo de negócios de "engajamento infinito" que domina o mercado AAA atual.
Por que isso importa para o futuro dos jogadores?
O desfecho desta batalha na Califórnia servirá como um precedente global. Sendo a sede de muitas das maiores empresas de tecnologia do mundo, o que for decidido lá terá efeito cascata em outros mercados, inclusive no Brasil. A luta pela AB 1921 é a luta para definir se somos donos do que compramos ou apenas inquilinos de bits que podem ser despejados a qualquer momento.
- Direito de Propriedade: Estabelece se o conteúdo digital tem o mesmo valor legal que um bem físico.
- Responsabilidade Corporativa: Obriga empresas a planejarem o encerramento de seus produtos de forma ética.
- Preservação Histórica: Garante que a cultura dos videogames não se perca conforme servidores antigos se tornam obsoletos.
- Transparência de Venda: Pode forçar lojas digitais a serem mais claras sobre o que é uma "compra" e o que é um "aluguel".


